Em 1990, o Iron Maiden vinha de uma sequência praticamente intocável e havia levado sua fórmula épica ao limite com Somewhere in Time e Seventh Son of a Seventh Son. Então Adrian Smith saiu, Janick Gers entrou e a banda resolveu desmontar boa parte do que havia construído. Trinta e seis anos depois, No Prayer for the Dying continua sendo tratado como um dos filhos menores da discografia. Para mim, está entre os três discos do Maiden que mais escuto. Mas não foi amor à primeira audição. Precisei ouvi-lo três vezes para entender que aquilo ainda era Iron Maiden.

Se alguém me perguntar qual é a banda da minha vida, a resposta vem praticamente sem precisar pensar: Iron Maiden.

Nesse exato momento, Marcelo Nova acaba de aparecer em algum canto da minha cabeça, balançando-a negativamente e me olhando com aquela expressão de desprezo que ele sabe fazer muito bem.

Depois eu explico o motivo.

O fato é que poucas bandas me acompanharam tanto quanto o Iron Maiden. Existem discos que pertencem a determinadas épocas da nossa vida e existem bandas que atravessam todas elas. O Maiden, para mim, pertence à segunda categoria.

Talvez seja justamente por isso que sempre tenha me incomodado a maneira como No Prayer for the Dying foi sendo tratado com o passar dos anos. Não apenas por parte dos fãs e da crítica, mas pela própria banda.

Parece existir um acordo silencioso para fingir que aquele disco quase não aconteceu.

E eu discordo completamente.

O que poderia vir depois de Seventh Son?

É impossível falar de No Prayer for the Dying sem lembrar de onde o Iron Maiden estava vindo.

Durante os anos 80, a banda havia construído uma sequência impressionante. The Number of the Beast, Piece of Mind, Powerslave, Somewhere in Time e Seventh Son of a Seventh Son mostram um grupo expandindo constantemente sua própria linguagem.

Os arranjos cresceram. As músicas ficaram mais elaboradas. Os elementos progressivos ganharam espaço. Os sintetizadores apareceram. A produção tornou-se cada vez mais grandiosa.

Até chegar a Seventh Son.

E aí havia um problema.

O que fazer depois daquilo?

Gravar outro Seventh Son? Colocar ainda mais teclados? Fazer músicas maiores? Criar outro álbum conceitual?

A resposta do Maiden foi praticamente desmontar a máquina.

No Prayer for the Dying é mais seco, direto, áspero e menos sofisticado. Os sintetizadores que marcaram os dois trabalhos anteriores praticamente desaparecem. Bruce Dickinson adota uma voz mais rasgada. A produção perde deliberadamente parte daquela monumentalidade.

E existe uma mudança ainda maior.

Adrian Smith estava fora.

O peso da saída de Adrian

Quando fui comprar No Prayer for the Dying, ainda carregava o peso da saída de Adrian Smith.

Para mim não era simplesmente uma mudança de integrante. Adrian fazia parte daquele Iron Maiden que eu conhecia, daquela formação que havia atravessado alguns dos discos mais importantes da minha vida.

Ao mesmo tempo, curiosamente, eu estava contente com a entrada de Janick Gers.

Naquele mesmo ano Bruce Dickinson havia lançado Tattooed Millionaire, e eu gostava muito daquele disco. Janick tocava nele e, portanto, sua chegada despertava curiosidade. Eu queria descobrir o que aquele guitarrista poderia fazer dentro do Maiden.

Só não sabia o que esperar.

Tinha acompanhado na Rock Brigade as notícias sobre o lançamento, mas fiz algo que hoje considero curioso: não quis ler nenhuma análise do disco antes de ouvi-lo.

Não queria alguém me dizendo se era bom ou ruim. Não queria saber qual música deveria achar maravilhosa ou qual deveria pular.

Queria ouvir primeiro.

O silêncio antes de Tailgunner

Comprei o vinil na Megaforce. E nem escutei na loja. Levei direto para casa.

