A COGUMELO EM CENA OUVIU O ÁLBUM ANTES DA ESTREIA E CONTA POR QUE A ESPERA VALEU A PENA
Por Giovanni Maglia

Faz alguns dias que estou cantarolando Hell’s Paradise sem perceber.
Aconteceu enquanto editava algumas fotografias. Depois, dirigindo para um show. Ontem, organizando equipamentos antes de mais uma cobertura. Quando percebi, estava cantarolando o refrão outra vez.
Isso não acontece com frequência.
Quando acontece, normalmente significa que uma música encontrou um lugar definitivo na memória.
Foi exatamente por causa dela que comecei esta resenha.
Durante anos, quem acompanha o Phornax desde os tempos de Silent War, lançado em 2011, fez a mesma pergunta: quando sai o primeiro álbum? A resposta demorou mais do que qualquer um imaginava. No meio do caminho vieram mudanças de formação, um hiato, novas composições, dezenas de shows e muito trabalho longe dos holofotes. Enquanto outras bandas corriam para colocar qualquer coisa nas plataformas digitais, o Phornax parecia seguir uma lógica diferente.
Preferiu esperar.
Hoje, ouvindo Hellforge do começo ao fim, fica difícil imaginar que esse disco pudesse ter sido lançado antes.
Confesso que comecei esta resenha tentando fazer um exercício complicado.
Nos últimos meses acompanhei a banda de muito perto. Fotografo o Phornax desde 2024 e já perdi a conta de quantas apresentações registrei. Só durante a Brazilian Metal Forces Tour foram três shows. Somando ensaios, entrevistas, festivais e outras coberturas da equipe da Cogumelo em Cena, algumas dessas músicas passaram a fazer parte da minha rotina muito antes de chegarem ao público.

Esse é exatamente o tipo de situação que pode comprometer uma análise.
Quando você convive com uma banda, conhece os músicos e acompanha a construção de um disco, existe sempre o risco de deixar a proximidade falar mais alto que a música.
Foi justamente isso que tentei evitar.
Coloquei os fones de ouvido, aumentei o volume e procurei esquecer os bastidores. Esquecer os quilômetros de estrada, as conversas dentro da van, os ensaios e tudo aquilo que normalmente influencia a percepção de quem escreve.
Queria ouvir Hellforge como qualquer fã faria na primeira audição.
Não consegui completamente. Mas talvez isso tenha sido uma vantagem.
Porque o álbum transmite exatamente a mesma impressão que tive acompanhando o Phornax durante todo esse tempo: nada ali parece ter sido feito às pressas.
A introdução prepara o terreno. As primeiras músicas estabelecem a identidade do trabalho. O disco ganha força conforme avança, revisita o passado através das regravações e termina deixando aquela sensação de ciclo completo que os grandes álbuns costumam provocar.
Pode parecer um detalhe. Não é. Há muito tempo deixamos de ouvir discos completos. O streaming acostumou muita gente a consumir música em playlists. A ordem das faixas deixou de importar.
O Phornax parece ignorar completamente essa lógica.
Hellforge pede tempo. Pede atenção. E recompensa quem aceita esse convite.
A primeira coisa que me chamou atenção nem foi um riff ou um refrão. Foi o som. Hoje qualquer estúdio consegue gravar guitarras pesadas. Plugins resolvem praticamente tudo. O difícil continua sendo produzir um disco que permaneça pesado quando você abaixa o volume.
Foi exatamente isso que encontrei aqui.
As guitarras têm definição sem perder peso. O baixo aparece com clareza. A bateria ocupa espaço sem atropelar o restante da banda. Os vocais permanecem sempre presentes, mas nunca parecem colados artificialmente sobre a mixagem. Existe ar entre os instrumentos. E isso faz diferença.
A produção assinada por Renato Osório entende uma coisa que muitos discos atuais esqueceram: peso não nasce da compressão. Nasce da dinâmica.
Você consegue acompanhar pequenas linhas de baixo, perceber detalhes das guitarras e ouvir a bateria respirando durante todo o álbum. Parece simples. Quem já passou horas dentro de um estúdio sabe que não é.
Outra característica começou a aparecer logo nas primeiras audições. O Phornax não parece preocupado em provar competência técnica. Essa talvez seja uma das maiores qualidades do disco.
Vivemos uma fase em que boa parte do heavy metal virou uma disputa silenciosa por velocidade, afinações cada vez mais baixas e demonstrações de virtuosismo. Nada contra técnica. Ela faz parte do gênero.
O problema começa quando a música passa a existir apenas para justificar a técnica.
