Há 35 anos, o Guns N’ Roses lançava Use Your Illusion I e Use Your Illusion II, dois discos enormes em todos os sentidos possíveis. Para mim, porém, a história deles começou oito meses antes, durante um verão em Pinhal, no litoral gaúcho. Na sala de casa, alguns amigos da praia, uma velha Telefunken colorida de 20 polegadas e o Rock in Rio transformaram o Maracanã em parte das nossas férias.

OS AMIGOS DA PRAIA
Aqui no Sul existia uma coisa que talvez fosse um pouco diferente da experiência de quem cresceu em algumas das grandes capitais litorâneas brasileiras: nós tínhamos os amigos da praia.
Eram amizades com calendário próprio.
Durante praticamente dois meses, aquelas pessoas faziam parte da nossa vida. A gente se encontrava todos os dias, passava tardes e noites juntos, ouvia música, andava pela praia, inventava alguma coisa para fazer e criava uma pequena realidade que existia apenas durante o verão.
Então as férias terminavam.
Cada um voltava para sua cidade, para a escola, para casa, para sua rotina. Voltávamos para aquilo que gosto de chamar de nossa vida de concreto.
E muitas vezes passávamos o restante do ano sem qualquer contato.
Não havia WhatsApp, Instagram, Facebook ou um grupo mantendo aquela amizade artificialmente ativa durante os outros dez meses. Em alguns casos, você se despedia no final de fevereiro e simplesmente não sabia mais nada daquela pessoa.
Até o verão seguinte.
Quando janeiro chegava, as famílias voltavam para o litoral e aquelas amizades saíam de uma espécie de congelamento. Bastavam alguns minutos para continuarmos praticamente de onde havíamos parado no ano anterior.
Em Pinhal eu tinha alguns desses amigos.
Entre eles estavam Alexandre, o Xandi, e seu irmão Fabiano, que todo mundo conhecia como Fofo.
E eles estavam na minha casa naquela noite.
PINHAL, JANEIRO DE 1991
Quem conheceu Pinhal naquela época provavelmente lembra bem do cenário. Ruas de paralelepípedos irregulares — ótimos para torcer um pé — misturados àquela areia fina que vinha dos cômoros próximos da praia. A areia invadia tudo. Ruas, calçadas, casas, carros.

Pinhal também acabaria conquistando seu pequeno espaço na história do rock gaúcho. Duca Leindecker e seu irmão veraneavam por lá, e anos depois a praia viraria música do Cidadão Quem.
Mas minha ligação musical com Pinhal passa também por outra história.
Foi lá que assisti ao Guns N’ Roses no Rock in Rio II, em janeiro de 1991.
Numa velha Telefunken colorida de 20 polegadas.
E não estava sozinho. Xandi e Fofo estavam comigo, além de outros amigos da praia cujos nomes, depois de 35 anos, minha memória já não consegue recuperar.
Isso também diz alguma coisa sobre como a memória funciona. Alguns nomes desapareceram, enquanto determinadas imagens continuam absurdamente nítidas.
E naquela noite algumas delas ficariam gravadas para sempre.
EU JÁ ERA FÃ DO GUNS
Quando o Guns chegou ao Rock in Rio, eu não estava descobrindo a banda.
Acho que era fã desde 1988. Tinha Appetite for Destruction em vinil e também G N’ R Lies, que recuperava de um lado as gravações de Live ?!@ Like a Suicide* e, do outro, apresentava aquele Guns acústico de “Patience”, “Used to Love Her”, “You’re Crazy” e “One in a Million”.


