
No último 22 de outubro, o Gravador Pub viveu uma daquelas noites em que o tempo parece se curvar ao som. Sob luzes quentes, fumaça e o zumbido constante dos amplificadores, o trio ucraniano Stoned Jesus transformou o pequeno palco num altar do stoner rock moderno. A casa estava quase lotada, o público pulsava, e havia uma vibração coletiva que unia fãs de todas as idades — muitos deles cantando cada verso como quem reencontra uma velha oração.
A abertura com “Bright Like the Morning” funcionou como um despertar espiritual. A música, com sua progressão ascendente e atmosfera hipnótica, foi recebida com entusiasmo imediato — a plateia já completamente entregue. “Porcelain” e “Shadowland” mantiveram o clima etéreo, mesclando melodia e densidade, enquanto Igor Sydorenko, de semblante sereno e sorriso constante, guiava o público entre o peso e a introspecção com uma presença magnética.
Quando soaram os primeiros acordes de “Thessalia”, o Gravador vibrou. O público não apenas acompanhava — ele se fundia ao som. Em “Thoughts and Prayers”, Igor brincava com a plateia, trocando olhares e gestos, enquanto o baixista Serhii Slobodianyk e o baterista Dmytro Zinchenko sustentavam um groove denso e preciso, daqueles que fazem o chão vibrar.
O momento mais intenso veio com “Silkworm Confessions” e “Black Woods” — dois hinos do stoner contemporâneo que soaram como preces em meio à fumaça e à distorção. O público respondeu com braços erguidos, olhos fechados e vozes fundidas às guitarras. Era uma celebração coletiva, um transe sonoro.
“Here Come the Robots” trouxe um tom mais direto, quase punk, e fez o Gravador cantar em coro. Mas nada se comparou à catarse de “I’m the Mountain”, que fechou o set principal com dez minutos de pura imersão. A canção cresceu como uma maré — começou calma, quase contemplativa, e terminou em uma explosão sonora que arrancou gritos e aplausos ensurdecedores.
Chamados de volta aos gritos, o trio retornou com “Low” e “Electric Mistress”, encerrando o ritual em alta voltagem. A banda estava visivelmente emocionada, sorrindo, agradecendo em português e prometendo voltar. Era impossível não perceber o quanto aquele momento — longe de casa, mas cercado por amor e ruído — também era especial para eles.
Mais do que um show, o Stoned Jesus entregou uma experiência coletiva.
Entre distorções, groove e espiritualidade, o trio mostrou por que é uma das bandas mais respeitadas do gênero: porque o peso deles não é apenas sonoro, é humano.
No Gravador Pub, cada riff foi um abraço. Cada refrão, um grito de resistência.
E naquela noite, entre amplificadores e almas em transe, Porto Alegre encontrou sua própria montanha.




















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