Em Hellforge, acontece exatamente o oposto. Os riffs existem porque fazem sentido para a composição. Os solos aparecem quando a música pede. Os refrões chegam naturalmente.
Em nenhum momento tive a sensação de que alguém estava tentando impressionar o ouvinte. A impressão é outra. A banda parece confiar nas próprias canções. E essa confiança acaba sendo contagiante. Foi só depois da segunda audição que percebi um detalhe curioso.
Alguns riffs continuavam aparecendo na minha cabeça horas depois de o disco terminar. Não porque fossem extremamente complexos. Mas justamente porque eram memoráveis.
Existe uma diferença enorme entre escrever um riff difícil e escrever um riff que alguém vai lembrar enquanto dirige, trabalha ou edita fotografias. O segundo desafio continua sendo muito maior. E o Phornax parece entender isso muito bem.
QUANDO A FORNALHA FINALMENTE SE ABRE
A introdução Forged in Metal dura pouco mais de um minuto, mas cumpre exatamente o papel que deveria cumprir. Ela não tenta impressionar nem entregar o melhor momento do disco antes da hora. Funciona como as luzes de um teatro diminuindo lentamente antes do espetáculo começar. Você sabe que alguma coisa está prestes a acontecer.
E então chega Hell’s Paradise.
Acho que existe um jeito muito simples de descobrir se uma música realmente funciona. Você desliga o som. Passam algumas horas. E, sem perceber, continua cantarolando o refrão. Faz dias que isso acontece comigo.
Estou editando uma fotografia, separando equipamentos para um show ou simplesmente dirigindo, e quando percebo estou cantarolando Hell’s Paradise outra vez. Não é uma música que tenta ser grudenta. Ela simplesmente encontra um espaço na memória.
Boa parte desse mérito está no riff de abertura. Ele não é o mais rápido do disco.
Também não é o mais complexo. Mas faz exatamente aquilo que um grande riff precisa fazer: conduz a música. Você o reconhece imediatamente e continua lembrando dele muito depois que a faixa termina.
Hoje existe uma geração inteira de guitarristas preocupada em impressionar outros guitarristas. O resultado costuma ser uma coleção de riffs tecnicamente impecáveis e completamente esquecíveis.
O Phornax parece seguir outra filosofia. Primeiro escreve uma boa música. Depois pensa nos detalhes. Essa escolha acompanha o álbum inteiro.
Cristiano Poschi entra exatamente na hora certa. Não atropela a introdução, não tenta dominar a música desde os primeiros segundos. Sua voz aparece naturalmente, como se já fizesse parte daquele riff desde sempre.
Foi ouvindo Hell’s Paradise pela segunda vez que comecei a entender qual era a proposta de Hellforge. O disco não tenta reinventar o heavy metal. Também não tenta resgatar uma época específica.
Ele simplesmente lembra por que esse estilo continua fazendo sentido depois de tantas décadas.
ENTRE O PESO E A MELODIA
Se Hell’s Paradise apresenta o cartão de visitas, Between Fear and Hope mostra uma característica que acompanha o restante do álbum.
A banda sabe respirar. Pode parecer estranho usar essa palavra para falar de heavy metal, mas ela faz todo o sentido.
Muitos discos pesados se tornam cansativos porque mantêm exatamente a mesma intensidade do começo ao fim. Tudo é urgente. Tudo é acelerado. Tudo precisa soar gigantesco.
O Phornax entende que dinâmica também faz parte do peso.
Between Fear and Hope é uma verdadeira paulada de riffs. As guitarras conduzem a música antes de entregarem espaço para Cristiano. O refrão chega naturalmente, sem atropelar aquilo que veio antes.
Existe outro detalhe que não consegui ignorar.
Aquele riff.
Durante toda a Brazilian Metal Forces Tour, era uma das músicas que eu mais esperava ouvir ao vivo. Agora, ouvindo o álbum, continua acontecendo a mesma coisa. É daqueles riffs que parecem simples até você tentar esquecê-los. Não consegui.
E talvez esse seja o maior elogio que eu possa fazer.
GHOSTS FROM THE PAST GANHOU UMA NOVA VIDA
Sempre achei curioso quando bandas decidem regravar músicas antigas. Algumas versões apenas soam mais limpas. Outras acabam perdendo justamente a espontaneidade que existia nas gravações originais. Ghosts From The Past segue pelo caminho oposto. Ela amadureceu. A primeira coisa que chama atenção é a entrada da bateria.
É impossível ouvir aquela introdução sem imaginar como a música funciona no palco. Talvez isso aconteça porque já a fotografei algumas vezes ao vivo. Algumas canções acabam criando uma memória visual impossível de separar da gravação de estúdio.
