Um bate-papo com o Código Penal antes do encontro com a Lords no palco do Ocidente

Algumas bandas começam com um plano. O Código Penal começou no improviso. Ou melhor: começou correndo. Entre um clube invadido, um segurança no encalço e uma camiseta do Public Enemy feita à mão, nasceu um encontro que mudaria o rumo de algumas vidas — e ajudaria a criar uma das formações mais singulares do underground gaúcho.
Quando o papo com a banda começa, a sensação não é de entrevista. Parece mais uma roda de memória aberta, dessas em que cada lembrança puxa outra, cada história revela um pedaço da cidade. A origem do Código Penal volta ao início dos anos 90, quando rap, skate, hardcore e cultura de rua começavam a se cruzar de forma orgânica nas esquinas de Porto Alegre.
Lúcio lembra bem do momento em que tudo começou. Ele havia sido expulso de um clube depois de invadir o lugar com amigos. Na rua, ainda com o relógio pendurado no pescoço e vestindo uma camiseta do Public Enemy que ele mesmo havia feito, acabou encontrando Negão. A abordagem foi direta: “Tu faz rap?” Fazia. Ou estava começando a fazer.
Dias depois foram parar na casa de um amigo na Vila do Cemitério. Um quarto apertado, gente entrando e saindo, um bebê dormindo no berço e dois caras rimando sobre uma batida improvisada. Ali surgiu mais do que uma banda. Ali começou uma visão de mundo. “Foi a primeira vez que eu realmente vi uma realidade diferente da minha”, lembra ele. “A pobreza ali era real. Sem filtro.”
Pouco tempo depois veio a primeira apresentação, numa festa de rap no Clube Cruzeiro, em Novo Hamburgo. Nada de palco estruturado. Nada de glamour. A banda ajudava a carregar caixas de som e, no meio da montagem, cantava algumas músicas. Era assim que funcionava o rap naquela época. O DJ ficava quase escondido, os MCs seguravam o microfone e comandavam a festa. Improviso, provocação, piada, rima. Era rua. E dessa rua o Código Penal começou a crescer.
Aos poucos vieram os instrumentos. Violão, baixo, bateria, lembra Black. Depois guitarras mais pesadas, teclados, experimentações. O rap começou a se misturar com o hardcore, o punk e o metal.
Quando a conversa entra nas influências, alguns nomes aparecem inevitavelmente: Public Enemy, Beastie Boys, Dead Kennedys. Mas uma lembrança específica muda o rumo da conversa: a música “I’m the Man”, do Anthrax. “Quando ouvi aquilo, pensei: dá pra misturar tudo.” Rap, metal, skate, cultura de rua. Sem pedir licença.
A partir dali começou uma verdadeira caça a referências. A banda passou a procurar discos de grupos que misturavam rap com rock, hardcore com groove, punk com batidas. Alguns desses nomes ficaram esquecidos no tempo. Outros viraram cult. Mas todos ajudaram a construir o DNA do Código Penal. Uma fusão crua que nunca tentou soar limpa demais — porque a realidade que a banda descreve também não é.
E é justamente nas letras que essa identidade aparece de forma mais direta. Desde o início, o Código Penal sempre falou sobre conflito urbano, desigualdade, violência social e sobrevivência nas margens da cidade. Décadas depois, o discurso continua atual. “Os problemas continuam aí”, diz a banda. “Mudam as formas, mas a estrutura permanece.” A música, para eles, sempre foi ferramenta de enfrentamento. Nunca entretenimento vazio.
O papo avança e inevitavelmente chega ao presente. No dia 12 de abril, o Código Penal sobe ao palco do Ocidente, um dos espaços mais históricos da música alternativa de Porto Alegre, dividindo a noite com a Lords. Para quem viveu a cena dos anos 90, o encontro tem um peso simbólico forte. Quando o Código Penal estava começando, a Lords já fazia história na cidade. As trajetórias passaram perto, mas raramente se cruzaram no palco. Agora, finalmente, esse encontro acontece. “Vai ser um revival pesado dos anos 90”, comenta a banda.
E não apenas pela reunião das duas formações. A noite também marca o lançamento de um novo trabalho: um compacto em vinil 7 polegadas. Em pleno 2026. Em plena era do streaming. Para o Código Penal, isso não é nostalgia. É posicionamento. “Vinil é memória. É história. É físico” diz Lúcio.
O processo de escolher as músicas foi quase uma engenharia sonora. O tempo limitado do vinil obrigou cortes e ajustes, mas o resultado final traz faixas que representam diferentes fases da banda, incluindo Bomba H, que aponta para a formação atual.
Mas se existe um lugar onde o Código Penal realmente ganha forma completa, é no palco. Quando pergunto como definem um show da banda, a resposta vem rápida: “Imersão.” A palavra faz sentido. Desde os primeiros dias no rap de rua, a relação com o público sempre foi direta. Microfone na mão, olho no olho, energia trocada sem filtro. “A gente conversa com quem está ali. Não existe parede entre banda e público.”
É esse tipo de experiência que mantém o Código Penal vivo depois de tantos anos. Durante um período, a banda ficou parada. Muita coisa ficou guardada. Músicas, ideias, histórias. Retomar o projeto foi também uma forma de fechar ciclos — ou talvez abrir outros. “Eu não gosto de deixar nada pela metade”, diz Lúcio.
E enquanto a conversa termina, fica claro que o Código Penal nunca foi apenas uma banda. É uma história construída na mistura. Rap com hardcore. Rua com palco. Vinil com presente.
E como toda história que nasce na margem, ela continua avançando. Com barulho. Com confronto. E com a mesma urgência de quando tudo começou — num quarto apertado, com um bebê no berço e duas vozes tentando transformar realidade em música.








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