Com a ACAFI, sob a regência da maestra Natália Larangeira, vocalista italiano revisitou clássicos do Rhapsody em PortoAlegre. A noite teve arranjos sinfônicos impecáveis, uma interpretação surpreendente de Donizetti e alguns problemas desonorização.

Há músicas que parecem ter sido compostas para ocupar espaços maiores do que os palcos tradicionais do heavy metal.Quando o Rhapsody lançou Dawn of Victory, em 2000, suas composições já carregavam uma grandiosidade orquestral,referências à música clássica e narrativas sobre batalhas, reinos, espadas e dragões. Na noite de quinta-feira, 8 de outubrode 2026, Fabio Lione levou esse universo ao Teatro do CIEE, em Porto Alegre, apresentando um espetáculo queaproximou o power metal sinfônico da atmosfera de um concerto.
Acompanhado pela ACAFI – Associação Camerata Filarmônica de Indaiatuba, sob a regência da maestra NatáliaLarangeira, o vocalista italiano encontrou uma casa praticamente lotada e um público disposto a embarcar naquela viagem musical. A proposta não era simplesmente reproduzir um show tradicional de heavy metal com instrumentos de orquestra,mas explorar a riqueza dos arranjos e a dimensão dramática de composições que sempre tiveram uma relação muitopróxima com a música erudita e as trilhas sonoras cinematográficas.

O resultado foi uma apresentação de grandes momentos, conduzida por um Fabio Lione particularmente comunicativo e àvontade, embora a sonorização nem sempre tenha acompanhado a qualidade do que estava sendo executado.
DAWN OF VICTORY: QUANDO O METAL ENCONTRA AORQUESTRA
A apresentação começou com “Lux Triumphans”, introdução instrumental que abre Dawn of Victory, preparando oterreno para a entrada da faixa-título. E ouvir “Dawn of Victory” naquele formato foi um dos primeiros grandes momentos da noite.

Considero essa uma das melhores composições do Rhapsody, ao lado de “Emerald Sword”, e os arranjos orquestraisconseguiram ampliar sua dimensão épica sem comprometer a identidade da versão original. A força das melodias, as passagens instrumentais e a interpretação de Fabio ganharam outra dimensão, mostrando como a linguagem sinfônica sempre esteve profundamente ligada à concepção musical da banda.
A primeira parte do espetáculo respeitou a sequência de Dawn of Victory, passando por “Triumph for My Magic Steel”,“The Village of Dwarves”, “Dargor, Shadowlord”, “The Bloody Rage of the Titans” e “Holy Thunderforce”, entre outras composições. Essa escolha permitiu acompanhar o desenvolvimento musical do álbum de uma maneira pouco comum nosshows convencionais, nos quais as músicas normalmente aparecem distribuídas entre diferentes fases da carreira.
A execução da ACAFI, conduzida por Natália Larangeira, foi um dos grandes acertos da apresentação. Os arranjos valorizaram as composições sem descaracterizá-las, permitindo que a riqueza melódica e harmônica do repertório aparecesse com maior clareza. Mais do que acompanhar o vocalista, a formação orquestral teve participação fundamentalna construção da atmosfera do concerto, especialmente nas passagens em que os instrumentos sinfônicos dialogavam comas guitarras.
UM TEATRO DE EXCELENTE ACÚSTICA, MAS UM SOM QUEPODERIA TER SIDO MELHOR
O Teatro do CIEE oferece condições acústicas muito boas para uma apresentação desse formato, e a escolha do espaçofazia sentido diante da proposta de aproximar o heavy metal de um concerto. Entretanto, a sonorização não aproveitou completamente esse potencial.
O volume geral pareceu um pouco abaixo do ideal e, em determinados momentos, as guitarras ficaram pouco audíveis namixagem. Em um repertório que depende tanto da interação entre instrumentos elétricos e arranjos sinfônicos, essa falta de definição acabou prejudicando algumas passagens que poderiam ter alcançado um impacto ainda maior.
Não foi um problema suficiente para comprometer a apresentação, mas merece registro. A qualidade dos arranjos e da sinterpretações deixava evidente que havia muito acontecendo musicalmente, e nem sempre tudo chegava à plateia com aclareza necessária.
Curiosamente, isso pareceu ter pouca importância para boa parte do público. A casa praticamente lotada acompanhou oconcerto com entusiasmo, demonstrando que a oportunidade de ouvir aquele repertório em um formato diferente tinha umpeso muito maior do que eventuais limitações técnicas.
FABIO LIONE FEZ DO TEATRO INTEIRO O SEU PALCO
Se a proposta musical carregava certa solenidade, Fabio Lione tratou de quebrar qualquer distância que pudesse existirentre o artista e a plateia.

