Uma das bandas mais longevas do metal extremo gaúcho chega aos 35 anos enfrentando uma situação curiosamente contemporânea: enquanto prepara músicas novas e revisita sua própria história, a Carniça tenta recuperar no YouTube e no YouTube Music justamente o álbum que registrou seus primeiros passos em disco.

Trinta e cinco anos de underground deixam muita coisa pelo caminho.
Ficam os shows em lugares que talvez nem existam mais, cartazes guardados em alguma gaveta, camisetas desbotadas, fitas, CDs, histórias que sobrevivem na memória de quem estava lá e, principalmente, os discos. Para uma banda que começou em 1991, muito antes de streaming, redes sociais ou algoritmos determinarem parte da maneira como a música circula, cada um desses registros funciona também como documento de uma época.
É por isso que a retirada de Rotten Flesh, álbum de estreia da Carniça, do YouTube e YouTube Music possui um significado que vai além de simplesmente perder algumas músicas de um catálogo digital.
Segundo a banda gaúcha, o álbum foi removido depois que sua capa foi considerada excessivamente violenta e incompatível com as diretrizes das plataformas. A Carniça contesta a decisão e afirma que já trabalha para tentar restabelecer o material.
Para Mauriano Lustosa, vocalista e fundador do grupo, a situação ultrapassa uma simples questão envolvendo políticas de uma plataforma.
“Isso foi uma tremenda censura e cerceamento de liberdade de expressão da nossa arte. É inadmissível que, em pleno 2026, artistas ainda sofram esse tipo de ação.”
A classificação como censura é a posição da própria banda diante da remoção. Mas a situação levanta uma discussão interessante para quem acompanha música extrema: o que acontece quando uma obra criada dentro de uma determinada linguagem artística precisa passar pelas regras de plataformas que distribuem praticamente todo tipo de conteúdo para bilhões de pessoas?
Para o metal extremo, essa não é uma questão pequena.
QUANDO A CAPA TAMBÉM FAZ PARTE DO DISCO
Death metal, thrash, grindcore e outros extremos do gênero construíram parte de sua linguagem utilizando imagens de violência, morte, horror, religião, guerra e degradação humana. Algumas capas foram feitas para incomodar. Outras para provocar. Em determinados casos, o exagero visual era praticamente uma extensão daquilo que saía dos amplificadores.
Isso não significa que qualquer imagem precise necessariamente ser aceita por qualquer plataforma. YouTube e outros serviços possuem suas próprias políticas de conteúdo e aplicam regras aos materiais disponibilizados em seus sistemas. O ponto levantado pela Carniça é outro: quando uma capa concebida como parte de uma obra artística impede o acesso ao próprio álbum, música e imagem deixam de poder ser analisadas separadamente.
No caso de Rotten Flesh, existe ainda a questão histórica.
O álbum foi lançado originalmente em 1999, quando a Carniça já acumulava oito anos de estrada. Mais tarde, em 2016, ganhou uma nova edição comemorativa pelos 25 anos da banda, com remasterização e três faixas bônus.
Portanto, não estamos falando de uma imagem criada agora para provocar os limites de uma plataforma digital. Estamos falando de um registro que pertence à história de uma banda formada quando o YouTube ainda estava a quase uma década de existir.
E talvez esteja aí a parte mais interessante dessa discussão.
Durante muito tempo, o underground precisou criar seus próprios meios de circulação. Demos eram copiadas em fitas, discos viajavam pelo correio, zines conectavam cenas separadas por milhares de quilômetros e flyers passavam de mão em mão nos shows. A internet resolveu boa parte dessas limitações, mas criou outra dependência: hoje, uma parcela enorme dessa memória está hospedada em plataformas privadas cujas regras podem mudar ou ser aplicadas de maneiras que os próprios artistas contestam.
Quando um álbum desaparece, portanto, não some apenas um produto.
Pode desaparecer também um pedaço da história.
ANTES DE ROTTEN FLESH, JÁ EXISTIAM OITO ANOS DE CARNIÇA
A história da Carniça começa em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, em 1991.
