(Aqui no Rio) A vida é agonia.

NA VIDA É AGONIA. E NO GARAGE, ELA GRITA.

No último sábado, 11 de abril, o Garage deixou de ser apenas uma casa de shows. Virou zona de impacto.

Duas pistas funcionando ao mesmo tempo, corpos colidindo, suor escorrendo, gritos atravessando o ar. O underground carioca não pede espaço, ele toma. E naquela noite, tomou tudo.

Desde cedo, a casa já estava cheia. Gente que vive isso de verdade. Entre o público, até integrantes do Worst circulavam, assistindo cada banda, como deve ser. Porque ali, ninguém é maior que o som.

A T.D.A.H abriu os trabalhos estabelecendo o tom da noite. O metalcore veio denso, cadenciado, com groove e influência de nu metal, mas carregado de identidade própria. Jonatan Reis conduz com presença e entrega, despejando cada verso com peso real.

Revolta”, “Anestesiado”, “Indiferente” e “Quem Habita” pavimentaram o caminho até o fechamento com “Tempo”, “Doce Vingança” e “Era Só Mais Uma Criança”. Não era introdução. Era aviso.

Sem espaço para respiro, a Stay Safe entrou como confronto direto. Hardcore punk cru, urgente, sem filtro. Tonny Hyung transforma cada linha em ataque, com uma presença que atravessa o palco e atinge em cheio quem está na frente.

“NCNTNBC”, “Noite dos Cria”, “Água”, “NHAI”, “Vai Descer” e “Extinção” criaram uma crescente até “Acerto de Contas”, que não fecha o show, resolve tensão.

No segundo palco, o BK-81 trouxe um caos mais instável, mais experimental. O baixo conduz enquanto a banda tensiona o som e empurra limites.

“Em Nome De”, “Como Matar Calvin Candie”, “Zona Oeste”, “Vendedor de Fé”, “Coragem” e “Carmim” formaram um set que não busca agradar, busca provocar. Era retorno, mas com agressividade. E a resposta veio na mesma medida, roda aberta, two step e impacto constante.

De volta ao palco principal, o Pavio impôs respeito. Som preciso, pesado e direto. Cynthia Tsai transforma a bateria em algo físico, cada batida estoura no peito.

“Servir e Proteger”, “Racista, Você Não É Bem-Vindo Aqui”, “Execução Sumária”, “Grades do Condomínio”, “Brinde à Vida”, “Sem Anistia” e “Estado Livre” vieram como um bloco único de agressão e posicionamento.

Quando o corpo já começava a cobrar, o Cervical entrou para eliminar qualquer chance de descanso. Crossover rápido, sujo e direto.

“Cinzas”, “Alto”, “Destruição”, “Remanejar a Vergonha”, “Fábrica”, “Arquétipo”, “Nuvem Negra” e “Veritas” transformaram o espaço em uma sequência contínua de colisões, stage dives e entrega total.

Na sequência, o HC4 fez sua estreia no Rio sem pedir licença. Hardcore punk cru, direto e sem concessões. “Cagando Regra”, “Medo”, “Raiva”, “Velha Maldita”, “Brasileiro Come Bola”, “Sem Perdão” e “Não Olha Torto Não!” ampliaram ainda mais a intensidade de uma pista que já não tinha controle.

A Cliva trouxe um peso diferente, mais denso, mais sufocante. Menos velocidade, mais pressão. “Abominável”, “Judas”, “Simulacro”, “Virtual Cadáver”, “RIP Peter Pan”, “Ovelha Negra” e “Sangue por Sangue” criaram um ambiente mais fechado, mais pesado, quase claustrofóbico.

Já na virada da noite, o Okinawa Bullets entrou como um choque externo. Diretamente da Colômbia, a banda mistura metal extremo com rap core de forma agressiva e tensa.

Não é só som pesado, é pressão constante. “Myigai”, “Budah”, “Duality”, “Hatori” e “Ronin” vieram como uma sequência de ataque, puxando o público de volta para a roda e mantendo a energia no limite.

Sem deixar a intensidade cair, o Força & Honra assumiu o palco como o último ato antes do colapso.

Direto, sem rodeio, sem construção lenta. “Intro”, “Engano”, “Orgulho”, “Sangue”, “Ideias”, “Força”, “Resiliência”, “Fascista”, “Abismo”, “Confiança” e “Multidões” não soaram como músicas isoladas, mas como afirmações. O público já não reagia, respondia com intensidade máxima.

E então veio o desfecho final.

O Worst sobe e qualquer noção de separação desaparece. Não existe mais palco. Não existe mais público. Existe impacto.

A pista vira organismo. Gente se empurrando, se jogando, se encontrando no caos. Tudo em movimento. Thiago Monstrinho entra com o vocal estrondoso, rasgando o ar. Não tem construção. É direto.

“A Vida Não Tem Dó” vem como sentença sendo devolvida em coro. “Zona de Potência” empurra tudo pra frente e “Que Se Foda” explode como resposta imediata.

César Covero na guitarra corta o ambiente com riffs pesados, Adriano Vilela no baixo sustenta a densidade que vibra no peito, e Bruno Santin na bateria conduz tudo como um ataque contínuo.

Não é só som. É descarga coletiva.

E no meio de tudo isso, é impossível não reconhecer o papel da Let’s Rock, que mais uma vez mostrou como se constrói uma noite desse porte. Estrutura, curadoria e respeito pela cena. Nada ali foi por acaso.

O Garage não recebeu um evento.

Ele absorveu tudo.
Amplificou tudo.
Devolveu tudo.

Porque no fim, a vida é agonia.

E ali dentro, ela não se esconde.

Ela explode.

Texto: Ian Bringel / Foto: Primelo

Deixe uma resposta

Trending

Descubra mais sobre

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading