Especial de 25 anos do álbum reuniu a formação atual do Angra, Edu Falaschi e duas bandas que prepararam o público para uma noite marcada por técnica, peso e memória
Há shows que são importantes pelo repertório. Outros, pelo momento em que acontecem. A noite de 3 de outubro, em São Paulo, conseguiu reunir as duas coisas.

O Angra levou ao palco o especial de 25 anos de Rebirth, álbum que ocupa um lugar central na história da banda e do metal brasileiro. A apresentação ainda ganhou um componente que ampliou o significado da noite: a participação de Edu Falaschi, vocalista da formação que gravou o disco.
Antes de o Angra assumir o palco, Storia e Hibria construíram o caminho para o que viria depois. E não foi apenas uma espera pelo show principal. As duas bandas entregaram apresentações capazes de sustentar a dimensão da noite.
Storia chega com formação renovada
O Storia abriu a noite apresentando seu novo baterista, que assumiu a posição deixada por Thiago Caeiro. A estreia veio acompanhada de uma apresentação segura, mostrando rapidamente que a mudança na formação não alterou a força da banda.

A combinação entre guitarra e baixo funcionou com precisão, enquanto os riffs pesados dialogavam com elementos mais modernos. As guitarras de sete cordas ajudaram a construir essa sonoridade, mantendo o peso característico do heavy metal, mas sem deixar a banda presa a uma fórmula conhecida.
A técnica também apareceu como um dos pontos fortes da apresentação. O conjunto formado por vocal, guitarra, baixo e bateria mostrou domínio do repertório e segurança instrumental.




Entre os destaques, Gabriel Veloso chamou atenção especialmente pelos riffs e solos. O guitarrista vem construindo seu espaço na cena e já acumula experiências importantes, incluindo uma passagem pelo Japão com o Notturnal e participação na turnê Epic Tales, de Fabio Lione.
No palco, essa experiência apareceu menos como currículo e mais como execução. Os solos foram técnicos, melódicos e precisos, contribuindo para que o Storia deixasse sua marca logo no início da noite.
Hibria entrega peso, precisão e presença

Na sequência, foi a vez do Hibria assumir o palco. A banda apresentou um show de uma hora, mesmo enfrentando problemas técnicos que quase provocaram um atraso, e encontrou no palco a resposta para qualquer dificuldade de bastidor.
O som estava muito bem definido. Guitarras, baixo, bateria e vocais ocuparam seus espaços sem comprometer a força da apresentação.
O grande destaque ficou para William Schuck. O baterista combinou técnica, presença e pressão sonora, levando a performance a um nível que chamou atenção até nos momentos mais inesperados. Em determinado momento, chegou a tocar em pé, antes de ainda interagir com o público ao jogar baquetas para a plateia.



Carisma e precisão caminharam juntos.
A apresentação também aconteceu sem Abel Camargo, fundador e guitarrista da banda, que precisou se ausentar por uma questão familiar. Para assumir a posição, o Hibria contou com Renato Osório, ex-guitarrista do grupo, que integrou a formação da noite com segurança.
O resultado foi uma apresentação consistente, pesada e tecnicamente precisa. O Hibria deixou o palco com a sensação de ter conquistado mais do que o espaço reservado a uma banda de abertura. Para quem ainda não conhecia o grupo, havia ali um convite claro para acompanhar o que vem depois.
Quando o Angra entrou, a escala da noite mudou
Então veio o momento pelo qual aquela noite havia sido construída.

O Angra entrou em cena para celebrar os 25 anos de Rebirth. E a apresentação mostrou uma banda completamente consciente do tamanho de sua própria história, mas sem transformar o passado em peça de museu.
A formação atual apareceu entrosada, tecnicamente afiada e com uma presença de palco que sustentou a dimensão do repertório.

Alirio Netto esteve impecável nos vocais. A afinação e o controle vocal foram acompanhados por uma atuação que também explorou o piano em diferentes momentos da apresentação. Um dos pontos mais marcantes aconteceu quando o músico ficou sozinho ao instrumento para um trecho de Bleeding Heart, acompanhado pela plateia.
Foi um daqueles momentos em que o palco diminui e a música ocupa todo o espaço.


Marcelo Barbosa, por sua vez, transformou a técnica em espetáculo. Com sua Ibanez MB10, o guitarrista entregou timbres cristalinos, solos precisos e uma presença de palco que não passou despercebida.
Em determinado momento, chegou a executar um solo com um dos pés sobre o piano, em uma cena que sintetizou a intensidade de sua apresentação. Ao final, ainda girou a guitarra ao redor do corpo, encerrando sua participação com a mesma energia com que havia começado.
Rafael Bittencourt também parecia especialmente conectado ao momento. O guitarrista atravessou a apresentação sorrindo, demonstrando satisfação com a fase atual do Angra. Musicalmente, manteve o equilíbrio entre técnica, timbre e bom gosto que marca sua trajetória.

No baixo, Felipe Andreoli sustentou o peso da apresentação com seu Ibanez FAB1. Além da presença instrumental, chamou atenção pelos backing vocals, assumindo uma participação vocal mais evidente durante o show.

Na bateria, Bruno Valverde manteve a pressão do conjunto sem abrir mão do refinamento técnico. A execução foi precisa e vigorosa, funcionando como uma das bases para que o repertório transitasse entre diferentes momentos da história da banda sem perder força.
Edu Falaschi transforma celebração em reencontro
Mas havia uma presença que carregava um significado diferente naquela noite.
Edu Falaschi.

A participação do vocalista acrescentou ao especial de Rebirth uma camada que ia além da comemoração de um álbum. Ele estava diante de músicas que fazem parte de uma fase fundamental de sua própria trajetória e dividindo novamente o palco com músicos que fizeram parte daquela história.
E a resposta veio na forma de performance.
Edu apresentou três músicas com o Angra e entregou uma atuação vocal que surpreendeu positivamente. Mais do que uma participação especial, sua presença carregou o peso simbólico de um reencontro.
O momento também evidenciou uma aproximação com Rafael Bittencourt e com a própria banda. Sem transformar o passado em centro da narrativa, o que se viu naquela noite foi um encontro celebrado no presente.
E ainda havia uma última música.
Carry On.
Edu Falaschi e Alirio Netto dividiram os vocais no encerramento, colocando duas gerações da história vocal do Angra lado a lado no mesmo palco.
Foi um final que não precisou explicar o significado daquela noite. Bastava olhar para o palco.
Uma noite entre memória e presente
O especial de 25 anos de Rebirth funcionou porque não ficou preso à nostalgia.
Storia e Hibria mostraram a força de uma cena que continua produzindo músicos tecnicamente preparados e novas possibilidades dentro do metal. O Angra apresentou a força de sua formação atual. E Edu Falaschi voltou ao palco para revisitar uma parte fundamental de sua história.
No fim, passado e presente não competiram.
Conversaram.
Quando Carry On encerrou a noite, o que estava diante do público era mais do que a celebração de um álbum lançado há 25 anos. Era a história do metal brasileiro sendo revisitada por quem ajudou a construí-la e, ao mesmo tempo, mantida viva por uma formação que continua levando essa história adiante.
Uma noite à altura do peso que o Angra construiu em sua trajetória. E, principalmente, uma noite em que a memória voltou ao palco sem deixar de pertencer ao presente.
TEXTO: RODRIGO MATHIAS







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