Com Ghosts From The Past aconteceu exatamente isso. Quando ela começa no álbum, minha cabeça automaticamente volta para o palco.
Poucas músicas conseguem provocar esse tipo de associação.
FINAL BEAT JÁ NÃO EXISTE APENAS NO ESTÚDIO
Existe uma vantagem curiosa em acompanhar uma banda durante algum tempo. Algumas músicas deixam de existir apenas dentro do disco. Elas passam a carregar imagens.
No meu caso, ficou impossível ouvir Final Beat sem lembrar da performance de Aline Mesquita durante os shows. A música ganhou uma tradução visual. Não porque precise disso para funcionar. Mas porque palco e estúdio acabaram se completando.
É uma dessas situações em que as lembranças acabam fazendo parte da audição.
QUANDO UM RIFF CRIA UMA FOTOGRAFIA
Toda vez que Dare of Destruction começa, acontece a mesma coisa. Antes mesmo de pensar na música, lembro de uma imagem.
Eduardo Martinez atravessando o palco praticamente marchando no ritmo daquele riff de abertura. Talvez seja deformação profissional. Passei tanto tempo fotografando shows que algumas músicas acabam chegando acompanhadas de enquadramentos, luzes e movimentos.
Dare of Destruction faz isso. O riff abre a música.
A memória completa o restante.
BLOOD FOR BLOOD FECHA O CICLO
Se existe uma música que resume a proposta de Hellforge, talvez seja justamente a última.
Blood For Blood não tenta encerrar o álbum com exageros nem transformar seus minutos finais em um exercício de grandiosidade. Ela apenas confirma tudo o que o disco construiu até ali. Depois de tantas audições, percebi que ela funciona quase como um ponto final. Quando termina, a sensação não é de esgotamento, mas de continuidade.
É aquele tipo de faixa que faz você olhar para o player por alguns segundos antes de apertar “play” novamente.
Poucos discos conseguem provocar essa reação.
CRISTIANO POSCHI ENCONTROU O PRÓPRIO CAMINHO
Sempre gostei da voz de Cristiano Poschi.
Desde o EP Silent War, ela chamava atenção pela potência e pela facilidade para alcançar regiões agudas. Em Hellforge, porém, percebi uma mudança mais importante do que qualquer questão técnica.
Hoje ele interpreta muito mais.
Existe intenção em cada frase. As pausas parecem pensadas e a forma como conduz determinadas linhas vocais faz com que a música respire junto com ele. É claro que as referências continuam existindo. Quem cresceu ouvindo Rob Halford, Ronnie James Dio, Tim “Ripper” Owens ou King Diamond inevitavelmente vai perceber pequenas influências espalhadas pelo álbum. Isso faz parte da formação musical de qualquer vocalista de heavy metal.
A diferença é que agora essas influências aparecem como referências, não como destino. Em vários momentos me peguei ouvindo Cristiano sem tentar compará-lo a ninguém.
Talvez esse seja o maior elogio que um vocalista possa receber.
DUAS GUITARRAS, UMA MESMA IDEIA
Sempre gostei de bandas que tratam duas guitarras como uma conversa, não como uma disputa. É exatamente essa impressão que tive ouvindo Eduardo Martinez e Deivid Moraes. Um apresenta uma ideia. O outro desenvolve.
Depois os papéis se invertem.
Os solos seguem essa mesma lógica. Não parecem ter sido escritos para interromper a música, mas para continuar contando a história iniciada pelos riffs. Isso lembra a filosofia das grandes duplas do heavy metal clássico. Não porque o Phornax copie alguém, mas porque compartilha da mesma ideia. A música sempre vem antes do ego.
É uma característica cada vez mais rara.
O PESO TAMBÉM VEM DE BAIXO
Heavy metal sempre foi um gênero muito guiado pelas guitarras. Talvez por isso tanta gente esqueça de ouvir o restante da banda.
Com Hellforge, vale a pena prestar atenção no baixo.
Sfinge Lima aparece o tempo inteiro, mas nunca invade o espaço dos outros instrumentos. Em vez de simplesmente acompanhar os riffs, cria pequenas variações que enriquecem os arranjos sem chamar atenção para si. É aquele tipo de trabalho que passa despercebido na primeira audição, mas faz falta quando não existe.
Com Maurício Dariva acontece algo parecido. Ele não tenta ser o protagonista do disco. Seu papel é outro. Manter tudo em movimento. As viradas aparecem quando fazem sentido, os bumbos entram para empurrar a música e não apenas para demonstrar velocidade. Existe uma inteligência muito grande nessa cozinha.
Ela ajuda a explicar por que Hellforge soa tão sólido.