O vocalista passou boa parte da apresentação circulando pelo Teatro do CIEE. Subiu às galerias, desceu novamente, caminhou entre os espectadores e cantou em diferentes pontos da casa durante praticamente todas as músicas. Em determinados momentos, era possível perceber que o espetáculo já não acontecia apenas no palco, mas também noscorredores e espaços ocupados pelo público.
Essa movimentação constante ajudou a criar uma atmosfera bastante particular. Enquanto a orquestra executava composições sobre batalhas, criaturas fantásticas e personagens de mundos imaginários, Fabio conversava com as pessoas, sorria e demonstrava uma alegria genuína por estar ali.
Entre as músicas, seu jeito característico de se comunicar também apareceu com frequência. O italiano misturava português, italiano e inglês, às vezes dentro de uma mesma conversa, provocando risadas e estabelecendo uma relação decumplicidade com a plateia.
É interessante observar como essa espontaneidade funciona dentro de um espetáculo musicalmente tão elaborado. Fabio possui uma presença de palco que não depende exclusivamente de grandes movimentos ou de uma postura imponente.Sua comunicação é próxima, descontraída e, muitas vezes, quase informal. Isso não diminui a dimensão do concerto; pelocontrário, torna a experiência mais humana.
QUANDO FABIO LIONE DEIXOU A ORQUESTRA EM SILÊNCIO
Talvez o momento mais impressionante da noite tenha acontecido justamente quando toda aquela estrutura instrumental deixou de ser necessária.

Em determinado ponto da apresentação, Fabio anunciou que faria algo que, segundo ele próprio, ainda não haviarealizado naquela turnê: cantar a cappella. A escolha foi “Una furtiva lagrima”, uma das árias mais conhecidas da óperaL’elisir d’amore, composta pelo italiano Gaetano Donizetti e estreada em 1832.
A identificação da obra foi posteriormente confirmada pelo próprio Fabio Lione, em conversa com o Cogumelo em Cena.
Sem o acompanhamento das guitarras, dos teclados ou da orquestra, sua voz assumiu sozinha a responsabilidade de preencher o teatro. E foi nesse instante que uma característica fundamental de sua formação artística ficou ainda maisevidente.
Não estávamos simplesmente diante de um vocalista de heavy metal demonstrando alcance ou potência, mas de umintérprete capaz de transitar pela linguagem lírica com naturalidade, sensibilidade e domínio técnico.
“Una furtiva lagrima” é uma ária para tenor interpretada pelo personagem Nemorino, que percebe um sinal de amor correspondido. Sua força está na delicadeza da construção melódica e na capacidade de transmitir emoção por meio dainterpretação. Não é uma composição que dependa de grandes efeitos para impressionar, e justamente por isso exige umarelação muito particular entre técnica e sensibilidade.
A escolha também criou um contraste interessante com o restante do repertório. Enquanto as músicas do Rhapsody transportavam o público para universos de fantasia, guerras e conquistas, Donizetti oferecia uma emoção de outra natureza, construída em torno da vulnerabilidade humana.
Foi um momento de arrepiar. Existem excelentes cantores de rock e heavy metal, intérpretes capazes de alcançar notas impressionantes e dominar grandes palcos. Mas há também aqueles que carregam o lirismo e a linguagem sinfônica naprópria maneira de cantar. Fabio pertence a esse segundo grupo, e aquela interpretação deixou isso absolutamente claro.
A orquestra havia dado grandiosidade à noite. Naquele instante, Fabio mostrou que também era capaz de criá-la sozinho.
DE “EMERALD SWORD” A U2, BRUCE DICKINSON EQUEENSRŸCHE
Depois da sequência dedicada a Dawn of Victory, o repertório percorreu outros momentos importantes da trajetória doRhapsody, incluindo “Emerald Sword”, “Wisdom of the Kings”, “Warrior of Ice”, “Lamento Eroico” e “The Wizard’sLast Rhymes”.

“Emerald Sword”, particularmente, foi outro ponto alto. A composição possui uma importância enorme dentro da históriado power metal sinfônico e, assim como “Dawn of Victory”, recebeu uma execução que valorizou sua construção melódica e sua dimensão épica.
Mas o espetáculo não ficou restrito ao universo do Rhapsody.
Na parte final, Fabio apresentou interpretações de três músicas de artistas bastante diferentes: “Miss Sarajevo”, do U2;“Tears of the Dragon”, de Bruce Dickinson; e “Silent Lucidity”, do Queensrÿche.
A escolha dessas composições demonstrou outra faceta do espetáculo. Embora tenham origens e propostas distintas, astrês permitem explorar uma interpretação mais emocional, com espaço para nuances vocais que nem sempre aparecemcom a mesma evidência nas passagens mais aceleradas do power metal.
“Tears of the Dragon”, uma das grandes composições da carreira solo de Bruce Dickinson, encontrou nesse formato uma abordagem coerente com sua natureza dramática. Já “Silent Lucidity”, conhecida pela construção delicada e pelas referências orquestrais presentes na gravação original do Queensrÿche, parece particularmente adequada a umaa presentação desse tipo.
A presença dessas músicas também ajudou a evitar que o concerto se transformasse exclusivamente em uma celebração nostálgica do Rhapsody. Fabio demonstrou que sua relação com a música vai além do repertório que o tornou conhecido mundialmente, explorando diferentes possibilidades interpretativas sem perder a identidade.
UMA ILUMINAÇÃO DE CONCERTO, NÃO DE SHOW DE HEAVYMETAL
Visualmente, a produção seguiu uma direção bastante diferente daquela encontrada nos grandes espetáculos de rock eheavy metal.
Não houve um desenho de iluminação elaborado para acompanhar cada mudança musical, tampouco a construção cênicanormalmente associada a apresentações do gênero. A luz foi mais próxima daquela utilizada em concertos, privilegiando avisibilidade dos músicos e a atmosfera geral da apresentação.
Essa escolha estava alinhada à proposta do espetáculo. O foco não era criar uma narrativa visual sobre dragões, espadas ebatalhas, mas permitir que essas imagens fossem construídas pela própria música.
Ainda assim, considerando a riqueza do repertório e a dimensão épica das composições, um trabalho de iluminação umpouco mais elaborado poderia ter acrescentado novas camadas à experiência, especialmente em momentos de maior intensidade.
Não se tratava de transformar o Teatro do CIEE em uma arena de heavy metal, mas de explorar visualmente algumas das possibilidades oferecidas por músicas que já nasceram com uma forte vocação cinematográfica.
MAIS DO QUE UMA CELEBRAÇÃO DO RHAPSODY
O que ficou da apresentação de Fabio Lione em Porto Alegre foi a sensação de ter assistido a um espetáculo que encontrou sua força justamente na combinação de elementos aparentemente distintos.
De um lado, a grandiosidade dos arranjos executados pela ACAFI, sob a regência da maestra Natália Larangeira, as composições épicas e a complexidade musical que ajudaram a transformar o Rhapsody em uma referência do power metal sinfônico. De outro, um vocalista que não hesitou em abandonar o palco para cantar entre as pessoas, conversar demaneira descontraída e transformar um concerto em uma experiência próxima do público.
Houve problemas de sonorização, especialmente na presença das guitarras, e a iluminação poderia ter explorado melhoras possibilidades dramáticas do repertório. São aspectos que merecem ser observados, mas que não apagam a qualidade musical da apresentação.
Os arranjos orquestrais foram excelentes, a execução de “Dawn of Victory” e “Emerald Sword” correspondeu àimportância dessas composições, e Fabio demonstrou, ao longo da noite, por que continua sendo uma das vozes mais reconhecidas do metal sinfônico.
Mas, entre tantas músicas sobre reinos, batalhas e personagens fantásticos, talvez a lembrança mais forte tenha vindo deuma composição escrita quase dois séculos antes de o heavy metal existir.
Quando Fabio Lione cantou “Una furtiva lagrima”, sozinho, sem o acompanhamento de qualquer instrumento, ficouevidente que a verdadeira grandiosidade daquela noite não dependia de cenários, efeitos ou sequer de uma orquestra.
Estava na voz de um artista que compreende o heavy metal, mas cuja alma musical vai muito além dele.
SETLIST — FABIO LIONE & ORQUESTRA | PORTO ALEGRE —08/10/2026
- Lux Triumphans
- Dawn of Victory
- Triumph for My Magic Steel
- The Village of Dwarves
- Dargor, Shadowlord
- The Bloody Rage of the Titans
- Holy Thunderforce
- Trolls in the Dark / The Last Winged Unicorn
- The Mighty Ride of the Firelord
- Emerald Sword
- Wisdom of the Kings
- The Magic of the Wizard’s Dream
- Warrior of Ice
- Lamento Eroico
- The Wizard’s Last Rhymes
- Miss Sarajevo — U2
- Tears of the Dragon — Bruce Dickinson
- Silent Lucidity — Queensrÿche
- Land of Immortals
Momento especial fora do setlist impresso: “Una furtiva lagrima”, de Gaetano Donizetti, interpretada a cappella.































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