O período ajuda a colocar as coisas em perspectiva. O metal brasileiro já havia construído uma reputação internacional através de bandas surgidas na década anterior, enquanto diferentes cenas regionais começavam a consolidar suas próprias identidades. Sem a facilidade de comunicação atual, fazer uma banda sobreviver significava depender de uma estrutura muito mais artesanal.

A Carniça nasceu e permaneceu nesse ambiente.
Ao longo dos anos, desenvolveu uma sonoridade construída principalmente sobre o encontro entre thrash e death metal, sem esconder elementos do heavy metal tradicional. As letras também foram formando uma característica importante da banda, frequentemente buscando acontecimentos históricos, questões sociais e crítica como matéria-prima.
Quando Rotten Flesh finalmente apareceu em 1999, portanto, não representava o nascimento da Carniça.
Era o primeiro grande documento de uma história que já vinha sendo construída havia quase uma década.
Talvez seja justamente por isso que sua retirada tenha provocado uma reação tão forte dentro da banda. Para quem encontra a Carniça hoje através de Spotify, YouTube ou qualquer outro serviço, Rotten Flesh é um álbum antigo disponível em um catálogo. Para quem estava dentro daquela história, ele representa anos de ensaios, shows, mudanças e construção de uma identidade.
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
UMA DISCOGRAFIA CONSTRUÍDA SEM PRESSA
A trajetória discográfica da Carniça também ajuda a entender como o underground funciona em um ritmo diferente daquele imposto pela indústria tradicional.
Depois de Rotten Flesh, a banda lançaria Temple’s Fall… Time to Reborn, em 2011, seguido por Nations of Few, em 2013. Em 2017 veio o álbum autointitulado Carniça e, cinco anos depois, A New Medium Ages, de 2022.
Vista apenas como uma sequência de datas, a discografia possui grandes intervalos. Vista como parte da realidade de uma banda independente atravessando décadas de transformações no mercado musical brasileiro, conta outra história.
Porque permanecer também é uma conquista.
Formações mudam, casas fecham, cenas atravessam períodos de maior ou menor movimentação e a própria maneira de consumir música foi completamente transformada desde 1991. A Carniça passou pela fita cassete, pelo CD, pela popularização do MP3, pelas redes sociais e finalmente pelo streaming sem abandonar a atividade.
Chegar a 35 anos dentro desse circuito significa sobreviver a muito mais do que mudanças de tendência musical.
A HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO SUL DENTRO DO METAL
Existe outro aspecto da Carniça que merece atenção: sua relação com acontecimentos históricos.
Isso volta a aparecer justamente no material que está sendo preparado para a nova fase.
A banda trabalha em um EP com três composições inéditas, entre elas “Lanceiros Negros”, faixa pensada como uma continuação conceitual de “Revolução Farroupilha”, presente no álbum Carniça, de 2017.
A escolha do tema está longe de ser casual.
Os Lanceiros Negros eram combatentes afro-brasileiros que participaram da Revolução Farroupilha e cuja trajetória está ligada a um dos episódios mais controversos daquele conflito. Ao recuperar essa história dentro de uma composição de metal, a Carniça retorna a uma característica que acompanha parte de sua obra: utilizar a música pesada não apenas como exercício de agressividade sonora, mas também como espaço para revisitar acontecimentos que ajudam a explicar o lugar onde a própria banda nasceu.
É uma abordagem particularmente interessante para um grupo gaúcho.
A Revolução Farroupilha ocupa um espaço enorme no imaginário e na construção da identidade do Rio Grande do Sul, mas nem todas as partes dessa história receberam durante muito tempo a mesma atenção. Falar dos Lanceiros Negros significa necessariamente tocar nas contradições existentes dentro de uma narrativa frequentemente transformada em símbolo heroico.
E é significativo que uma banda de metal extremo escolha justamente esse terreno.
O gênero sempre funcionou muito bem quando decidiu mexer em feridas que versões mais confortáveis da história prefeririam deixar fechadas.
TRÊS MÚSICOS E UMA NOVA FASE
Os 35 anos também chegam acompanhados de uma reorganização interna.
