Existe um abismo escancarado dentro de “Antihuman”, novo single do Siegrid Ingrid. Em que momento deixamos de coexistir e começamos a triturar tudo aquilo que nos torna humanos?

A resposta do grupo não vem em forma de palestra complacente. Ela cospe riffs cortantes, acelerações ríspidas, vocais em carne viva e um diagnóstico impiedoso sobre isolamento, egoísmo, indiferença e perda de empatia. Mas o golpe mais certeiro não mira um alvo abstrato. O Siegrid Ingrid se recusa a criar um monstro externo para aliviar a consciência de quem escuta.

“We are the Antihuman.”

Nós somos os antihumanos.

Formado em 1989, em São Paulo, o Siegrid Ingrid carrega uma trajetória construída dentro do metal extremo brasileiro, atravessando diferentes épocas, formações e momentos da cena sem abandonar a identidade que marcou sua história.

Lançado nesta quinta-feira, 24 de setembro, “Antihuman” inaugura uma nova etapa ao apresentar o primeiro registro oficial da atual formação do grupo. Mauro Punk assume os vocais, André Gubber está nas guitarras, Luiz Berenguer no baixo e Edilson Alves na bateria. É uma formação que mantém a ligação com a história da banda enquanto abre espaço para uma nova sequência de composições.

A faixa rasga a superfície dos discursos mais óbvios sobre tecnologia e redes sociais. O Siegrid Ingrid não está simplesmente lamentando o excesso de telas, mas olhando para aquilo que acontece entre as pessoas enquanto os aparelhos continuam brilhando.

Os versos não deixam muito espaço para conforto. “Ties Are Rotting”, laços que apodrecem. “Hunger Thrives”, a fome que prospera. “Parasites Don’t Hide”, parasitas que já não precisam se esconder. Quando a letra sentencia que “Humanity Burns In Everything”, o fogo deixa de representar um problema isolado e passa a atingir a própria ideia de humanidade.

Não existe um único culpado para esse cenário. A música aponta para uma soma de comportamentos, ego, isolamento, medo, intolerância e indiferença, elementos que aparecem como partes de uma mesma engrenagem.

Essa leitura fica ainda mais pesada quando a letra chega a:

“A Hanging To Honor, a Bomb To Honor,
A Toast To Celebrate a Genocide.”

Aqui, a crítica ganha outra dimensão. A violência não aparece apenas como destruição. Ela aparece quando a barbárie pode ser transformada em símbolo, justificativa ou celebração. É um dos momentos mais duros da faixa justamente porque coloca em discussão algo que ultrapassa o universo do metal, a capacidade humana de normalizar aquilo que deveria provocar horror.

E então o refrão retorna.

“Because We Are The Antihuman.”

É nesse ponto que a música deixa de falar sobre os outros e passa a falar também sobre quem está ouvindo.

O egoísmo não está somente no outro. A indiferença não está somente no outro. A intolerância não está somente no outro. Existe uma parcela de nós dentro desse cenário.

Musicalmente, o single mantém a intensidade característica do Siegrid Ingrid, transitando pelo Death e Thrash Metal e incorporando elementos de Hardcore e Grindcore. A produção de Rogério Wecko, no Dual Noise Studio, sustenta o peso da faixa sem retirar sua aspereza, enquanto o videoclipe produzido por Luiz Berenguer, da Cia HC Filmes, amplia visualmente a atmosfera construída pela música.

Depois de 37 anos de trajetória, o Siegrid Ingrid não recorre a uma previsão distante para falar sobre o futuro da humanidade.

“Antihuman” fala de agora.

Fala das relações que se desgastam enquanto as telas continuam acesas. Da distância que pode existir mesmo quando estamos permanentemente conectados. Da empatia que desaparece no meio do ruído. Da violência que deixa de causar espanto quando passa a fazer parte da paisagem.

E talvez seja justamente por isso que o título incomode tanto.

“Antihuman” não fala de uma criatura diferente de nós. Não aponta para um inimigo que vive do lado de fora.

Fala daquilo que podemos nos tornar.

No fim, o Siegrid Ingrid não entrega uma resposta. Entrega um espelho.

E talvez o mais desconfortável seja perceber que não existe ninguém do outro lado dele.

Somos nós.

O single e o videoclipe oficial de “Antihuman” já estão disponíveis.

O problema nunca foi apenas o mundo estar cada vez mais conectado.

O problema é o que estamos fazendo uns com os outros enquanto estamos conectados.

https://www.instagram.com/siegridingrid.official

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