
Do underground de São Paulo para os porões de Berlim, passando pelos pubs de Londres e os festivais punk mais lendários do mundo.
O Asfixia Social está em uma fase histórica, levando sua mistura explosiva de punk, reggae e rap para uma tour de mais de 20 datas pela Europa. Com o manifesto “Walls Won’t Make You Safe”, a banda não apenas se apresenta — ela ocupa espaços, confronta injustiças e constrói pontes culturais entre as ruas do Brasil e o cenário alternativo europeu.
Conversamos com Kaneda, a voz à frente do Asfixia, sobre os bastidores dessa jornada, os desafios da estrada, o impacto de tocar no icônico Rebellion Festival e como a banda tem levado o discurso político e a energia das ruas para cada cidade por onde passa.
A turnê se chama “Walls Won’t Make You Safe”. Como esse conceito se conecta com a Europa atual e com a mensagem que vocês querem passar nos palcos?
“Walls Won’t make you Safe” – Muros não vão te Proteger, fala sobre as barreiras físicas e ideológicas criadas pra controle social. Os governos e corporações dividem pra conquistar. Guerras, fome, fascismo, genocídio na Palestina, no Sudão, extremismo e caça às bruxas. Muitos acham que dentro de seus condomínios estão a salvo, mas quem será o próximo alvo se não lutarmos por justiça para todos?
Já passaram por cidades bem diferentes culturalmente — como foi a recepção do público na Alemanha em comparação com França ou Portugal?
A cena underground e os festivais independentes aqui na Europa em geral são muito bem organizados, estruturados e profissionais. E pra gente é sempre bom, porque tem muita diversidade na programação e o Asfixia Social junta diversos estilos e tribos. Na Alemanha e Holanda rola uma cena punk mais tradicional, em casas com décadas de história. Já na França, tem uma cena hardcore e hiphop mais influente também. Portugal já tem a facilidade do idioma e a presença de forte público do Brasil. Cada lugar é diferente mesmo, mas o público é bem receptivo!
O Rebellion Festival é um marco no circuito punk mundial. Qual a sensação de tocar la?
É um evento foda! Centenas de bandas do mundo todo, público de todos os cantos. Pra gente é uma honra fazer parte da programação e tocar num dos principais palcos. Nosso som tem ido pra um lado bastante pesado, eclético e dançante! Depois de 20 e poucos shows nessa tour vamos chegar na máxima energia por lá, com certeza vai ser insano!
Quais foram os momentos mais inesperados ou marcantes da tour até agora?
Os shows tem sido cabulosos! Energia lá em cima… o que mais marcou essa tour talvez seja a interação com o público durante os shows, muita gente com nossas camisetas de outras tours e as músicas novas que começamos a lançar com Walls Won’t Make You Safe.
Como é manter a energia e o discurso político vivos numa tour tão intensa, com shows praticamente dia sim, dia não?
É corrido! Viagens longas, trocando praticamente todo dia de hotel, passagem de som, depois show, depois uma rápida ideia com o público, venda de merch, e logo já temos que descansar pra partir de novo. Mas a energia se renova com os próprios shows porque a troca com o público é como um combustível pra gente. E o discurso tem muito a ver com nossa vivência, o dia a dia. Levamos pro show também a realidade das ruas do Brasil e o que presenciamos aqui.
Vocês já tinham tocado na Europa antes. O que mudou desta vez e o que mais surpreendeu até agora?
Essa é nossa 4a tour na Europa. Estivemos aqui em 2019, 2022, 2024 e agora em 2025. O que mais nos surpreendeu positivamente foi o crescimento do nosso público por aqui. Estamos muito honrados em fortalecer as conexões da cultura de rua brasileira com outros povos.
Falando do aspecto negativo, vemos o quanto a extrema direita e o fascismo cresceu rapidamente por todos os cantos da Europa. O discurso de ódio contra imigrantes aumentou. E é pra combater essa onda de ignorância que seguimos cantando junto ao público e ocupando os espaços.
Como tem sido o contato com outras bandas e artistas locais durante os festivais? Rolou alguma conexão musical nova?
Com certeza, o apoio das bandas locais é fundamental! Em Berlim tocamos com a banda punk Pigeons, formada só por mulheres da cena. Em Amsterdam tocamos com a Asociaal Kabaal e Kiss My Knoblauch. Em Nieuwegein tocamos com a excelente banda Folk/Punk Hobo Jobos. Em Concarneau contamos com o apoio dos irmãos da Hangover e Chris Rolling Dancing Squad. No festival Rock im Daal vimos o show do mexicano Lev Radagan (vocês ainda vão ouvir muito dele) e de bandas como Ol, Cat Called Molly e Toshers. Em Colônia tocamos com a Die Netten Jungs von Nebenan e em Dusseldorf com os franceses da Psycho Squatt, som muito foda! É importante citar também o trabalho de coletivos como o CDP de Braga (PT), Bring your Nun em Hastings (UK), da Deadsounds em Liverpool, da Deadwave Records em Londres, bandas amigas como a Rats Don’t Sinc (FR), a Calhau Store (PT), a agência Hidden Talent da Inglaterra, a Fusa Booking em São Paulo e nossos irmãos da Agency12 na Holanda… além da cobertura de diversos jornalistas e veículos independentes, tem muita gente firmeza na conexão.
A experiência fora do Brasil está influenciando a banda criativamente? Podemos esperar novos sons ou composições inspiradas nessa vivência?
Com certeza. As nossas lutas são locais no Brasil mas também são globais. Nos primeiros discos tínhamos poucas coisas em inglês e espanhol. Conforme fizemos as primeiras tours aqui fomos traduzindo uns refrões, pra galera entender melhor mesmo, e em 2024 lançamos nosso primeiro álbum majoritariamente em Inglês, justamente pra ampliar os horizontes e falar sobre temas importantes pro mundo todo. Hoje o nosso show é uma mistura de estilos e idiomas, muito pela vivência aqui fora, sem perder nossa essência brasileira ou deixar de cantar em Português… mas expandimos nossa atuação.
Por fim: o que vocês querem que o público europeu leve do Asfixia Social depois de cada show?
A energia pra gritar contra as injustiças, o ímpeto pra sermos mais coletivos e sintonizar a música pra libertar mentes. Tem muita gente firmeza que veste a camisa com a gente pra vida, e a gente quer sempre retribuir isso com mais música, som pesado e calor humano.








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