Mauriano Lustosa reassumiu o baixo e voltou a concentrar as funções de vocalista e baixista. A formação atual é completada por Parahim Neto na guitarra e Marlo Lustosa na bateria.
É com esse trio que a Carniça prepara o novo EP e os shows comemorativos previstos para 2026 em diferentes estados brasileiros.
Existe uma ironia interessante nesse momento. Enquanto a banda tenta colocar novamente no ar um disco gravado há mais de duas décadas, está simultaneamente produzindo as músicas que representarão seu próximo passo.
Passado e futuro acontecendo ao mesmo tempo.
E talvez isso diga bastante sobre o que significa chegar aos 35 anos sem transformar uma banda em peça de museu.
QUEM CONTROLA A MEMÓRIA DO UNDERGROUND?
A discussão provocada pela retirada de Rotten Flesh acaba ultrapassando a própria Carniça.
Durante décadas, uma das características mais importantes do underground foi justamente sua autonomia. Bandas gravavam suas demos, pequenos selos prensavam discos, produtores montavam shows e zines documentavam aquilo que a grande imprensa ignorava. Era uma estrutura precária em muitos aspectos, mas grande parte dela pertencia às próprias pessoas que construíam a cena.
O streaming mudou radicalmente essa lógica.
Nunca foi tão fácil colocar uma música gravada em Novo Hamburgo ao alcance de alguém do outro lado do planeta. Ao mesmo tempo, nunca uma parcela tão grande da memória musical esteve concentrada em sistemas que artistas não controlam.
A situação de Rotten Flesh ajuda a lembrar dessa contradição.
A internet parecia oferecer ao underground um arquivo praticamente infinito, mas arquivos digitais também podem desaparecer. Uma conta é removida, um serviço encerra atividades, uma política muda ou determinado conteúdo deixa de se enquadrar nas regras de uma plataforma.
De repente, aquilo que parecia permanente mostra que nunca foi.
Isso não transforma automaticamente qualquer moderação de conteúdo em censura, nem elimina o direito das plataformas de estabelecer regras para os serviços que oferecem. Mas deveria fazer bandas, selos, jornalistas e principalmente fãs pensarem sobre preservação.
Talvez aquele CD guardado há vinte anos continue sendo mais importante do que parecia.
35 ANOS DEPOIS, A CARNIÇA CONTINUA EM MOVIMENTO
É fácil transformar aniversários de bandas em uma sequência de números, discos e formações. No caso da Carniça, talvez exista uma maneira melhor de olhar para esses 35 anos.
Em 1991, três décadas e meia de carreira provavelmente pareciam uma abstração. Não havia Spotify. Não havia YouTube. Não havia Instagram.
A possibilidade de alguém ouvir uma banda gaúcha instantaneamente em qualquer lugar do planeta pertencia praticamente à ficção científica. O underground funcionava através de outros caminhos, muito mais lentos e trabalhosos.
A Carniça atravessou essa transformação inteira.
Agora chega a 2026 discutindo justamente as consequências desse novo mundo. Seu primeiro álbum está temporariamente fora de algumas das principais plataformas por causa de uma decisão que a banda contesta, enquanto três novas músicas estão sendo preparadas para circular exatamente nesse ambiente digital.
Talvez não exista imagem melhor para resumir 35 anos de metal underground.
Uma banda tentando preservar aquilo que construiu sem permitir que a necessidade de olhar para trás impeça o próximo passo.
Rotten Flesh pertence à história da Carniça e do underground gaúcho independentemente de estar ou não disponível em determinada plataforma. A banda trabalha para que o álbum volte ao YouTube e YouTube Music, mas enquanto essa disputa acontece, amplificadores continuam sendo ligados, músicas continuam sendo escritas e novos shows estão sendo preparados.
Depois de três décadas e meia, talvez essa permanência seja o registro mais importante de todos.
Porque o underground nunca ofereceu garantia de eternidade.
A Carniça simplesmente resolveu continuar.
Carniça nas redes: @carnicaofficial
curti thrash metal? Leia mais matérias aqui: https://cogumelomedia.com.br/category/thrash-metal/







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