
Quando a jornada termina e a identidade finalmente se revela
Existe algo interessante na carreira de Edu Falaschi. Mesmo após décadas de trabalho, muitos discos, turnês internacionais e uma trajetória que o colocou entre os maiores nomes do metal brasileiro, ainda há quem observe cada novo trabalho através da lente do passado.

Isso é natural. Afinal, poucos artistas brasileiros participaram de obras tão importantes para o heavy metal mundial quanto Rebirth e Temple of Shadows. No entanto, em MI’RAJ, terceiro capítulo da trilogia iniciada com Vera Cruz e continuada em Eldorado, Edu parece finalmente abandonar a necessidade de dialogar com esse passado e passa a olhar para algo mais importante: sua própria identidade artística.
O resultado é um álbum muito maduro, equilibrado e pessoal.
Se Vera Cruz era uma obra sobre descoberta e Eldorado sobre busca, MI’RAJ é um disco sobre compreensão. É sobre entender quem você é depois que os sonhos foram perseguidos e as certezas desapareceram.
Essa mudança de perspectiva afeta toda a construção do álbum. Embora continue carregando elementos do power metal, do metal progressivo e das grandes orquestrações que marcaram os dois trabalhos anteriores, MI’RAJ abandona parte da necessidade de impressionar o ouvinte através da grandiosidade. O foco agora está na narrativa, nas emoções e na atmosfera.
É um disco que prefere convencer pela construção do que pelo impacto imediato.
E isso funciona bem. Ao longo de suas nove faixas, o álbum cria uma experiência muito mais orgânica do que seus antecessores. As influências orientais deixam de ser apenas um elemento estético e passam a fazer parte da linguagem musical da obra.
Um álbum sobre transcendência
Ao observar a trilogia como um todo, fica evidente que Jorge, personagem central da narrativa, sempre esteve procurando algo.
Em Vera Cruz, ele buscava um novo mundo.
Em Eldorado, buscava um ideal.
Em MI’RAJ, busca a si mesmo.
Essa mudança fica particularmente evidente na faixa-título. A figura de Mi’raj surge quase como uma manifestação espiritual que conduz Jorge ao entendimento de sua própria essência.
Quando o refrão repete: “I am soul, truth and unending”, a sensação é de que o protagonista finalmente compreende que sua jornada nunca foi externa. A verdadeira conquista não está nos territórios percorridos, mas na transformação interior.
Os momentos mais fortes
Entre os diversos destaques do disco, “Intuição” merece atenção especial. Mais do que a primeira composição original em português lançada por Edu Falaschi em mais de vinte anos, a música funciona como um dos centros emocionais da narrativa.
Já “Unchained” apresenta um dos momentos mais criativos do álbum. Sua temática de libertação, reconstrução e superação espiritual ganha ainda mais força através de uma estrutura musical que se permite experimentar.
Outro momento importante aparece em “Circle of Dust”. O encontro entre Edu Falaschi e Roy Khan poderia facilmente se transformar em um exercício de nostalgia para fãs do metal melódico. Felizmente, a música evita essa armadilha.
Uma banda em estado de graça
Embora o álbum leve o nome de Edu Falaschi, seria injusto ignorar o trabalho dos músicos que ajudam a construir sua identidade.
Victor Franco dá um passo importante dentro do projeto. Sua participação na composição é perceptível e ajuda a tornar MI’RAJ um disco menos dependente das fórmulas que marcaram trabalhos anteriores.
Jean Gardinalli também impressiona. Sua estreia em estúdio ao lado de Edu revela um músico extremamente técnico, mas inteligente o suficiente para nunca transformar a música em uma demonstração de habilidade.
Produção e narrativa
A produção de MI’RAJ merece uma análise à parte. Dennis Ward retorna para a terceira colaboração consecutiva dentro da trilogia e mais uma vez desempenha papel fundamental na construção sonora do álbum.
O resultado é um disco que soa moderno, mas sem perder a organicidade necessária para que a narrativa respire.
O melhor capítulo da trilogia?
Essa é a pergunta inevitável. Vera Cruz talvez continue sendo o álbum mais impactante da carreira solo de Edu Falaschi. No entanto, MI’RAJ entrega algo ainda mais difícil: maturidade.
É um disco mais seguro, mais consciente e mais consistente.
Ao final da audição, fica a sensação de que Edu Falaschi não precisava mais provar nada para ninguém. E justamente por isso conseguiu produzir um trabalho tão honesto.
Se Vera Cruz representou o renascimento e Eldorado a expansão de horizontes, MI’RAJ é o momento da consolidação. Um álbum que olha para o passado sem ficar preso a ele e que encontra, na maturidade artística de Edu Falaschi, sua maior força.
Não apenas o melhor capítulo da trilogia, mas um dos trabalhos mais completos de toda a sua carreira.
Nota: 9,0/10







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