Cheguei, levantei o acrílico do toca-discos e rasguei o plástico. Antes de colocar o LP para tocar, fiquei olhando a capa.

Eddie saía de uma tumba e agarrava um homem pelo pescoço.

Mas não qualquer homem.

Era Rod Smallwood, o lendário empresário da banda. 

Hoje acho impossível olhar para aquela imagem sem imaginar alguma mensagem involuntária: seria Eddie indignado com o disco e resolvendo enforcar o empresarior?

Talvez fosse um sinal. Ou talvez eu esteja apenas sendo injusto com Martin 36 anos depois.

Coloquei o disco no prato. Peguei os fones. Pluguei. Baixei a agulha.

Quem cresceu ouvindo vinil conhece aquele momento.

A agulha encontra o sulco e existe um pequeno intervalo antes de a música começar. O ruído do vinil, alguns estalos, o disco girando e nada acontecendo.

Normalmente são poucos segundos. Naquele dia pareceram uma eternidade.

Eu estava esperando para descobrir como soaria o Iron Maiden sem Adrian Smith. Como Janick Gers entraria naquela banda. O que poderia existir depois de Seventh Son of a Seventh Son.

Então começou “Tailgunner”.

E alguma coisa estava errada.

Ou, pelo menos, foi o que meus ouvidos disseram naquele momento.

Não, eu não achei maravilhoso

Seria muito bonito romantizar essa história e dizer que bastaram os primeiros minutos para eu perceber que estava diante de um grande disco.

Não aconteceu.

Eu não achei No Prayer for the Dying maravilhoso.

Terminei a primeira audição tentando entender o que tinha acabado de ouvir.

Era Iron Maiden. Bruce estava ali. Steve Harris estava ali. Dave Murray estava ali. Existiam harmonias de guitarra, o baixo galopava, Nicko continuava sendo Nicko.

Mas aquilo não soava como o Maiden que eu esperava ouvir.

Ouvi novamente.

Depois mais uma vez.

Foram necessárias aproximadamente três audições para eu entender aquele disco.

Curiosamente, anos depois aconteceria algo parecido com Vulgar Display of Power, do Pantera. A diferença é que naquele caso levei quase cinco anos para compreender realmente o tamanho daquele álbum.

No Prayer precisou de três voltas.

E na terceira alguma coisa encaixou.

Talvez eu finalmente tivesse parado de esperar que ele fosse aquilo que vinha antes.

“Fates Warning”.

“No Prayer for the Dying”.

“Mother Russia”.

Lembro da sensação até hoje.

Que músicas fodas.

Mother Russia me levou até uma Pinguim

“Mother Russia”, particularmente, fez alguma coisa comigo.

Eu tocava bateria e tinha uma Pinguim de segunda mão. O pedal duplo havia pertencido ao Dallis, ex-baterista do Rosa Tatuada e atualmente no KLB — informação que até hoje faz aparecer alguns pontos de interrogação na minha cabeça.

Os pratos eram provavelmente mais velhos do que eu. Não importava. Era meu brinquedo favorito.

Meus vizinhos provavelmente tinham outra definição para ela. Volta e meia alguém batia na minha janela por causa do barulho.

Quando ouvi “Mother Russia”, uma passagem de Nicko McBrain imediatamente chamou minha atenção.

Eu estava acostumado a uma lógica de execução em que havia ataques simultâneos:

chimbal/caixa, chimbal, chimbal/bumbo, chimbal.

Então Nicko apareceu fazendo algo que meus ouvidos interpretaram de outra maneira:

chimbal, caixa, chimbal, bumbo.

Separado.

Um ataque depois do outro.

Em vez de chimbal e caixa ou chimbal e bumbo caírem juntos, cada peça ocupava seu próprio espaço.

Pode parecer uma diferença pequena escrita aqui. Para mim, naquela época, não era.

