
O Opinião já pulsava antes do primeiro acorde soar, mas ainda havia espaço na casa quando a Budang subiu ao palco. Não uma casa vazia, longe disso, mas um público que ainda se acomodava, chegava aos poucos, pegava cerveja, encontrava amigos. E mesmo assim, a banda não economizou entrega.
A Budang abriu a noite com postura firme, presença e intensidade. Sem atitude de coadjuvante, ocupou o palco com autoridade e construiu um set coeso, direto e cheio de identidade. Faixas como “magia”, “budangol”, “neonazi”, “bozo” e “bolsonanny” funcionaram como gatilhos imediatos para as primeiras rodas, empurrões e mosh pits que começaram a surgir na pista. A resposta do público foi crescendo música após música, como se a casa fosse sendo preparada emocionalmente para o que viria depois.






A banda mostrou maturidade de palco, controle de dinâmica e uma entrega física real, daquelas que não se simulam. Quando deixou o palco, o clima já era outro, o Opinião estava quente, atento e completamente ligado.
E então veio o Dead Fish.
Quando as luzes caíram novamente, a casa já estava completamente lotada. Sem espaço para respiro, sem área neutra na pista, sem corpo parado. O tipo de cenário que já anuncia, por si só, o tamanho do que vai acontecer. E a banda correspondeu com autoridade absoluta.
O Dead Fish assumiu o controle da noite com a naturalidade de quem domina esse território há décadas, mas sem recorrer à nostalgia. Tudo soava atual, necessário, urgente. A sequência inicial com “Afasia”, “Linear” e “Iceberg” já detonou o primeiro grande colapso coletivo da pista. A partir daí, foi uma sucessão de rodas abertas, mosh pits constantes e gente se jogando do palco a todo momento.
O show foi físico, intenso e real.
Tão real que, em meio ao caos organizado da pista, este que escreve tomou um chute no rosto de alguém que havia acabado de pular do palco, e seguiu firme, porque noites como essa não se assistem de longe. Se atravessam.
Momentos como “Viver”, “A Cura” e “Me Ensina” trouxeram aquele contraste emocional que só o Dead Fish domina, peso e sensibilidade caminhando juntos. O Opinião inteiro cantava junto, com vozes roucas, punhos erguidos e olhos atentos. Não era público. Era coro.
A força do show estava justamente nesse equilíbrio raro entre impacto físico e profundidade emocional. Em faixas como “No Chão”, “Reprogresso”, “Proprietários do 3º Mundo” e “Autonomia”, ficava evidente o quanto o discurso da banda segue atual, necessário e desconfortavelmente verdadeiro.
Tecnicamente, o Dead Fish está em fase impecável, som coeso, execução precisa, entrosamento absoluto e uma presença de palco que dispensa exageros. Não há artifício, não há excesso. Há verdade, e isso sustenta tudo.





O encerramento com “Venceremos”, “Sonho Médio” e “Bem-vindo ao Clube” não soou como fim, mas como síntese emocional de tudo o que aconteceu ali dentro. Gente suada, marcada, rouca, sorrindo cansada, sinais claros de quem viveu algo que vai permanecer.
No fim, o que aconteceu no Opinião foi mais do que a soma de dois bons shows.
Foi o retrato de uma cena viva, pulsando, consciente de si.
A Budang representando o agora com personalidade.
O Dead Fish reafirmando, com força esmagadora, por que segue sendo essencial.
Não foi só um grande show.
Foi daquelas noites que deixam marca no corpo e na memória.








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