Novo single do power duo de Campinas mistura hardcore, metal, punk e crítica política em uma faixa que transforma moralismo, hipocrisia e poder em matéria-prima para o caos

Projeto Mayhem chuta a porta da hipocrisia com o single e videoclipe “Tradicional Família”
A distopia que muitos insistem em tratar como ficção está estampada diariamente nas manchetes. O Projeto Mayhem se recusa a fingir normalidade diante dela. O duo de Campinas, formado por Lucas Pereira e Tonloserkids, lançou em 23 de agosto o single e videoclipe “Tradicional Família”, mais um capítulo de uma trajetória forjada entre Crossover Hardcore Punk , Thrash Metal e uma disposição visceral para triturar o absurdo cotidiano.
A faixa parte da expressão predileta do conservadorismo burguês e a vira pelo avesso. “Tradicional Família” não tem vocação para manter aparências. O objetivo aqui é expor a carne viva da contradição.
A lletra joga com o sarcasmo e cospe referências políticas sem firula, disparando contra moralismo seletivo, fanatismo de púlpito, falso patriotismo, violência estrutural e o abismo entre o discurso e a prática dos bastidores. No epicentro dessa investida surge o refrão, que transforma “diabo, puta e farinha” em um lema invertido, desmantelando de vez a pureza vendida pela moralidade hegemônica.
Não há busca por sutileza. E a urgência do som reside justamente nessa recusa.
O Projeto Mayhem não observa a realidade de camarote. A banda pisa direto na lama social brasileira. Menções diretas a rachadinhas, milícias, idolatria armada e mercantilização da fé dividem espaço com os massacres no Irã e na Palestina, estabelecendo um vínculo brutal entre o jogo do poder e a comoção seletiva diante das tragédias periféricas. A composição não quer contar uma história dócil, ela quer acumular incômodo.
Assinado e editado por Kell Candido, da Black Cosmic Art, o audiovisual mergulha sem rodeios na mesma atmosfera visceral construída pela música. A colagem visual é impiedosa. Figuras políticas caricatas, discursos inflamados de pastores, imagens de guerra e o rastro sangrento das chacinas urbanas se chocam na tela, transformando a chamada “família tradicional” em um verdadeiro cenário de horror. Não há maquiagem estética para amenizar o impacto, apenas a crueza documental expondo a podridão que sustenta esse teatro moral.
Não é uma família retratada como núcleo acolhedor. É uma fachada, e atrás dela existe tudo aquilo que a música insiste em colocar sob suspeita.
Essa escolha estética conversa de forma umbilical com a identidade do Projeto Mayhem. A banda trabalha com a certeza de que o absurdo não precisa ser inventado quando já está escancarado diante dos nossos olhos. “Distopia não é ficção, é o noticiário” não funciona apenas como frase de apresentação, é uma chave direta de leitura para compreender o projeto.
Musicalmente, o peso rasteiro do metal bate de frente com a pressa do hardcore e a saliva do punk, criando uma faixa que recusa qualquer zona de conforto. A produção conduzida no Estúdio Casa 39, cobrindo captação, mixagem e masterização, soube esticar essa corda sem deixar a agressividade perder a respiração.
O som cutuca, provoca e não pede arrego.

Dentro de uma cena independente que sabe o peso de suas trincheiras, o Projeto Mayhem se estabelece onde a fúria se transforma em denúncia viva. “Tradicional Família” não tenta suavizar sua posição e nem transforma a indignação em discurso polido. A banda prefere o ruído, prefere o confronto e prefere colocar a podridão no centro da sala com o volume no talo.
A distopia não está no horizonte. Ela já abriu a porta, e o Projeto Mayhem resolveu chutar a porta de volta.
A MÁSCARA
A máscara da moral sempre cai no escuro.
De dia, discurso.
De noite, prática.
No púlpito, virtude.
Nos bastidores, pacto.
A tradição deles tem raiz no controle, no culto e na hipocrisia. A força de “Tradicional Família” brota desse exato lugar, não em pedir licença para os convertidos da farsa, mas em arrancar dela a maquiagem.
O Projeto Mayhem não inventou o monstro.
Apenas acendeu a luz na cara dele.
E quando a luz acende, a máscara cai.







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