Três homens posando em frente a um mural com a imagem de uma famosa banda de hip-hop, em um parque com árvores e arte de rua ao fundo.

Porto Alegre, início dos anos 90.

Antes de qualquer estrutura, o que existia era vontade. O rap ainda não tinha espaço definido na cidade, e a cena era dividida. De um lado, os bailes black. Do outro, o rock underground. Circular entre esses dois mundos não era comum.

A L.O.R.D.S. fez isso desde o começo.

Em conversa com Giovanni Maglia, da Cogumelo em Cena, Piá, DJ Anderson e Edson Legal revisitam essa trajetória como algo que nunca foi planejado, mas que sempre foi necessário.

“Ultramen era uma banda de rock com influência de rap… e nós éramos um grupo de rap com influência de rock.”

O encontro virou parceria. Vieram festas, shows e uma movimentação que ajudou a consolidar uma cena que ainda estava sendo construída.

“A gente fazia festa junto e bombava.”

Esse trânsito entre o rap e o rock foi essencial para a sobrevivência do grupo em uma cidade distante dos grandes centros e com pouca estrutura para o hip hop naquele momento.

“Se a gente sobreviveu naquela época, foi por causa disso.”

A construção não era só musical. Era também social.

“Tu não via negro dirigindo carro… não via. Os pretos estavam no baile black, no carnaval.”

Ao ocupar diferentes espaços, a L.O.R.D.S. ajudava a romper essa lógica. No palco, a sensação não era de individualidade.

“Quando a gente tocava, não era só nós… era toda uma galera junto.”

Essa ideia coletiva também se refletia na forma de fazer música. Não havia equipamento suficiente, nem conhecimento técnico disponível para o rap dentro dos estúdios.

“A gente tinha um sampler de 11 segundos.”

Era preciso criar soluções.

“Eu mandei fazer um cabo pra ligar dois samplers e ter mais tempo.”

A produção era baseada em tentativa e erro. A mixagem não era automatizada.

“A mixagem era ensaiada… cada um fazia uma coisa na hora.”

Os próprios estúdios não estavam preparados para o gênero.

“Os caras estavam acostumados com rock. A voz vinha cheia de reverb… e no rap não é assim.”

Mesmo assim, o disco “O Homem Errado” foi gravado. Um trabalho feito dentro do limite técnico e financeiro, mas que acabou se tornando um marco.

“Não tinha como refazer. Era aquilo.”

Com o tempo, a vida mudou o ritmo da banda.

“Eu virei pai, minha mãe ficou doente… precisava trabalhar.”

A música não desapareceu, mas se transformou em outras atividades. Rádio, produção, discotecagem. Caminhos diferentes, mas ligados à mesma origem.

“A gente nunca se separou de verdade.”

O retorno aconteceu de forma natural. A homenagem ao Piá no Museu do Hip Hop Gaúcho foi o ponto de partida. A partir dali, surgiram novas músicas, novos encontros e a retomada mais concreta da banda.

“Quando nós três estamos juntos, é muito forte.”

Hoje, a L.O.R.D.S. volta com mais experiência e melhores condições técnicas, mas com a mesma essência construída lá atrás.

Esse movimento leva ao show do dia 12 de abril, no Bar Ocidente.

O local não é apenas mais um palco. Faz parte da história do grupo.

“Foi um dos melhores shows da nossa vida… lá.”

Voltar ao Ocidente representa um reencontro com o início de tudo. A noite ainda reúne o Código Penal, DJ Buiu e participações especiais, incluindo Edu K, que também fez parte daquela construção de cena.

A expectativa não é de um show tradicional.

“Talvez seja como naquela época… todo mundo junto.”

A ideia é retomar o espírito coletivo que marcou aqueles primeiros anos. Menos divisão, mais encontro.

A L.O.R.D.S. não volta como lembrança. Volta como continuidade.

Uma história que começou sem estrutura, atravessou diferentes fases e agora retorna ao mesmo lugar onde tudo fez sentido pela primeira vez.

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