Michael Graves em ação no palco, cantando com intensa presença teatral enquanto os membros da banda o acompanham. O vocalista usa uma máscara e fantasia impactantes, com luzes e decoração criando um ambiente sombrio e energético.

Há noites em que o punk deixa de ser apenas som e vira ritual — uma celebração sombria onde cada grito ecoa como prece e cada acorde é uma lâmina. A passagem de Michael Graves pelo palco do Espaço Marin em Porto Alegre não foi simplesmente um show: foi um retorno visceral ao universo putrefato, romântico e macabro que marcou sua era no Misfits, mergulhando inteiro nos álbuns American Psycho (1997) e Famous Monsters (1999).

E sim — ele tocou na íntegra.

Sem economia, sem frescura, sem pedir licença.

Da máscara meio Hannibal, meio manicômio do baixista, à maquiagem espectral e a cartola de caçador de almas do vocalista, o clima era claro: aquilo era um funeral punk com direito a coro, suor e devoção. As luzes — entre verdes envenenadas e amarelos cadavéricos — criavam o cenário perfeito para a estética death-theater que sempre orbitou a fase mais teatral do Misfits.

E o público? Fanatismo puro.

Braços erguidos, tatuagens de caveira, dedos apontando, gritos rasgados na cara do palco. Punk é participação — e ali ninguém ficou parado.

Quando “Phibes” abriu a noite, tudo que se ouviu foi a explosão coletiva de gargantas e punhos. O repertório correu como uma motosserra acelerada:

  • Walk Among Us
  • Dig Up Her Bones
  • American Psycho
  • Crimson Ghost
  • Scream
  • Dust to Dust
  • Where Eagles Dare
  • Hybrid Moments

Era impossível não notar:

Os clássicos da fase Graves bateram forte, mas quando vieram as faixas da era Danzig — o salão virou um culto profano. “Hybrid Moments” e “Where Eagles Dare” sempre foram hinos universais da desilusão punk e ali ganharam forma como exorcismo coletivo.

A banda entregou peso, BPM nervoso, backing vocal cortante e presença de palco que não vacilou. E o vocal? Expressivo, teatral, carregado de vibrato trágico — do jeitinho que os fãs dessa era querem.

Graves sempre foi o lado mais “horror B-movie meets crooner trágico” da discografia do Misfits, e o show reforçou essa estética. O drama, o gesto exagerado, o sorrisinho demoníaco, a mão apontando para o público como maestro do caos… tudo ali tinha intenção.

E isso divide opiniões — punk é crueza, mas também é performance.

Aqui, funcionou.

“Dig Up Her Bones” — cantada como se a cidade inteira tivesse sido enterrada viva.

“Scream” — soou como sirene de ataque aéreo.

“Dust to Dust” — arrepios, peso, clima funeral.

“Hybrid Moments” — do tipo que coloca uma geração inteira pra cantar olhando pro vazio e lembrando por que o punk salva.

Até o cover de “War Pigs” apareceu no final — inesperado, sujo, nervoso. O Sabbath encontrou o misfit.

Essa turnê não é nostalgia — é necrofile punk.

Uma viagem a um período subestimado da história do Misfits, montada com entrega teatral, suor, vibração real de submundo e respeito absoluto aos fiends da velha guarda.

Se você cresceu vendo pôster de caveira na parede, rabiscando lyrics mórbidas no caderno e acreditando que o horror reflete o mundo real…

esse show foi lar.

Não é sobre perfeição — é sobre presença, suor e sangue imaginário respingando do palco.

E nisso, ninguém saiu limpo.

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