Aquilo quebrava a lógica que meu corpo estava acostumado a executar.

E fiz o que qualquer garoto com uma bateria faria.

Corri para a Pinguim.

Ouvi. Tentei tocar. Voltei para o disco. Ouvi novamente. Voltei para a bateria.

Não faço ideia de quantas vezes errei até começar a compreender aquela levada. Também não sei quantas vezes meus vizinhos amaldiçoaram Nicko McBrain sem sequer saber quem ele era.

Mas lembro disso 36 anos depois.

E talvez essa memória diga mais sobre minha relação com No Prayer for the Dying do que qualquer nota que eu possa dar ao álbum.

Um disco que faz você levantar, correr até seu instrumento e tentar descobrir “que porra esse cara acabou de fazer?” provocou alguma coisa.

E música, no fim das contas, é isso.

E então a MTV mostrou Holy Smoke

Só que a ruptura de No Prayer não estava apenas no som. Eram tempos de MTV. Videoclipe ainda era acontecimento. O último clipe do Iron Maiden que estava muito presente na minha memória era “Can I Play with Madness”.

E aquilo era muito foda.

Uma turma tendo aula de desenho ao ar livre, com um professor autoritário circulando entre os alunos, conferindo e corrigindo os trabalhos. A figura lembrava aquele tipo de professor de Another Brick in the Wall – Part 2. Até que ele encontra um aluno desenhando Eddie e a história mergulha naquele universo fantástico e sombrio que combinava perfeitamente com o Maiden de Seventh Son.

Então chegou “Holy Smoke”.

O que era aquilo?

Bruce Dickinson cantando em um campo florido.

Screenshot

Steve Harris em cima de um trator em movimento. Janick completamente solto. A banda fazendo palhaçada e um videoclipe que parecia não ter qualquer obrigação de fazer sentido. Até hoje considero “Holy Smoke” um dos clipes mais nonsense que já vi.

Na época?

Serviu para boas risadas. E eu assistia toda vez que passava.

Olhando hoje, talvez “Holy Smoke” seja uma representação visual perfeita da ruptura que estava acontecendo musicalmente.

Dois anos antes havia todo aquele universo elaborado de “Can I Play with Madness”. Agora Steve Harris estava andando de trator.

Alguma coisa definitivamente tinha mudado.

Talvez esse seja justamente o valor de No Prayer

Hoje consigo entender muito melhor por que precisei ouvir o disco três vezes.

Eu tinha uma ideia do que deveria ser Iron Maiden porque a própria banda havia passado anos construindo essa expectativa.

Adrian e Dave. Bruce cantando daquela maneira gigantesca. As composições cada vez mais elaboradas. Os sintetizadores. A produção monumental.

Aquela sequência quase inacreditável de discos.

Então Adrian sai, Janick entra, Bruce muda sua abordagem vocal, a produção fica mais seca, as músicas ficam mais diretas e até os videoclipes parecem pertencer a outro universo.

Talvez meu problema na primeira audição não tenha sido o disco.

Talvez eu simplesmente estivesse tentando encontrar Seventh Son onde ele propositalmente não existia.

Isso não significa que No Prayer seja perfeito.

Não é.

Existem músicas menos inspiradas. A produção poderia ser melhor. A voz rasgada de Bruce funciona muito mais em alguns momentos do que em outros. E a ausência de Adrian Smith pesa.

Mas existe uma diferença enorme entre dizer que um álbum tem defeitos e dizer que ele é ruim.

No Prayer for the Dying não precisava superar Seventh Son of a Seventh Son.

Talvez seu maior problema tenha sido justamente ter vindo depois dele.

O disco que o Maiden deixou para trás

Existe ainda uma coisa que sempre me chama atenção quando observo a história posterior da banda.

O Iron Maiden praticamente abandonou No Prayer for the Dying.

E o contraste com outros álbuns controversos é enorme.

