Aos 81 anos, a voz de “Child in Time”, “Highway Star” e “Smoke on the Water” permanece como uma das referências fundamentais do rock pesado. Mas a história de Ian Gillan atravessa muito mais do que o Deep Purple: Elvis Presley, Jesus Christ Superstar, conflitos, separações, Black Sabbath, reencontros e uma carreira que ajudou a estabelecer uma nova maneira de cantar rock.

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Existe um instante em “Child in Time” em que Ian Gillan deixa de simplesmente cantar.

A música começa quase silenciosa. Jon Lord conduz o Hammond enquanto Gillan entra de maneira contida, deixando cada palavra ocupar seu espaço. Aos poucos, porém, alguma coisa começa a mudar. A banda cresce, a tensão aumenta e aquela voz aparentemente controlada começa a subir.

E subir.

Até chegar ao grito.

Não é apenas uma nota aguda colocada para demonstrar extensão vocal. Existe violência, desespero e dramaticidade naquele som. Quando Deep Purple in Rock chegou às lojas em 1970, aquilo ajudou a estabelecer uma referência para uma geração inteira de vocalistas que surgiria nos anos seguintes. O próprio material histórico do Rock & Roll Hall of Fame destaca aquele grito como um dos elementos que ajudaram a definir a linguagem vocal que o metal herdaria.

Rob Halford ainda não havia entrado para o Judas Priest.

Bruce Dickinson ainda era uma criança.

O heavy metal sequer possuía fronteiras claramente definidas.

Mas Ian Gillan já estava mostrando até onde uma voz poderia chegar dentro da música pesada.

Mais de meio século depois, aos 81 anos, talvez seja impossível calcular quantos vocalistas aprenderam alguma coisa ouvindo aqueles discos.

ANTES DO GRITO

Ian Gillan nasceu em 19 de agosto de 1945, em Hounslow, na Inglaterra.

Como aconteceu com tantos músicos britânicos de sua geração, sua primeira grande revolução musical veio dos Estados Unidos. Elvis Presley foi uma influência particularmente importante, acompanhado por nomes como Little Richard e Buddy Holly. Antes dos amplificadores Marshall e das longas improvisações do Deep Purple, havia aquele rock’n’roll que atravessava o Atlântico e mostrava a adolescentes ingleses que música também poderia representar ruptura.

Gillan começou a cantar profissionalmente durante os anos 60, passando por grupos como The Javelins e Wainwright’s Gentlemen até chegar ao Episode Six, em 1965.

Foi ali que sua história encontrou outra peça fundamental.

Roger Glover.

Os dois passaram anos tocando juntos e acumulando experiência em uma rotina que incluía apresentações sucessivas em clubes europeus. Segundo a biografia disponibilizada no site oficial de Gillan, havia ocasiões em que o Episode Six chegava a realizar cinco apresentações em uma noite — e até oito nos fins de semana.

Era uma escola construída no palco.

Em 1969, aquela escola encontraria sua prova definitiva.

QUANDO O DEEP PURPLE ENCONTROU SUA VOZ

O Deep Purple já existia.

Mas ainda não era aquele Deep Purple.

Em 1969, Ian Gillan e Roger Glover entraram para a banda, substituindo Rod Evans e Nick Simper e completando, ao lado de Ritchie Blackmore, Jon Lord e Ian Paice, aquela que ficaria conhecida como a formação Mark II.

Poucas reuniões de cinco músicos mudaram tanto a história do hard rock.

A primeira participação de Gillan em um álbum do grupo aconteceu em Concerto for Group and Orchestra, mas seria em Deep Purple in Rock, lançado em 1970, que a transformação se tornaria evidente.

A banda estava mais pesada.

Mais agressiva.

Mais alta.

Blackmore fazia a guitarra atacar. Jon Lord empurrava o Hammond através de amplificadores Marshall até transformá-lo praticamente em outro instrumento de distorção. Glover e Paice sustentavam uma seção rítmica capaz de alternar precisão e caos.

Gillan precisava cantar por cima de tudo aquilo.

E foi exatamente isso que fez.

O Rock & Roll Hall of Fame descreve In Rock como um trabalho cuja velocidade, densidade e habilidade ajudaram a estabelecer um modelo para o heavy metal que viria depois.

Gillan era parte essencial dessa equação.

CHILD IN TIME

Se existe uma música capaz de explicar Ian Gillan para alguém que nunca o ouviu, talvez seja “Child in Time”.

Ela reúne praticamente tudo. O controle nas partes iniciais. A interpretação. A dinâmica. A capacidade de transformar suavidade em violência. E, obviamente, os gritos.