Ouvíamos muito aquilo.
Durante o ano havia Demétrio, Sandro e outros amigos. Discos circulavam, fitas eram gravadas, alguém comprava alguma coisa e mostrava para os outros. Quando uma banda entrava na nossa vida, a relação com aqueles poucos discos disponíveis era intensa.
Não existia uma discografia inteira esperando dentro de um telefone.
Por isso eu achava que conhecia o Guns.
Naquela noite em Pinhal, nós nos acomodamos diante da Telefunken para assistir à banda como headliner do Rock in Rio. Do outro lado daquela pequena tela estava o Maracanã tomado por uma multidão.
O Guns entrou.
Começou a tocar.
E eu não reconheci a música.
Era “Pretty Tied Up”.
QUE MÚSICA É ESSA?
Hoje isso parece quase impossível.
Se uma banda toca uma música desconhecida, segundos depois alguém já publicou o nome, o vídeo aparece nas redes, o setlist é atualizado e você pode ouvir a versão de estúdio no celular.
Em janeiro de 1991 não funcionava assim.
A gente simplesmente assistia.
Comentava.
Tentava entender.
E continuava assistindo.
“Pretty Tied Up” ainda não havia sido lançada. Meses depois apareceria em Use Your Illusion II, mas naquele momento nós não tínhamos como saber disso.
E ela não foi a única.
Naquela apresentação surgiram “Double Talkin’ Jive”, “You Could Be Mine”, “Dead Horse” e “Estranged”, músicas que ainda levariam meses para chegar oficialmente aos discos. “Civil War” também estava no repertório; essa eu já conhecia, pois havia sido lançada em 1990 na coletânea beneficente Nobody’s Child: Romanian Angel Appeal.
Sem saber exatamente o tamanho daquilo, um grupo de guris reunido numa casa em Pinhal estava ouvindo parte dos futuros Use Your Illusion cerca de oito meses antes de poder entrar numa loja e comprar os discos.
E o Guns fazia aquilo no Maracanã.
Como headliner.
Poderia abrir com “Welcome to the Jungle”, “It’s So Easy”, “Nightrain” ou qualquer música capaz de provocar reconhecimento imediato.
Preferiu “Pretty Tied Up”.
Era uma demonstração enorme da confiança que a banda tinha naquele material.
“CIVIL WAR” — E AQUELE SHORTS…
“Civil War” merece uma lembrança particular.
Não apenas pela música.
Infelizmente.
Algumas imagens ficam armazenadas no cérebro sem que a gente tenha autorizado, e uma delas é Axl Rose sem camisa, usando aquele shorts curtíssimo, colado no corpo e estampado com a bandeira dos Estados Unidos.
Trinta e cinco anos depois eu ainda lembro daquilo.
Queimem meus olhos.

E olha que era uma Telefunken de apenas 20 polegadas. Talvez tenha sido melhor assim. Se em 1991 eu tivesse uma televisão de 65 polegadas em 4K, provavelmente seria uma experiência da qual jamais teria me recuperado.
Brincadeiras à parte, “Civil War” também mostrava claramente que alguma coisa estava mudando.
O Guns que preparava aqueles dois discos não pretendia simplesmente repetir Appetite for Destruction. As estruturas estavam maiores, outras influências apareciam, o piano ganhava espaço e as composições começavam a apontar para territórios que a banda ainda não havia explorado completamente.
Naquela sala em Pinhal talvez não tivéssemos consciência disso.
Mas estávamos vendo a transformação acontecer.
COMO SUCEDER APPETITE FOR DESTRUCTION?
Essa era uma pergunta complicada.
Appetite for Destruction havia transformado o Guns N’ Roses num fenômeno. “Welcome to the Jungle”, “Sweet Child O’ Mine” e “Paradise City” ajudaram a levar uma banda surgida nos clubes de Los Angeles para uma dimensão completamente diferente.
O caminho mais seguro seria tentar repetir a fórmula.
O Guns fez praticamente o contrário.
Em 17 de setembro de 1991, chegaram Use Your Illusion I e Use Your Illusion II. Dois álbuns lançados simultaneamente, vendidos separadamente, somando 30 músicas.
O Guns poderia ter feito um sucessor enxuto para Appetite.
Preferiu colocar praticamente tudo para fora.
E talvez seja impossível compreender os Illusions sem aceitar seus excessos.
DOIS DISCOS PARA UMA BANDA QUE JÁ NÃO CABIA EM UM
O primeiro álbum ainda mantinha os dentes bem à mostra. “Right Next Door to Hell”, “Perfect Crime”, “Bad Obsession” e “Double Talkin’ Jive” carregavam parte daquela sujeira que eu gostava no Guns.
Mas havia muito mais acontecendo.
“Don’t Cry” mostrava outro lado da banda. “Coma” ultrapassava os dez minutos. E “November Rain”, com piano, arranjos grandiosos e toda aquela dramaticidade, parecia ignorar qualquer regra sobre o tamanho que uma música de hard rock deveria ter.
No segundo disco, a expansão continuava.
“Civil War”, “14 Years”, “Yesterdays”, “Pretty Tied Up”, “Locomotive”, “Breakdown”, “You Could Be Mine”…
E “Estranged”.
Quando finalmente pude ouvir aquelas músicas nos discos, algumas não eram completamente novas para mim. Durante meses, elas tinham existido apenas como lembranças daquela transmissão do Rock in Rio.
Isso é algo difícil de reproduzir hoje.
Não dava para voltar ao YouTube e assistir novamente.
Era preciso guardar na cabeça.
E esperar.
O MARACANÃ VEIO ANTES DO Nº 1 E DO Nº 2
Quando os discos chegaram às lojas, o tamanho do Guns ficou ainda mais evidente. Use Your Illusion II estreou em primeiro lugar na Billboard 200 e Use Your Illusion I ficou logo atrás, na segunda posição.
Mas é importante não contar essa história como se os dois álbuns tivessem transformado subitamente uma banda de clubes em uma banda de estádios.
Quando chegaram às lojas, essa transformação já estava acontecendo.
Eu tinha visto uma parte dela naquela Telefunken.
Em janeiro, o Guns já estava no Maracanã apresentando músicas inéditas para uma multidão. Em setembro, o mundo finalmente podia comprar aquelas músicas.
Os Use Your Illusion não iniciaram a transformação.
Eles registraram o momento em que ela explodiu.
GRANDE DEMAIS ATÉ PARA O PRÓPRIO GUNS
A banda também mudava por dentro.
Steven Adler já havia deixado o grupo, embora ainda aparecesse em “Civil War”. Matt Sorum assumira a bateria. Dizzy Reed acrescentava teclados a uma sonoridade cada vez mais ampla. Izzy Stradlin ainda estava nos discos, mas sairia durante aquela fase.

