O rock não morreu, ele apenas não cabe no tédio das paradas de sucesso. Enquanto os algoritmos tentam domesticar o caos e ditar o que você deve ouvir, o underground brasileiro segue gerando eletricidade pura nas margens. Não há espaço para nostalgia barata quando o som é urgência.

No dia 8 de agosto, a lona do Circo Voador, no Rio de Janeiro, será o epicentro de um encontro histórico. Promovido pela A Grande Roubada em parceria com a Submersa, o palco carioca recebe Mukeka di Rato, Pense, Budang e OTÁ. Mais do que um festival de peso, o evento funciona como um manifesto sonoro que conecta a fúria veterana das sarjetas à insolência da nova safra que molda o asfalto hoje.

Da Garagem ao Caos Coletivo

O hardcore brasileiro consolidou sua identidade no início dos anos 1980, acelerando a revolta punk com a velocidade e a agressividade de nomes como Cólera, Olho Seco e Ratos de Porão. Sem espaço na mídia de massa, essa geração ergueu seu próprio ecossistema. Prensava vinis, xerocava fanzines e criava redes de troca de fitas pelo correio. Essa infraestrutura construída no suor é a mesma que sustenta o underground até hoje, provando que a sobrevivência do gênero depende da força de sua própria coletividade.

Três décadas depois, esse legado continua se renovando. Novas bandas ocupam os palcos, coletivos fortalecem a cena e uma geração inteira segue descobrindo o hardcore como ferramenta de expressão e transformação. Longe de viver apenas da nostalgia, o gênero continua encontrando novos caminhos sem abandonar suas raízes.

Mukeka di Rato: O Atropelo Capixaba pelo Mundo

Nascida em Vila Velha, no Espírito Santo, em 1995, a Mukeka di Rato expandiu as fronteiras do barulho nacional. Liderada por Fepas, a banda chega ao Circo Voador impulsionada pelo lançamento de Generais de Fralda, disco que celebra seus 30 anos de trajetória e reafirma sua vocação para o confronto.

O nono álbum aposta em uma sonoridade ainda mais crua e agressiva, aprofundando a influência do crust punk, do grindcore e do crossover sem abrir mão da crítica social que sempre definiu a identidade do grupo. As letras nunca buscaram conciliação. São ataques diretos à corrupção, à violência institucional e às contradições de um país acostumado a transformar desigualdade em rotina.

Com clássicos como Carniceria Tropical e o recém lançado Generais de Fralda, a Mukeka acumula turnês históricas pela Europa, Estados Unidos e América Latina, consolidando seu nome como uma das bandas brasileiras mais respeitadas da música extrema no cenário internacional.

Pense: Catarse, Sangue e Vulnerabilidade

O peso também sabe ser humano. Formada em Belo Horizonte em 2007, a Pense ampliou os horizontes do hardcore nacional ao trazer debates urgentes sobre saúde mental, ansiedade e crises existenciais para o centro da roda de pogo.

Hoje composta por Ítalo Nonato, Alexandre Magno, Daniel Avelar, Judá Ramos e Rapha Gonçalves, a banda encontrou um equilíbrio raro entre agressividade e sensibilidade. O álbum Tudo Que Temos de Lembrar aprofunda essa identidade ao abordar memória, reconstrução e saúde mental sem abrir mão da intensidade característica do hardcore.

Discos como Revide e Realidade, Vida e Fé criaram uma conexão visceral com uma geração que encontrou na música um espaço de acolhimento em meio ao caos. Assistir a um show da Pense é testemunhar uma catarse coletiva, onde público e banda se fundem em um único grito de resistência emocional.

Budang e OTÁ: A Linha de Frente do Presente

O agora é violento, criativo e não pede licença. Representando a nova escola, a Budang traz de Florianópolis a influência crua do hardcore nova iorquino, misturada a breakdowns e riffs de crossover feitos para transformar qualquer pista em zona de impacto.

(Jorge Daux/Divulgação)

A apresentação no Circo Voador marca o início de uma nova fase para a banda. Léo Brah assume os vocais, sucedendo Guilherme Guths, ao lado de Vinícius Lunardi, Pedro Sabino “Pit” e Felipe Royg “Minhoca”, abrindo um novo capítulo na trajetória do grupo justamente durante a turnê de MAGIA, trabalho que colocou a Budang entre os nomes mais comentados da nova geração do hardcore brasileiro.

Ao lado deles, a OTÁ representa a força mais recente da cena nacional. Misturando punk, garage rock e hardcore com letras afiadas e uma performance intensa, a banda demonstra que a contestação continua encontrando novas vozes. O barulho deles existe para rasgar o presente.

O Circo Voador como Trincheira

A lona da Lapa sempre foi abrigo de quem recusou o silêncio. Reunir essas quatro forças nacionais sob o mesmo teto é celebrar a persistência de um movimento que jamais dependeu da aprovação do mercado para existir.

No dia 8 de agosto, o Circo Voador será o retrato vivo de uma história que continua sendo escrita a punhos cerrados. Se ainda existe alguém disposto a decretar a morte do rock, basta atravessar os Arcos da Lapa naquela noite. A resposta virá dos amplificadores.

Como resume Fepas, da Mukeka di Rato, “não dá para acontecer a revolução sem arte e sem estética”. Em tempos de algoritmos e consumo acelerado, o hardcore brasileiro continua lembrando que música também é memória, resistência e transformação.

Serviço

Evento: Mukeka di Rato, Pense, Budang e OTÁ no Circo Voador

Data: 8 de agosto de 2026

Horário: Abertura dos portões às 20h

Local: Circo Voador, Rua dos Arcos, s/n, Lapa, Rio de Janeiro, RJ.

https://www.eventim.com.br/artist/circo-voador/mukeka-di-rato-pense-no-circo-voador-4199684

LOTE 1: MEIA R$ 60 | INTEIRA R$ 120
LOTE 2: MEIA R$ 70 | INTEIRA R$ 140
LOTE 3: MEIA R$ 80 | INTEIRA R$ 160
LOTE 4: MEIA R$ 90 | INTEIRA R$ 180

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