The X Factor, tantas vezes colocado entre os discos mais difíceis da banda, deixou “Sign of the Cross”, música que Bruce Dickinson incorporou e que voltou ao repertório do Maiden décadas depois. “Man on the Edge” também teve vida além da era Blaze.

Virtual XI deixou “The Clansman”.

No Prayer parece não ter recebido a mesma chance.

É curioso pensar que um disco que representou uma ruptura tão grande acabou quase transformado em nota de rodapé dentro da própria história da banda.

Talvez o Maiden não goste muito de olhar para 1990.

Eu gosto.

A banda da minha vida

Se me perguntarem qual é a banda da minha vida, continuo respondendo Iron Maiden.

E agora podemos voltar ao Marcelo Nova balançando a cabeça.

Porque isso realmente aconteceu.

Certa vez eu estava voltando de um Rock in Rio e encontrei o pessoal do Camisa de Vênus no aeroporto. Conversando com eles, contei que tinha ido ao festival para ver o Iron Maiden e que estava voltando para Porto Alegre para assistir ao Camisa.

Marcelo me olhou e disparou algo mais ou menos assim:

“O quê? Você pagou toda aquela grana para ver aquele baixinho correr no palco igual a um macaco? Não acredito. Você, um fã do Camisa que trocou a namorada por um show…”

E balançou a cabeça.

A reprovação ficou guardada na memória.

Então existe uma razão real para, toda vez que escrevo que Iron Maiden é a banda da minha vida, imaginar Marcelo Nova surgindo dentro da minha cabeça com aquele olhar.

Desculpa, Marcelo.

É Maiden.

Camisa de Vênus ocupa um espaço gigantesco na minha história, mas Iron Maiden provavelmente é a banda que mais ouvi durante minha vida.

E continua sendo uma das que mais escuto.

O que me leva a uma última confissão, talvez ainda mais perigosa do que admitir isso diante de Marcelo Nova.

Se eu pensar não nos melhores discos do Iron Maiden, mas naqueles que mais escuto, meu trio provavelmente é:

Powerslave.

Somewhere in Time.

E No Prayer for the Dying.

Sim.

No Prayer.

Não estou dizendo que ele seja tecnicamente melhor que The Number of the Beast, Piece of Mind ou Seventh Son. Essa discussão não me interessa muito. Música não é campeonato e importância histórica não determina necessariamente qual disco você vai tirar da estante quando simplesmente está com vontade de ouvir uma banda.

Estou falando dos discos que minha mão procura.

Daqueles que coloco para tocar inteiros.

Daqueles que não preciso ser lembrado de que existem.

No Prayer for the Dying está entre eles.

Talvez porque eu ainda consiga ouvir aquele silêncio antes de “Tailgunner”.

Ainda consigo lembrar do plástico sendo rasgado.

Da capa.

Da terceira audição.

De “Fates Warning”.

Da faixa-título.

De “Mother Russia”.

Da velha Pinguim.

Dos vizinhos batendo na janela.

De Bruce no campo florido.

De Steve Harris em cima daquele maldito trator.

E talvez seja essa a diferença entre avaliar um disco e viver com ele.

Trinta e seis anos depois, posso compreender perfeitamente quem considera No Prayer for the Dying um trabalho menor do Iron Maiden.

Só não consigo concordar.

Para mim, é um grande disco.

Imperfeito, estranho, às vezes até desconfortável, mas justamente o álbum em que uma das maiores bandas do mundo resolveu interromper uma fórmula que estava funcionando e descobrir o que aconteceria se começasse a desmontá-la.

O próprio Iron Maiden parece ter deixado No Prayer for the Dying para trás.

Eu não.

Imagino Marcelo Nova balançando a cabeça enquanto termino este texto.

Pode balançar, Marcelo.

Vou colocar No Prayer for the Dying para tocar.

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curte Heavy Metal? Segue mais matérias: https://cogumelomedia.com.br/category/heavy-metal/

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