O MAIOR MÉRITO DE HELLFORGE
Passei alguns dias tentando responder uma pergunta simples. O que faz Hellforge ser um bom disco? Não demorei para perceber que a resposta não estava em uma música específica. Nem em um solo. Nem na produção.
O maior mérito do álbum é a coerência. Tudo parece fazer parte da mesma ideia. A capa conversa com o título. O título conversa com as letras. As letras conversam com a música. E as músicas conversam entre si.
Não existe a sensação de que o Phornax reuniu composições gravadas em épocas diferentes apenas para lançar um álbum. Existe unidade.
E isso é muito mais difícil de alcançar do que parece.
O CONFLITO QUE EXISTE NESTA RESENHA
Antes de terminar este texto, acho justo dividir uma informação com quem chegou até aqui. Desde 2024 sou fotógrafo do Phornax.
Já perdi a conta de quantos shows registrei. Só durante a Brazilian Metal Forces Tour acompanhei três apresentações. Somando ensaios, festivais, entrevistas e outras coberturas da equipe da Cogumelo em Cena, ouvi algumas dessas músicas muito antes de elas chegarem ao público.
Isso cria um conflito.
Quem acompanha uma banda tão de perto corre o risco de perder o distanciamento necessário para analisá-la. Foi justamente isso que tentei evitar enquanto escrevia esta resenha. Não ouvi Hellforge como fotógrafo. Nem como alguém que conhece os músicos.
Ouvi como alguém que compra discos de heavy metal desde a adolescência e que ainda procura aquela sensação de colocar um álbum para tocar sem saber exatamente o que vai encontrar. Talvez eu nunca consiga ser completamente imparcial. Acho que ninguém consegue. Mas posso ser honesto.
E foi exatamente isso que tentei fazer aqui.
QUANDO O DISCO TERMINA… E CONTINUA TOCANDO
Existe um teste que costumo fazer quando termino uma resenha.
Fecho o player. Levanto da cadeira. Vou fazer qualquer outra coisa.Se, algumas horas depois, eu sentir vontade de voltar ao disco, significa que alguma coisa ficou.
Com Hellforge, isso aconteceu várias vezes. Hell’s Paradise continua aparecendo na minha cabeça sem pedir licença. O riff de Between Fear and Hope insiste em voltar quando menos espero. A entrada de Ghosts From The Past imediatamente me leva para o palco. Final Beat já não existe sem a lembrança da performance de Aline Mesquita. E toda vez que Dare of Destruction começa, ainda vejo Eduardo Martinez marchando pelo palco no ritmo daquele riff.
Essas músicas deixaram de existir apenas dentro do estúdio.
Ganharam memória. Ganharam imagem. Ganharam vida.
Talvez seja exatamente isso que todo compositor procura quando escreve uma canção. Que ela passe a fazer parte da vida de alguém.
Hellforge conseguiu. Não porque tenta reinventar o heavy metal. Mas porque entende perfeitamente por que tanta gente continua apaixonada por ele.
Depois de mais de uma década de espera, o Phornax entrega um álbum que faz justiça à reputação construída nos palcos.
Hellforge não soa como um ponto de chegada. Soa como o começo de uma nova fase.
Talvez, daqui a alguns anos, ele seja lembrado como o disco que consolidou definitivamente o nome do Phornax entre as principais bandas brasileiras de heavy metal tradicional. Eu prefiro uma definição mais simples. Foi o álbum que me fez voltar ao início assim que a última música terminou.
E isso, para quem cresceu ouvindo discos completos, continua sendo um dos maiores elogios que se pode fazer a uma banda.
Ficha Técnica
Artista: Phornax
Álbum: Hellforge
Lançamento: 17 de julho de 2026
Gênero: Heavy Metal Tradicional
Origem: Porto Alegre/RS – Brasil
Integrantes
- Cristiano Poschi — Vocal
- Deivid Moraes — Guitarra
- Eduardo Martinez — Guitarra
- Sfinge Lima — Baixo
- Maurício Dariva — Bateria
Faixas
- Forged in Metal
- Hell’s Paradise
- Between Fear and Hope
- Seeds of Strife
- A Matter of Time
- Ghosts From the Past
- Final Beat
- Dare of Destruction
- Silent War
- Blood For Blood
Produção
- Composição: Phornax
- Produção Musical: Renato Osório
- Gravação: Renato Osório
- Mixagem: Renato Osório
- Masterização: Renato Osório
- Estúdios: Estúdio do Renatão e Black Stork Studio (Porto Alegre/RS)
- Arte da Capa: Cristiano Poschi
- Artes Complementares: João Duarte
- Selo: Phornax Records








Deixe uma resposta