Homem de óculos, com expressão séria, usando camiseta preta e acessórios prateados, posando com as mãos unidas.

Um encontro em Porto Alegre, uma barra de chocolate e a realização silenciosa de um sonho.

Conheci o trabalho de Ross Halfin antes mesmo de entender o que era fotografia. Ainda criança, folheando revistas, discos, encartes, aquelas imagens do Iron Maiden não pareciam fotos comuns. Havia algo ali que não estava só no enquadramento ou na luz. Era atmosfera. Era verdade. Era como se alguém tivesse conseguido parar o tempo no exato instante em que o metal se tornava maior do que o som.

Cinco homens com camisas nuas e vendados nos olhos, posando em linha contra uma parede branca.

Naquele momento, eu não sabia o nome do fotógrafo. Só sabia que aquelas imagens ficavam.

Com o passar dos anos, quando a fotografia de shows entrou na minha vida, primeiro como curiosidade, depois como prática, ainda que amadora, Ross Halfin deixou de ser apenas uma assinatura em créditos. Virou referência silenciosa. Um norte ético e estético. Alguém que mostrava que fotografar música não era sobre espetáculo, mas sobre presença.

Halfin nunca planejou ser o cronista visual do heavy metal. Nascido em Londres, em 1957, criado em Wimbledon Chase, filho de uma mãe escocesa e de um pai russo-judeu com uma vida improvável, ator, depois editor musical, autor de um hit número um britânico, ele cresceu cercado por histórias onde arte, sobrevivência e deslocamento se misturavam. Talvez por isso tenha aprendido cedo que o mundo real é mais complexo do que qualquer conceito.

Seu plano inicial era ser pintor. Entrou na Wimbledon School of Art em 1975, mas se frustrou com o academicismo, com a obsessão pelo modernismo, com a sensação de que a arte havia se afastado da vida. A câmera surge quase como um gesto de rebeldia: levá-la para shows porque era possível, porque ninguém impedia, porque a música estava ali, pulsando.

Ele mesmo diria depois que virou fotógrafo de rock “por acidente”. Mas acidentes só acontecem com quem está atento.

No fim dos anos 1970, trabalhando para a Sounds, Halfin mergulha no punk. The Clash, Sex Pistols, The Jam, The Adverts, Blondie. Bandas que não pediam polimento, pediam impacto. Ali ele aprende que uma imagem não precisa ser perfeita para ser honesta. Grão vira linguagem. Erro vira movimento. A câmera deixa de ser ferramenta e passa a ser extensão do corpo.

Homem com cabelo longo e bigode, usando uma camiseta preta e um chapéu de estilo militar. Ele tem os braços cruzados e olha diretamente para a câmera, em um fundo branco.

Quando o heavy metal cresce e toma proporções épicas nos anos 1980, Halfin não muda de postura, apenas muda de escala. AC/DC, Iron Maiden, Judas Priest, Def Leppard, Kiss, Mötley Crüe. Em 1980, torna-se fotógrafo-chefe da recém-criada Kerrang!, assinando a primeira capa da revista. Aquela imagem ajuda a definir visualmente um gênero inteiro.

No mesmo ano, registra Bon Scott pela última vez. Sem saber. Sem anunciar. Apenas estando ali. Como quase sempre.

Décadas se passam. Halfin vira sinônimo de estrada. Não fotografa só o palco, mas o depois: camarins, hotéis, ônibus, silêncios. Aprende quando não fotografar. Constrói confiança. Entende que intimidade não se exige, se conquista. Por isso fica. Por isso retorna. Por isso suas imagens não parecem invasões, mas testemunhos.

Nos anos 1990, começa a fotografar paisagens, viagens, céus. O pintor reaparece. Anos depois, essas imagens viriam a público no livro Sojourner. Ele diz preferir árvores a pessoas, porque árvores não gritam nem apressam. Não é desprezo, é maturidade.

E então, em 2022, o tempo dá uma volta curiosa.

Durante a turnê End of the Road do Kiss, em Porto Alegre, eu estava em frente ao hotel onde a banda estava hospedada. Um dia qualquer, um intervalo banal entre expectativa e ansiedade de fã. De repente, reconheço aquele rosto. Ross Halfin. Não atrás de uma câmera. Não cercado por músicos. Apenas saindo do hotel em direção ao shopping.

Fui atrás. Eu e mais dois amigos.

Ele entrou nas Lojas Americanas. Comprou uma barra de chocolate. Lacta ao leite, se não me engano. A cena era quase absurda para quem cresceu vendo o nome dele associado a ícones do rock mundial. Ali estava o homem que ajudou a construir a imagem do metal… escolhendo chocolate numa tarde comum.

Um dos meus amigos carregava um livro dele nas mãos. Esperamos ele sair da loja. Pedimos um autógrafo. Ele parou. Sorriu. E ficou.

Ficamos ali por cerca de trinta minutos. Falando de rock, fotografia, música, discos de vinil. Sem pressa. Sem pose. Em certo momento, ele nos convidou para, no dia seguinte, irmos a lojas de vinil procurar raridades. Um convite simples, quase doméstico, vindo de alguém que passou a vida inteira na estrada.

Mas era dia de show do Kiss. Queríamos estar na primeira fila. Tivemos que dizer não.

Duas pessoas vestidas como músicos de rock com roupas e maquiagem estilizadas, sentadas em um palco com fundo escuro.

E, ainda assim, ali já estava feito.

Porque naquele momento — entre um chocolate, um livro autografado e uma conversa sobre discos — se realizava o sonho de alguém que fotografava shows, ainda que de forma amadora, e que tinha em Ross Halfin não um ídolo distante, mas um exemplo possível. Alguém real. Alguém acessível. Alguém que provava, na prática, que grandeza não precisa de encenação.

Hoje, quando olho para a trajetória de Ross Halfin, essa cena simples faz tanto sentido quanto suas fotos mais icônicas. Ele nunca pareceu interessado em ser maior do que a música que documentou. Preferiu estar ao lado. Preferiu ficar quando o barulho acabava.

Por isso ele ainda importa.

Por isso suas imagens ainda respiram.

Por isso seu trabalho continua ensinando.

Ross Halfin não apenas fotografou o rock.

Ele viveu tempo suficiente dentro dele para transformá-lo em memória.

E às vezes, essa memória começa de um jeito inesperado —

numa loja comum,

com uma barra de chocolate na mão.

IN ENGLISH

ROSS HALFIN: MEMORY, THE ROAD, AND THE SILENCE AFTER THE RIFF

A meeting in Porto Alegre, a chocolate bar, and the quiet fulfillment of a dream.

I discovered Ross Halfin’s work before I even understood what photography was. As a child, flipping through magazines, records, and liner notes, those Iron Maiden images didn’t feel like ordinary photos. There was something there that went beyond framing or light. It was atmosphere. It was truth. It felt as if someone had managed to stop time at the exact moment when metal became bigger than sound itself.

Back then, I didn’t know the photographer’s name. I only knew those images stayed with me.

As the years passed and concert photography entered my life—first as curiosity, then as practice, even if still amateur—Ross Halfin stopped being just a credit line. He became a quiet reference point. An ethical and aesthetic compass. Someone who showed that photographing music wasn’t about spectacle, but about presence.

Halfin never planned to be the visual chronicler of heavy metal. Born in London in 1957, raised in Wimbledon Chase, the son of a Scottish mother and a Russian-Jewish father with an unlikely life—an actor who later became a music publisher and the writer of a British number-one hit—he grew up surrounded by stories where art, survival, and displacement intertwined. Perhaps that’s why he learned early on that the real world is more complex than any concept.

His original plan was to be a painter. He entered the Wimbledon School of Art in 1975, but became disillusioned with academicism, with the obsession over modernism, with the feeling that art had drifted away from life. The camera appeared almost as an act of rebellion: taking it to concerts because it was possible, because no one stopped him, because the music was there, pulsing.

He would later say he became a rock photographer “by accident.” But accidents only happen to those who are paying attention.

In the late 1970s, working for Sounds, Halfin dove into punk. The Clash, Sex Pistols, The Jam, The Adverts, Blondie. Bands that didn’t ask for polish, they demanded impact. There he learned that an image doesn’t need to be perfect to be honest. Grain became language. Mistake became movement. The camera stopped being a tool and became an extension of the body.

When heavy metal grew and took on epic proportions in the 1980s, Halfin didn’t change his attitude—he only changed scale. AC/DC, Iron Maiden, Judas Priest, Def Leppard, Kiss, Mötley Crüe. In 1980, he became chief photographer of the newly launched Kerrang!, shooting the magazine’s first cover. That image helped visually define an entire genre.

That same year, he photographed Bon Scott for the last time. Without knowing it. Without announcing it. Simply by being there. As he almost always was.

Decades went by. Halfin became synonymous with the road. He didn’t photograph only the stage, but what came after: dressing rooms, hotels, buses, silences. He learned when not to photograph. He built trust. He understood that intimacy isn’t demanded, it’s earned. That’s why he stayed. That’s why he returned. That’s why his images don’t feel like invasions, but like testimonies.

In the 1990s, he began photographing landscapes, travels, skies. The painter resurfaced. Years later, those images would be published in the book Sojourner. He says he prefers trees to people, because trees don’t shout or rush you. It’s not disdain—it’s maturity.

And then, in 2022, time took a curious turn.

During Kiss’s End of the Road tour in Porto Alegre, I was standing in front of the hotel where the band was staying. An ordinary day, a mundane pause between anticipation and fan anxiety. Suddenly, I recognized that face. Ross Halfin. Not behind a camera. Not surrounded by musicians. Just leaving the hotel and heading toward the mall.

I followed him. Me and two friends.

He walked into Lojas Americanas. Bought a chocolate bar. Milk chocolate, Lacta, if I remember correctly. The scene was almost absurd for someone who grew up seeing his name associated with rock icons. There he was—the man who helped build the image of metal—choosing chocolate on an ordinary afternoon.

One of my friends was holding one of his books. We waited for him to leave the store. Asked for an autograph. He stopped. Smiled. And stayed.

We stood there for about thirty minutes. Talking about rock, photography, music, vinyl records. No rush. No posing. At one point, he invited us to go record shopping the next day to hunt for rarities. A simple, almost domestic invitation, coming from someone who had spent his entire life on the road.

But it was Kiss show day. We wanted to be at the front row. We had to say no.

And still, it was already done.

Because in that moment—between a chocolate bar, a signed book, and a conversation about records—the dream of someone who photographed shows, even if only as an amateur, quietly came true. Someone who saw in Ross Halfin not a distant idol, but a possible example. Someone real. Someone accessible. Someone who proved, in practice, that greatness doesn’t need staging.

Today, when I look at Ross Halfin’s trajectory, that simple scene makes as much sense as his most iconic photographs. He never seemed interested in being bigger than the music he documented. He chose to stand beside it. He chose to stay when the noise faded.

That’s why he still matters.

That’s why his images still breathe.

That’s why his work continues to teach.

Ross Halfin didn’t just photograph rock.

He lived inside it long enough to turn it into memory.

And sometimes, that memory begins in an unexpected way—

in an ordinary store,

with a chocolate bar in hand.

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