Margem Livre, banda recém-fundada  mais precisamente em 2024  na cidade de Niterói.

O grupo nasceu da união dos guitarristas João Delgado e Gianni Broto, inicialmente acompanhados pelo baterista Gabriel Pato, que deixou a banda no meio do ano, abrindo espaço para a entrada de Breno Dowsley. Fechando a formação, João Vitor assume o baixo. A estreia veio em grande estilo com o single “Advertência”, e agora, quase dez meses depois, o grupo lança seu mais novo EP, “Os órfãos e as viúvas”, pelo selo Psywar Records.

Banda Margem Livre posando em uma rua molhada, com membros usando roupas casuais e expressões sérias, retratando a energia do hardcore melódico.

Trata-se de um trabalho que pede audição cuidadosa e repetida  para que nuances, acordes, melodias e detalhes líricos se revelem por completo. Como um bom EP, é curto: três faixas somando pouco mais de 10 minutos. Mas são 10 minutos intensos, daqueles que permitem imaginar facilmente o público mandando um two-step de cria num show, embalado pelo bom e velho hardcore melódico. A primeira faixa, “Cidade (MAR)”, abre com sirenes e uma ambientação urbana que rompe o silêncio e te transporta para outra paisagem  quase um convite para viver uma nova era. A construção é genial, porque funciona tanto como porta de entrada para o EP quanto como reflexão pessoal sobre mudança:

“Essa música fala sobre meu processo de mudança para uma cidade maior. Morava no interior e fui para uma cidade ‘grande’. É uma letra bem pessoal… tentei colocar os sentimentos que estava sentindo na época.”

João Delgado (Guitarra/Voz)

E aqui abro espaço para falar do poder transformador da música. Talvez por influência das minhas próprias referências, “Cidade (MAR)” me remeteu a uma luta política não que temas como moradia, sobrevivência e dignidade em uma nova cidade deixem de ser políticos (tudo é político!). Mas ao unir o nome “cidade mar” com versos como “conversarmos sobre uma recente tragédia alheia”, “é sempre bom nos atentarmos para o que interessa” e “visitar órfãos e viúvas”, meu imaginário conectou, de imediato, ao slogan pró-Palestina: “Palestina Livre, do Rio ao Mar.”. Nada a ver com a intenção original da música mas essa experiência pessoal abriu meus ouvidos e me fez prestar ainda mais atenção ao que os niteroienses da Margem Livre têm a propor.

A segunda faixa, “MEDO”, avança sobre um território sonoro que mescla um leve pós-punk com um punk hardcore clássico e muito bem executado. Até esse ponto, eu seria incapaz de escolher entre as duas faixas como favorita. A profundidade de “MEDO” está no modo como aborda o receio do julgamento, dos olhares, das recusas e sentimentos universais. Mas, diferente das narrativas de autoajuda ou discursos motivacionais, a música não oferece superação fácil. Ela apenas relata o fato, como uma fotografia emocional. E é justamente isso que a torna tão singular: carrega esperança e fracasso ao mesmo tempo, elementos humanos presentes em qualquer geração e contexto. Um verdadeiro petardo, liricamente experimental é genial.

Agora, imagine uma longa e delicada extensão que parte de uma célula, criada para levar mensagens a locais distantes; revestida por um isolante que acelera esses sinais; e que alimenta sua própria extremidade com o essencial. Esse caminho é o axônio  e dá nome ao fim do EP. Em “Axônio”, o ouvinte é colocado lado a lado com estímulos confusos: alarmes, conversas caóticas, acusações sem origem, e ao mesmo tempo, a valorização do silêncio. Esses contrastes revelam um mundo barulhento, onde muitas vezes não sabemos a origem do que percebemos. Nesse ambiente, o silêncio atento torna-se mais precioso que qualquer fala  é nele que distinguimos o essencial do ruído. Essa relação entre barulho e escuta aproxima-se de um axioma: uma verdade que não precisa gritar para existir. Assim, o EP conduz a uma reflexão surpreendentemente profunda, especialmente considerando sua duração. Confesso que fiquei encantado com a forma como o disco se comunica liricamente com quem está disposto a ir além das guitarras bem executadas e da bateria sincopada que dispara com precisão.

Em “Os órfãos e as viúvas”, ficamos literalmente órfãos do que virá. O EP acaba rápido e deixa o ouvinte ansioso por mais. A Margem Livre agora carrega a responsabilidade  mínima, mas inevitável  de manter o nível altíssimo estabelecido aqui, antes do futuro álbum completo. O que vem pela frente? Que outras surpresas a banda ainda guarda? Só o tempo dirá  e estaremos aqui, prontos para ouvir mais dessa experiência sonora tão impactante que é este EP.

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