Banda se apresentando ao vivo em um palco, com cinco músicos tocando instrumentos como guitarra, baixo e bateria, enquanto a vocalista canta.

Há noites em que o underground deixa de ser apenas entretenimento.
Ele se transforma em manifesto.

No 8 de março, data marcada pelo Dia Internacional das Mulheres, o Bar Ocidente, em Porto Alegre, recebeu mais uma edição do Riffs de Resistência. No palco, 3D Negra Jaque, Neptunn e Manger Cadavre? construíram uma noite onde música, discurso e identidade caminharam lado a lado.

O público que atravessava as portas do Ocidente não buscava apenas um show. Havia ali algo maior: um senso de comunidade, de pertencimento e de ocupação de espaço. Algo que o underground sempre soube fazer bem.

A abertura ficou nas mãos da 3D, nome histórico da cena punk gaúcha. A banda nasceu em 1986, no bairro Bom Fim, formada exclusivamente por mulheres — um gesto quase revolucionário dentro de uma cena que, por muito tempo, foi dominada por homens. Após anos afastadas, o retorno veio em 2016, com a formação atual: Polaca Rocha (vocal), Julia Barth (baixo), Letícia Rodrigues (guitarra) e Liege Milk (bateria).

Quatro mulheres se apresentam em um palco, uma delas segurando um violão, enquanto as outras tocam instrumentos; ambiente de um show com iluminação baixa e parede desgastada ao fundo.

O quarteto subiu ao palco com a energia crua que o punk exige. Sem rodeios. Apenas riffs, atitude e história.

Quando “Mal Educada”, “Desorientada” e “Autista” surgiram no repertório, ficou evidente como as músicas escritas ainda nos anos 1980 continuam dolorosamente atuais. As letras falam de relações abusivas, autonomia feminina e das contradições sociais que atravessam décadas. O público respondeu cantando junto, transformando o início da noite em um verdadeiro coro punk.

A segunda atração foi Negra Jaque, que trouxe outra pulsação para o evento. Sua apresentação ampliou o alcance sonoro e discursivo do Riffs de Resistência, lembrando que resistência também se constrói com palavra, ritmo e presença.

Banda se apresentando ao vivo, com vocalista feminina cantando, DJ em um laptop e guitarrista tocando. Palco iluminado com luz colorida e instrumentos ao fundo.

Entre beats, versos e discurso afiado, Jaque conduziu o público por músicas como “Deus que Dança”, “Maria Madalena” e “80 Motivos”, conectando poesia, identidade e crítica social em uma apresentação intensa, que prendeu a atenção da pista do início ao fim.

Na sequência, a Neptunn mergulhou o Ocidente em uma atmosfera mais densa e pesada. Com a formação atual composta por Dienifer Vieira (vocal), Rafael Giovanoli (guitarra), Franklin Nunes (guitarra), Nathália Ernst (baixo) e Matheus Montenegro (bateria), a banda construiu um set envolvente que transitou entre momentos atmosféricos e explosões de peso.

Banda se apresentando ao vivo em um palco iluminado, com músicos tocando instrumentos e cantando, enquanto uma plateia assiste.

Faixas como “Onward to Nothingness”, “Neptunn Rise” e “Transcendence” conduziram o público por paisagens sonoras intensas, enquanto Dienifer Vieira mantinha uma presença de palco marcante, dialogando com o público entre algumas músicas e reforçando o caráter emocional da apresentação. O encerramento com “Resignify”, em versão acústica, trouxe um momento de respiro antes da reta final da noite.

Quem ficou responsável por fechar o evento foi a Manger Cadavre?, que transformou o palco em um campo de tensão elétrica. Formada por Nata Nachthexen (vocal), Paulo Alexandre (guitarra), Bruno Henrique (baixo) e Marcelo Kruszynski (bateria), a banda despejou uma sequência de músicas carregadas de crítica social, peso e intensidade.

Banda se apresentando ao vivo em um palco, com um vocalista e quatro músicos tocando instrumentos, incluindo guitarra e bateria.

Faixas como “O Homem de Bem”, “Câncer do Mundo” e “A Raiva Muda o Mundo” vieram como golpes diretos, enquanto a apresentação avançava com a urgência que já se tornou marca registrada da banda. O bis com “Em Memória” fechou o set com a densidade necessária para encerrar uma noite marcada por energia, reflexão e resistência.

Mas o Riffs de Resistência não se limitou apenas ao palco. Ao longo da noite, o espaço também abrigou bancas de merch das bandas, além de artistas independentes expondo desenhos e quadros. Havia ainda doces e salgados veganos, reforçando o caráter comunitário e autônomo do evento.

E quando a música terminou, a noite ainda guardava um último gesto simbólico: comida vegana gratuita distribuída para o público, transformando o encerramento em um momento de convivência e partilha.

Quando as luzes começaram a subir no Ocidente, a sensação era clara.

O Riffs de Resistência não é apenas um evento.
É um espaço onde música encontra discurso, identidade, arte e comunidade.

E em uma cidade como Porto Alegre, isso sempre faz diferença.

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