Mas existe algo importante ali: Gillan não era apenas um cantor capaz de alcançar notas extremamente altas. Reduzir sua importância à extensão vocal seria ignorar justamente aquilo que tornava sua voz especial.

Ele sabia construir tensão.

O grito funcionava porque existia silêncio antes dele.

Essa compreensão dramática da música chamou a atenção de duas pessoas que estavam trabalhando em um projeto bastante diferente do Deep Purple.

Andrew Lloyd Webber e Tim Rice.

QUANDO JESUS TINHA A VOZ DE IAN GILLAN

Em 1970, Ian Gillan interpretou Jesus na gravação original de Jesus Christ Superstar.

Não foi uma curiosidade perdida em sua discografia.

A interpretação tornou-se uma das performances mais importantes daquela gravação e demonstrou que a dramaticidade presente em “Child in Time” poderia funcionar fora do universo do Deep Purple. Gillan chegou a receber a proposta de interpretar Jesus também na adaptação cinematográfica, mas recusou.

É uma passagem extraordinária quando observada em retrospecto.

No mesmo período em que ajudava a construir uma das fundações do hard rock, Ian Gillan emprestava sua voz a uma obra que se tornaria um marco do teatro musical.

Do Hammond distorcido de Jon Lord a Andrew Lloyd Webber.

Poucos vocalistas poderiam atravessar esses dois mundos sem parecer deslocados em algum deles.

Gillan podia.

IN ROCK. FIREBALL. MACHINE HEAD.

O que aconteceu depois foi uma sequência difícil de repetir.

Deep Purple in Rock.

Fireball.

Machine Head.

Made in Japan.

Em poucos anos, o Deep Purple ajudou a estabelecer parte do vocabulário que definiria o hard rock dos anos 70.

“Speed King”.

“Child in Time”.

“Fireball”.

“Highway Star”.

“Space Truckin’”.

E, naturalmente, “Smoke on the Water”.

O riff criado por Ritchie Blackmore se tornaria um dos mais reconhecíveis da história do rock, mas a interpretação de Gillan é parte inseparável da gravação. O próprio site oficial do Deep Purple destaca sua capacidade de entregar aquela letra alternando intensidade e exuberância de rock’n’roll.

Só que por trás dos discos existia uma banda funcionando em uma velocidade quase impossível de sustentar.

E as rachaduras começaram a aparecer.

GILLAN E BLACKMORE: QUANDO O CONFLITO TAMBÉM PRODUZ MÚSICA

A relação entre Ian Gillan e Ritchie Blackmore se tornaria uma das mais conhecidas — e complicadas — da história do hard rock. Duas personalidades fortes. Duas maneiras diferentes de enxergar a música. E uma química artística extraordinária.

No palco e no estúdio, essa tensão frequentemente produzia resultados espetaculares. Fora deles, tornava a convivência cada vez mais difícil.

Somada ao ritmo brutal de gravações e turnês, a situação chegou ao limite. Em 1973, Gillan deixou o Deep Purple.

Por algum tempo, chegou a imaginar que sua carreira musical havia terminado.

Não havia terminado.

Nem perto disso.

EXISTIA VIDA DEPOIS DO DEEP PURPLE

Depois de um período afastado, Gillan voltou.

Primeiro com o Ian Gillan Band, explorando uma mistura mais progressiva, jazzística e experimental. Depois simplesmente como Gillan, adotando novamente uma abordagem mais direta e pesada.

Álbuns como Mr. Universe, Glory Road, Future Shock e Magic mostraram que aquela voz não precisava do nome Deep Purple escrito na capa para continuar relevante. Vários desses trabalhos chegaram ao Top 10 britânico.

Mas então surgiu um capítulo que provavelmente ninguém teria previsto.

Ian Gillan entrou para o Black Sabbath.

BORN AGAIN

A história parece piada de bar porque, de certa maneira, começou como uma.

Gillan contou posteriormente que bebeu com Tony Iommi e Geezer Butler e, quando percebeu, estava no Black Sabbath.

O resultado foi Born Again, lançado em 1983.

Até hoje é um dos discos mais estranhos, controversos e fascinantes da história do Sabbath.

A produção carregada e a combinação entre a identidade sombria de Tony Iommi e aquela voz imediatamente associada ao Deep Purple criaram um álbum que durante décadas dividiu opiniões.

Mas existe algo maravilhoso naquela incompatibilidade. Não deveria funcionar. E justamente por isso possui personalidade.

A turnê ainda produziria episódios quase surreais, incluindo o gigantesco cenário de Stonehenge e o Black Sabbath encerrando apresentações com “Smoke on the Water”.