Talvez os Illusions sejam tão fascinantes justamente porque capturaram o Guns no meio dessa transição.
Ainda havia a sujeira dos clubes, mas agora os palcos eram estádios. Ainda existia aquela pulsação quase punk em várias músicas, mas também havia piano, composições enormes e arranjos grandiosos.
A banda havia descoberto que podia tentar praticamente qualquer coisa.
Então tentou.
QUANDO O GUNS VIROU CINEMA
A ambição não ficou restrita aos discos.
“Don’t Cry”, “November Rain” e “Estranged” levaram aquela fase também para a televisão através de videoclipes que pareciam querer ultrapassar os limites do próprio formato.
Especialmente “November Rain”.
Axl ao piano. Slash saindo da igreja para tocar o solo. O casamento. A chuva. O funeral.


Aquilo parecia cinema.
Para quem tinha conhecido o Guns pela sujeira de Appetite for Destruction, era impressionante observar até onde aquela banda havia chegado em poucos anos.
Dos clubes de Los Angeles para o Maracanã.
Do Maracanã para dois discos lançados simultaneamente.
Dos discos para uma turnê gigantesca.
E das ruas de “Welcome to the Jungle” para a grandiosidade quase absurda de “November Rain” e “Estranged”.
SERIAM MELHORES SE FOSSEM UM DISCO SÓ?
Trinta e cinco anos depois, ainda existe a discussão sobre como seria um único Use Your Illusion escolhendo apenas as melhores músicas dos dois álbuns.
Provavelmente daria para montar um disco extraordinário com 12 ou 14 faixas.
Mas ele não seria a mesma coisa.
Porque o excesso faz parte dos Illusions.
As músicas enormes fazem parte. As escolhas estranhas fazem parte. As duas versões de “Don’t Cry” fazem parte. Até “My World”… bem, até “My World” faz parte.
Appetite for Destruction talvez seja mais direto e coeso. Mas os Illusions mostram algo que aquele disco não poderia mostrar: o que acontece quando uma banda que parecia não ter nada a perder descobre que conquistou praticamente tudo.
E resolve testar até onde consegue ir.
DO OUTRO LADO DO DISCO
Hoje posso ouvir qualquer uma dessas músicas em segundos.
Posso procurar aquela apresentação do Rock in Rio, conferir o setlist, voltar a determinado momento, descobrir datas e corrigir coisas que minha memória embaralhou ao longo de 35 anos.
Naquela época não.
Talvez por isso algumas lembranças tenham sobrevivido de uma maneira tão particular.
Quando penso nos Use Your Illusion, não são os números da Billboard que aparecem primeiro. Também não são os videoclipes milionários, o tamanho da turnê ou os milhões de discos vendidos.
Eu volto para Pinhal.
Volto para aquelas ruas de paralelepípedos irregulares misturados à areia fina que vinha dos cômoros. Volto para aquele período estranho e maravilhoso em que existiam os amigos da praia, pessoas que durante dois meses faziam parte de praticamente todos os nossos dias e depois desapareciam quando voltávamos para nossas vidas de concreto.
Lembro de Xandi.
Lembro do Fofo.
Não lembro mais o nome de todos que estavam naquela sala naquela noite, e tudo bem. A memória escolheu o que queria guardar.
Lembro da velha Telefunken colorida de 20 polegadas.
Lembro do Guns entrando no palco do Maracanã.
Lembro de não reconhecer a primeira música.
“Pretty Tied Up”.
Lembro de “Civil War”.
E, infelizmente, lembro daquele maldito shorts de Axl Rose.
Queimem meus olhos.
Pouco tempo depois, aquele verão terminaria. Xandi, Fofo e os outros amigos seguiriam seus caminhos. Nós voltaríamos para nossas cidades, escolas, famílias, problemas e para nossa vida de concreto. Sem mensagens diárias, sem redes sociais, sem saber muito uns dos outros.
Até o próximo verão.
Os Use Your Illusion ainda demorariam cerca de oito meses para chegar às lojas.
Mas uma parte deles já tinha chegado até nós.
Naquela noite, o Maracanã tinha uma multidão. Em Pinhal, éramos apenas alguns amigos da praia reunidos diante de uma velha Telefunken colorida de 20 polegadas.
E, por algumas horas, os dois lugares ficaram do mesmo tamanho.
Texto: Giovanni Maglia







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