Devotos e Sagrada Escritura do Gueto completam uma noite que coloca o peso da música pesada, a memória da periferia e a força da resistência no centro do palco.

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O peso não está apenas nos amplificadores. Está na história que cada riff carrega, nas vozes que durante décadas foram empurradas para as margens e na urgência de transformar vivência em expressão artística. No próximo sábado, o Circo Voador, na Lapa, recebe o Black Pantera para uma noite que ultrapassa os limites de um show convencional. A banda mineira apresenta ao público carioca Continental, seu quinto álbum de estúdio, em uma celebração que reúne música pesada, ancestralidade, identidade e as contradições de um país que ainda precisa encarar a própria história.

Formado em Uberaba, Minas Gerais, o trio composto por Chaene da Gama, no baixo e vocal, Charles Gama, na guitarra e vocal, e Rodrigo “Pancho”, na bateria, construiu uma trajetória que desafia fronteiras musicais e confronta estruturas sociais. O Black Pantera não utiliza o rock pesado apenas como linguagem sonora. A banda transforma o palco em território de afirmação, enfrentamento e liberdade, fazendo da própria existência um contraponto a um cenário historicamente marcado por desigualdades e pela exclusão de artistas negros dos espaços de maior visibilidade.

A potência do grupo está justamente nessa combinação. A agressividade do hardcore e do metal encontra letras que discutem racismo, identidade, ancestralidade e realidade social. Não existe separação artificial entre a música e aquilo que os integrantes vivem, observam e denunciam. O discurso nasce da experiência, ganha corpo na composição e explode ao vivo.

CONTINENTAL: UM PAÍS INTEIRO DENTRO DO SOM

Lançado em agosto de 2026 pela gravadora Deck, Continental amplia os caminhos sonoros que o Black Pantera vem percorrendo sem abandonar a contundência que sustenta sua identidade. O álbum parte do rock pesado para atravessar diferentes referências da música brasileira, conectando experiências individuais a questões históricas e culturais que atravessam o país.

O próprio título aponta para a dimensão da proposta. Falar de um Brasil continental significa reconhecer que não existe uma única experiência brasileira. Há diferentes territórios, culturas, memórias e conflitos convivendo sob o mesmo nome. O disco explora essa pluralidade e transforma o encontro entre diferentes linguagens em parte fundamental de sua construção artística.

As participações especiais reforçam essa abertura. Sandra Sá, Duquesa, Derrick Green, vocalista do Sepultura, e Chico César estão entre os nomes que integram o trabalho. São artistas de trajetórias distintas, reunidos em um projeto que compreende a música como espaço de diálogo entre gerações, estilos e perspectivas.

Mais do que ampliar a paleta sonora, Continental representa um novo movimento na trajetória do trio. O Black Pantera preserva o impacto de sua identidade musical enquanto expande o alcance de sua narrativa. O resultado é um trabalho que olha para o Brasil sem simplificá-lo, reconhecendo suas raízes, suas contradições e as vozes que ajudam a contar sua história.

UMA TRAJETÓRIA QUE TRANSFORMOU CONFRONTO EM LINGUAGEM

Desde o início, o Black Pantera constrói sua presença a partir de uma postura que não separa música e posicionamento. A banda ocupa espaços importantes da música pesada brasileira e internacional sem diluir a identidade que a trouxe até aqui.

A trajetória inclui passagens por grandes festivais, apresentações ao lado de nomes importantes do metal e reconhecimento institucional. Em 2026, o grupo voltou a conquistar o Prêmio da Música Brasileira na categoria Melhor Artista de Rock, consolidando uma sequência de conquistas que acompanha o crescimento de sua projeção nacional.

Mas a relevância do trio não se resume a premiações, festivais ou números. O que distingue o Black Pantera é a capacidade de levar questões sociais para dentro de uma linguagem musical historicamente associada à contestação, fazendo dessa combinação algo próprio, direto e impossível de ignorar.

Em um país onde o racismo estrutural continua determinando quem recebe oportunidades, visibilidade e reconhecimento, a presença de uma banda como o Black Pantera no centro da música pesada tem um significado que ultrapassa o entretenimento. Não porque o grupo precise representar todas as experiências negras, mas porque sua obra reivindica espaço para narrativas que nunca deveriam ter sido tratadas como periféricas.

DEVOTOS E SAGRADA ESCRITURA DO GUETO: OUTRAS VOZES, A MESMA URGÊNCIA

A programação da noite ganha ainda mais força com a presença de duas bandas que carregam suas próprias histórias de enfrentamento.

Diretamente do Alto José do Pinho, em Recife, a Devotos chega com mais de 35 anos de estrada. Referência do punk rock e do hardcore nacional, o grupo construiu sua identidade a partir da realidade periférica, transformando as experiências de seu território em música, discurso e memória. Sua trajetória demonstra que a periferia não é apenas cenário de uma história contada por outros. É também lugar de criação, pensamento e produção cultural.

A Sagrada Escritura do Gueto completa a programação com uma mistura de rap, hardcore, metal, punk rock e poesia slam. A proposta atravessa diferentes linguagens para construir uma expressão ligada às experiências periféricas e às questões sociais. Sua participação amplia o alcance da noite e reforça a força de uma música que não precisa escolher entre peso, palavra e posicionamento.

A reunião desses artistas não apaga as particularidades de cada trajetória. Pelo contrário. O encontro evidencia diferentes maneiras de transformar experiências coletivas em expressão artística, mantendo a música como instrumento de comunicação, questionamento e ocupação cultural.

Nos intervalos, a DJ Cammy assume a pista, prolongando a atmosfera da noite para além das apresentações.

A LONA VAI TREMER. A HISTÓRIA CONTINUA.

No dia 24 de outubro, não será apenas a oportunidade de ouvir ao vivo as músicas de Continental. Será também um encontro com artistas que compreendem a música pesada como linguagem de identidade, memória e transformação.

No Circo Voador, o peso vem acompanhado de história. E há histórias que não foram feitas para serem contadas em voz baixa.

SERVIÇO

Black Pantera apresenta Continental

Data: sábado, 24 de outubro de 2026
Horário: abertura dos portões às 20h
Local: Circo Voador
Endereço: Rua dos Arcos, s/n, Lapa, Rio de Janeiro, RJ
Atrações: Black Pantera, Devotos e Sagrada Escritura do Gueto
DJ: Cammy

Ingressos: disponíveis pela Eventim.

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