Gillan permaneceu apenas um álbum.

Era hora de voltar para casa.

PERFECT STRANGERS

Em 1984 aconteceu aquilo que durante anos parecia improvável.

Ritchie Blackmore. Ian Gillan. Roger Glover. Jon Lord. Ian Paice.

A formação Mark II estava novamente reunida.

E o título do álbum parecia perfeito:

Perfect Strangers.

Não era simplesmente uma banda tentando explorar nostalgia. O Deep Purple voltou com material novo suficientemente forte para construir outro capítulo de sua história.

A faixa-título se tornaria um clássico.

“Knocking at Your Back Door” mostrava uma banda capaz de existir plenamente nos anos 80 sem simplesmente imitar aquilo que havia feito na década anterior.

A história entre Gillan e Blackmore ainda teria novas explosões, incluindo outra saída do vocalista e seu retorno definitivo ao grupo em 1992.

Blackmore acabaria seguindo outro caminho.

Gillan permaneceu.

UMA VOZ NÃO PRECISA PERMANECER IGUAL PARA CONTINUAR SENDO GRANDE

Existe uma crueldade particular na profissão de vocalista.

Uma guitarra de 1970 pode continuar produzindo praticamente as mesmas notas cinquenta anos depois.

Uma garganta não. O instrumento envelhece junto com o músico.

E talvez seja justamente aqui que a trajetória de Ian Gillan fique ainda mais interessante.

Seria absurdo exigir que um homem de 81 anos cantasse “Child in Time” exatamente como aos 25. Gillan nunca precisou transformar sua carreira em uma competição contra a própria juventude.

Sua voz mudou. Sua maneira de utilizá-la também.

A experiência passou a ocupar espaços que antes eram preenchidos exclusivamente pela potência.

Isso é envelhecer como músico, não simplesmente tentar reproduzir eternamente uma fotografia de 1972.

O HOMEM POR TRÁS DO GRITO

Talvez a imagem histórica de Ian Gillan sempre esteja ligada àquele vocalista jovem, cabelos longos, segurando o microfone enquanto sua voz atravessava uma parede de Marshall.

Mas sua importância não cabe naquela fotografia.

Ele ajudou a demonstrar que um vocalista de rock pesado poderia ser agressivo sem abandonar melodia, alcançar registros extremos sem perder interpretação e utilizar a própria voz como instrumento dramático.

Quando o Deep Purple foi introduzido no Rock & Roll Hall of Fame em 2016, o reconhecimento oficializou algo que músicos e fãs já sabiam havia décadas: aquela banda ajudou a pavimentar o caminho que levaria ao heavy metal.

E a voz de Gillan estava no centro dessa transformação.

81 ANOS — E A HISTÓRIA CONTINUA

Ian Gillan completa 81 anos em 19 de agosto de 2026 sem que sua história pertença exclusivamente ao passado.

O Deep Purple continua ativo e, em julho deste ano, lançou SPLAT!, seu 24º álbum de estúdio, novamente produzido por Bob Ezrin. Gillan resumiu o momento atual dizendo que a banda está em uma ótima fase.

Talvez isso seja mais interessante do que qualquer tentativa de transformar Ian Gillan em monumento.

Porque monumentos ficam parados.

Gillan não.

Desde os pequenos clubes com o Episode Six até o Deep Purple, de Jesus Christ Superstar ao Black Sabbath, das brigas com Blackmore aos reencontros, dos gritos impossíveis de “Child in Time” à voz amadurecida de hoje, sua trajetória acompanha a própria evolução do hard rock.

Quando Ian Gillan começou a cantar, ainda não existia algo claramente chamado heavy metal.

Não havia Judas Priest como o conheceríamos. Não havia Iron Maiden. Não havia Metallica. Não havia toda uma escola de vocalistas tentando descobrir até onde poderiam levar a voz humana sobre guitarras distorcidas.

Gillan estava lá quando parte dessa linguagem ainda estava sendo inventada.

E talvez seja essa a melhor maneira de compreender seu legado.

Não é necessário dizer que Ian Gillan inventou sozinho a maneira de cantar heavy metal — porque nenhuma revolução musical nasce de uma única pessoa. O que podemos dizer é algo mais importante: quando o rock começou a ficar mais alto, mais pesado e mais agressivo, Ian Gillan foi uma das vozes que mostrou como um ser humano poderia cantar por cima de tudo aquilo.

E quando “Child in Time” chega naquele momento em que as palavras já não parecem suficientes e sua voz começa a subir, ainda podemos ouvir o instante em que o hard rock descobria que um grito também poderia fazer história.

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