Orquestra, cenários inspirados nas grandes turnês do Iron Maiden, diferentes versões de Eddie, um Spitfire sobre o palco e participações de Bruno Sutter e Edu Falaschi marcaram a apresentação da The Beast Experience em Porto Alegre.
Quem entrou no Auditório Araújo Vianna na noite de 2 de outubro encontrou algo muito maior do que uma banda executando clássicos do Iron Maiden acompanhada por uma orquestra. A proposta da The Beast Experience com o espetáculo “Iron Maiden Symphonic” era levar ao palco também parte daquele universo visual que transformou os shows do Maiden em referência dentro do heavy metal. Para isso, a produção desembarcou em Porto Alegre com uma estrutura gigantesca.

O palco remetia diretamente à estética de Powerslave, com sarcófagos e estátuas inspiradas nos cães do Egito Antigo. Acima dos músicos, um Spitfire suspenso sobre o palco antecipava o que aconteceria quando os primeiros acordes de “Aces High” colocassem o espetáculo em movimento.
A partir dali, a sensação foi de atravessar diferentes momentos da história do Iron Maiden sem sair do Araújo Vianna.
“ACES HIGH” E UM SPITFIRE SOBRE O PALCO
“Aces High” dificilmente poderia ter sido uma escolha melhor para abrir uma produção dessa dimensão. O avião suspenso imediatamente remetia às grandes montagens do Iron Maiden, enquanto banda e orquestra começavam a mostrar como aquele repertório seria tratado durante a noite.

O diferencial do Iron Maiden Symphonic estava justamente na presença da Orchestra of the Beast, com cordas, sopros e teclado, regida pelo maestro Douglas Umabel. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento ou enfeite para músicas que originalmente não foram compostas para uma orquestra, os instrumentos acrescentavam novas camadas aos arranjos, sobretudo nas composições mais épicas e progressivas.
Para uma banda como o Iron Maiden, que ao longo das décadas ampliou cada vez mais a complexidade de suas composições, o encontro com uma orquestra acaba revelando elementos que muitas vezes permanecem escondidos entre as guitarras.
RAPHAEL MENDES E A IMPRESSIONANTE SEMELHANÇA COM BRUCE DICKINSON
No centro de tudo estava Raphael Mendes.
É impossível assistir à The Beast Experience sem prestar atenção à semelhança de sua voz com a de Bruce Dickinson. Não se trata apenas de alcançar determinadas notas ou reproduzir alguns trejeitos do vocalista do Maiden. O timbre, os ataques e a maneira como várias frases são conduzidas tornam a proximidade vocal impressionante.

Mas um espetáculo dessa natureza não funcionaria apenas com um vocalista capaz de lembrar Dickinson.
Nas guitarras, Guilherme Spilack, assumindo a função de Dave Murray, Pedro Migliacci, representando Adrian Smith, e Vinicios Barbosa, na posição de Janick Gers, trabalham em um uníssono extremamente eficiente. O trio precisa lidar com uma das características mais reconhecíveis do Maiden moderno: três guitarras dividindo harmonias, bases e solos sem transformar tudo em uma massa indistinguível.

Vinicios ainda leva para sua interpretação parte da movimentação de Janick Gers, incluindo as tradicionais piruetas com a guitarra, acrescentando outro elemento reconhecível para quem acompanha os shows da banda inglesa.
Na cozinha, Danilo Bellintani assume o papel de Steve Harris e suas indispensáveis galopadas, enquanto Eric Clarosentrega uma interpretação precisa da bateria de Nicko McBrain. Em uma produção com tanta coisa acontecendo simultaneamente, é justamente a consistência dos músicos que impede que o cenário se torne mais importante do que as músicas.

