MELTON SELLO ACERTA EM CHEIO NA ESTREIA COM “OPA!”: UM ÁLBUM QUE ENTENDE O PASSADO DO POP PUNK SEM FICAR PRESO A ELE

Quem acompanha o pop punk sabe que existe uma armadilha difícil de escapar: a nostalgia. Basta uma guitarra mais aberta, um refrão explosivo e letras sobre relacionamentos para surgirem comparações com o início dos anos 2000. A Melton Sello conhece esse risco e, curiosamente, decide abraçá-lo logo de cara.

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Em “Mais do Mesmo (2000 e Tanto Faz)”, segunda faixa de “OPA!”, a banda praticamente responde às críticas antes mesmo que elas apareçam. “A gente não tem nenhuma pretensão de ser inovador”, canta o quarteto com uma honestidade que hoje parece rara. Em vez de vender uma falsa revolução, a Melton Sello assume suas influências sem qualquer constrangimento. E isso acaba sendo uma de suas maiores virtudes.

Mas há uma diferença enorme entre fazer “mais do mesmo” e fazer isso com personalidade.

É justamente aí que o álbum de estreia encontra sua força.

Lançado pela Deck, “OPA!” reúne doze faixas que transitam pelo pop punk, pelo emo melódico e flertam discretamente com outras sonoridades, sempre mantendo o foco em boas melodias, refrões que ficam na cabeça e letras que falam sobre inseguranças, paixões, amadurecimento e as pequenas confusões da vida cotidiana.

Mais do que um exercício de nostalgia, o disco mostra que a Melton Sello entende muito bem a linguagem do gênero. Não tenta reinventá-la, mas também não cai na armadilha de apenas reproduzir fórmulas prontas.

Um começo que já entrega a personalidade da banda

A abertura, “O Primeiro Álbum!”, dura pouco mais de um minuto e funciona quase como aquele momento em que a banda sobe ao palco, brinca com o público e quebra qualquer formalidade antes da primeira música. É uma sucessão de “opas”, cumprimentos e bordões populares que, musicalmente, não têm a pretensão de impressionar. A função é outra: apresentar o clima descontraído que acompanha praticamente todo o disco.

Quando entra “Mais do Mesmo (2000 e Tanto Faz)”, tudo faz sentido.

A faixa é praticamente uma carta de intenções. As guitarras aparecem com timbres brilhantes, o baixo ocupa seu espaço com segurança e a bateria conduz a música com energia suficiente para fazer o refrão explodir sem precisar recorrer a exageros. É uma composição que resume muito bem o que a Melton Sello pretende entregar daqui para frente.

Outro acerto importante está na produção de Matt Nunes.

O disco soa moderno, mas sem aquela limpeza excessiva que costuma deixar algumas produções do gênero artificiais demais. Existe espaço para todos os instrumentos respirarem, e isso faz diferença durante toda a audição. O baixo aparece quando precisa aparecer, as guitarras têm peso sem perder definição e a bateria mantém uma sonoridade bastante natural.

Humor como marca registrada

Relacionamentos sempre fizeram parte do universo do pop punk. A Melton Sello segue esse caminho, mas encontra uma forma bastante própria de falar sobre o assunto.

Em vez de transformar tudo em grandes dramas adolescentes, a banda prefere rir das próprias derrotas.

É isso que acontece em “Para Com Essa Parada”, onde o personagem tenta convencer a si mesmo de que já superou alguém, embora fique evidente que ainda está longe disso. Já em “É Mole”, insegurança e nervosismo viram motivo de piada, numa música que fala sobre vulnerabilidade sem cair na autopiedade.

Essa leveza faz diferença.

As músicas parecem conversas entre amigos, não confissões feitas para impressionar ninguém.

Um disco que fala a língua do Brasil

Talvez o aspecto mais interessante de “OPA!” seja justamente sua brasilidade.

Embora a sonoridade dialogue diretamente com o pop punk americano, as letras jamais tentam esconder de onde a banda veio. Pelo contrário.

Sandy & Junior, Vans quadriculado, posto de gasolina, TikTok, moda sertaneja tocando no rádio e até a divertida referência a Luciano & Zezé aparecem naturalmente nas composições. Nada soa forçado ou colocado ali apenas para arrancar um sorriso.

Em “Mudar Pra Roça”, por exemplo, trocar o Vans por um par de botas resume perfeitamente o desejo de abandonar a cidade por alguém que se ama. É uma imagem simples, mas extremamente eficiente.

São detalhes como esses que dão personalidade ao álbum.

Quando o clima muda

A divisão proposta pela banda entre duas metades realmente funciona.

Até “Mudar Pra Roça”, o disco mantém um espírito leve e descontraído. A instrumental “Joia Dub” surge quase como um intervalo antes de a narrativa ganhar novos contornos.

Daí em diante, o álbum continua bem-humorado, mas passa a olhar mais para as consequências dos relacionamentos do que para a euforia das primeiras músicas.

Essa transição acontece de forma bastante natural.

Os destaques da segunda metade

“Dei Bobeira” é uma daquelas músicas que parecem feitas para funcionar ao vivo. O refrão entra fácil, a dinâmica cresce aos poucos e a letra brinca o tempo todo com interpretações duplas, sem nunca entregar completamente o jogo.

Já “Umbigo” revela outro lado da banda.

É uma composição delicada, construída a partir de imagens simples que conseguem transmitir intimidade sem recorrer aos clichês românticos mais comuns do gênero.

Mas talvez seja “Microplásticos” a música que melhor sintetize a maturidade da Melton Sello.

A participação de Maitê Padilha acrescenta novas camadas à narrativa, enquanto a metáfora dos “microplásticos” transforma uma expressão contemporânea em algo surpreendentemente eficiente para falar de relações que nunca fizeram muito sentido.

É uma música que cresce a cada nova audição.

Olhando para além dos relacionamentos

Se quase todo o disco gira em torno das relações humanas, “O Pior TikToker da Minha Rua” amplia um pouco esse universo.

A música observa, com bastante ironia, a lógica das redes sociais e da busca incessante por relevância na internet. O interessante é que ela evita qualquer julgamento. O personagem não é tratado como herói nem como vilão. Apenas representa uma realidade bastante atual.

E talvez seja justamente por isso que a música funcione tão bem.

Um álbum que sabe terminar

Depois da tensão criada por “Mais Um Pouco”, a Melton Sello encerra o disco com “Boto Fé”, uma faixa que resume perfeitamente o espírito do álbum.

Depois de falar sobre términos, inseguranças, saudade e arrependimentos, a banda escolhe terminar olhando para frente.

Sem fórmulas mágicas.

Sem finais felizes obrigatórios.

Apenas lembrando que, por pior que seja um momento, ele passa.

É um encerramento bonito justamente porque não parece artificial.

Veredito

“OPA!” não muda os rumos do pop punk brasileiro.

E talvez esse nunca tenha sido seu objetivo.

O que a Melton Sello faz é muito mais interessante: entrega um disco honesto, divertido e extremamente bem resolvido dentro daquilo que se propõe.

Com boas composições, produção consistente, refrões marcantes e uma identidade genuinamente brasileira, a banda estreia mostrando maturidade e personalidade suficientes para conquistar seu espaço sem depender apenas da nostalgia.

Se os próximos trabalhos ampliarem esse universo sem perder a espontaneidade que aparece aqui, a Melton Sello tem tudo para se tornar um dos nomes mais interessantes da nova geração do pop punk nacional.

Porque, no fim das contas, algumas coisas nunca saem de moda.

Uma boa melodia, um refrão forte e uma história bem contada continuam sendo difíceis de superar.

Nota: 9/10

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