O PALCO TAMBÉM CONTA A HISTÓRIA
A produção visual não permaneceu estática. Assim como acontece nas grandes turnês do próprio Iron Maiden, os backdrops eram substituídos conforme o repertório avançava, acompanhando diferentes músicas e fases da banda.
Em “The Number of the Beast”, um demônio vermelho inspirado na criatura da capa do álbum de 1982 ganhou o palco. “The Trooper”, por sua vez, trouxe seu próprio Eddie, vestido com o conhecido uniforme militar.
Foi justamente durante “The Trooper” que Raphael Mendes surgiu empunhando a bandeira do Reino Unido, reproduzindo uma das imagens mais tradicionais dos shows do Maiden. A encenação foi além e, em determinado momento, Raphael atirou no Eddie Trooper que dividia o palco com os músicos.
Havia ainda um Eddie vestido de maestro, referência que ganha outro significado em uma noite na qual o heavy metal realmente dividia espaço com cordas e sopros.
E quando parecia que a produção já havia mostrado praticamente todos os seus recursos, um Eddie múmia inflável gigantesco surgiu atrás da bateria, completando a ligação visual com o universo de Powerslave.
O mais interessante é que esses elementos não foram simplesmente empilhados no palco. As mudanças de backdrop, personagens e cenários acompanhavam o repertório e ajudavam a dividir o espetáculo em diferentes capítulos.
UM SETLIST QUE NÃO FICOU APENAS NO ÓBVIO
Naturalmente, estavam presentes músicas praticamente obrigatórias em qualquer celebração da obra do Iron Maiden, como “The Number of the Beast”, “The Trooper”, “Hallowed Be Thy Name”, “Fear of the Dark” e “Run to the Hills”. Mas o repertório não se limitou aos clássicos mais previsíveis.
“Alexander the Great”, que durante décadas esteve entre as músicas que os próprios fãs mais pediam ao Maiden, apareceu logo no início. “Afraid to Shoot Strangers”, “Blood Brothers” e “Dance of Death” ampliaram o passeio por diferentes fases da discografia.
Mas talvez nenhuma escolha tenha combinado tão bem com a proposta do Iron Maiden Symphonic quanto “Empire of the Clouds”.
Com cerca de 18 minutos e encerrando The Book of Souls (2015), a composição de Bruce Dickinson já nasceu com dimensões quase cinematográficas. Dentro de um espetáculo com uma orquestra no palco, a faixa encontra um ambiente particularmente favorável para mostrar sua grandiosidade.
E é justamente aí que o formato sinfônico deixa de ser apenas uma curiosidade. Algumas músicas do Iron Maiden parecem praticamente pedir esse tipo de tratamento.
BRUNO SUTTER E EDU FALASCHI ENTRAM NA CELEBRAÇÃO
A noite ainda reservou as participações especiais de Bruno Sutter e Edu Falaschi, dois nomes bastante conhecidos pelo público brasileiro de heavy metal.
Bruno entrou em “Wasted Years” e permaneceu também para “Afraid to Shoot Strangers”, levando sua interpretação a duas músicas de momentos bastante diferentes da carreira do Maiden.
Mais adiante foi a vez de Edu Falaschi, que participou de “Wasting Love” e “The Evil That Men Do”.
Depois de “Seventh Son of a Seventh Son”, “Fear of the Dark” preparou o caminho para o encerramento. E foi justamente na última música que os convidados retornaram.
Bruno Sutter e Edu Falaschi se juntaram a Raphael Mendes em “Run to the Hills”, colocando os três vocalistas, banda e Orchestra of the Beast juntos no último momento do espetáculo.
Era uma maneira adequada de terminar uma noite que, desde o começo, apostou mais na celebração do que na simples reprodução.
MAIS DO QUE UM TRIBUTO
Existe um limite delicado para qualquer espetáculo dedicado à obra de outra banda. Quanto maior a preocupação em reproduzir o original, maior o risco de o resultado terminar apenas como uma imitação bem executada.
A The Beast Experience encontra uma maneira interessante de escapar disso.
É evidente que praticamente tudo nasce do universo do Iron Maiden. Os backdrops, Eddie, o Spitfire, os elementos egípcios de Powerslave, a bandeira britânica e até determinadas movimentações dos músicos estão ali para transportar o público para referências construídas pela banda inglesa durante décadas.

Mas a presença da Orchestra of the Beast muda a dimensão da proposta.
O que aconteceu no Araújo Vianna não foi simplesmente a reprodução de uma determinada turnê do Maiden. Diferentes discos, épocas, cenários e versões de Eddie foram reunidos dentro de uma mesma noite e ligados por uma abordagem sinfônica que dá ao espetáculo uma identidade própria.
Para quem já viu o Iron Maiden ao vivo, existe o prazer imediato de reconhecer cada referência espalhada pelo palco. Para quem nunca teve essa oportunidade, o espetáculo oferece uma pequena amostra da grandiosidade que sempre cercou as apresentações da banda.
No fim, talvez seja justamente essa a melhor maneira de entender o que aconteceu no Araújo Vianna. Havia uma banda extremamente competente, uma orquestra, convidados, um Spitfire pendurado sobre nossas cabeças, sarcófagos, demônios, diferentes Eddies, trocas de cenários e uma múmia gigantesca surgindo atrás da bateria.
Tudo exagerado, teatral e grandioso.
Exatamente como deve ser quando se decide celebrar Iron Maiden.
É heavy metal tratado como espetáculo.
SETLIST — THE BEAST EXPERIENCE | IRON MAIDEN SYMPHONIC — PORTO ALEGRE
- Aces High
- Flight of Icarus
- The Number of the Beast
- Alexander the Great
- Wasted Years — com Bruno Sutter
- Afraid to Shoot Strangers — com Bruno Sutter
- Blood Brothers
- Dance of Death
- Empire of the Clouds
- The Trooper
- Hallowed Be Thy Name
- Wasting Love — com Edu Falaschi
- The Evil That Men Do — com Edu Falaschi
- Seventh Son of a Seventh Son
- Fear of the Dark
- Run to the Hills — com Bruno Sutter e Edu Falaschi
Saiba mais sobre The Best Experience: https://thebeastexperience.com/biografia/
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