Festival reúne música, skate, teatro, dança, oficinas, exposições e debates em duas semanas dedicadas à formação cultural e à cena independente.

Existem festivais que reúnem bandas. Outros escolhem reunir pessoas, ideias e diferentes formas de expressão artística. É nesse segundo caminho que o Sem Massagem Fest constrói sua identidade. Entre os dias 12 e 26 de julho, Patos de Minas recebe o Sem Massagem II, Festival e Semana da Cultura Underground, promovido pelo Coletivo Cultural Zagaia, com uma programação que ocupa diferentes espaços da cidade e reúne artistas, produtores, músicos, skatistas, dançarinos, escritores e agentes culturais em torno de um mesmo propósito: fortalecer a cultura underground como espaço de expressão, formação e resistência.
Sob o lema “A cultura não pede licença”, o evento amplia o conceito tradicional de festival ao combinar apresentações musicais com atividades formativas, exposições, oficinas, mesas de debate, ações de acessibilidade e manifestações da cultura urbana. A proposta é fazer do underground não apenas um espetáculo para ser assistido, mas uma experiência coletiva capaz de gerar conhecimento, reflexão e pertencimento.
O UNDERGROUND COMEÇA PELAS RUAS
Antes mesmo das guitarras tomarem conta dos palcos, o Sem Massagem II abre sua programação ocupando um dos espaços mais simbólicos da cultura urbana.

No dia 12 de julho, a Pista de Skate do Projeto Saci recebe o 1º Skate Camp Sem Massagem, realizado em parceria com a Batalha Duks City. A iniciativa aproxima o skate da música e da arte urbana, reforçando que o underground também se manifesta através do esporte, da convivência e da ocupação dos espaços públicos.
A competição será disputada nas categorias Mirim, iniciante e Amador, distribuindo R$ 3.500,00 em premiação. As baterias começam às 9h para a categoria Mirim, seguem às 10h para os iniciantes e encerram às 14h com os competidores da categoria Amador.
Mais do que uma competição, o Skate Camp simboliza o ponto de partida de um festival que busca integrar diferentes expressões culturais sob uma mesma identidade.
FORMAÇÃO CULTURAL COMO FERRAMENTA DE RESISTÊNCIA
Mais do que oferecer entretenimento, o Sem Massagem aposta na formação cultural como uma das bases do festival. Ao longo de quase duas semanas, artistas, pesquisadores e produtores compartilham experiências que dialogam com identidade, produção independente, acessibilidade e diversidade de linguagens.
A programação formativa começa no dia 13 de julho com a abertura da exposição “Um Olhar para o Roufenho II Ato”, acompanhada de uma apresentação especial de Paulo Henrique Fernandes interpretando clássicos do heavy metal ao teclado. O evento também contará com visitação mediada e audiodescrição, reforçando o compromisso do festival com a acessibilidade.
No dia 14 de julho, Olivia Castro conduz a oficina “Escrita Blackout, Arte Visual Poética como Forma de Expressão”, propondo uma abordagem criativa que une literatura e artes visuais.
A reflexão continua no dia 16 de julho com a mesa redonda “Mulheres, Motociclismo e Rock: Libertação ou Segregação?”, reunindo Carla Rosa e Jaine Vieira para discutir representatividade feminina, pertencimento e os desafios enfrentados pelas mulheres dentro da cultura motociclista e do rock.
Já no dia 17 de julho, Beth, Fê, Carol e Nat comandam uma oficina de customização voltada para a moda underground, abordando a construção da identidade através das roupas, da estética e do faça você mesmo, um dos pilares da cultura alternativa.
O sábado, 18 de julho, amplia o debate com a mesa redonda “O Underground: uma arte de minorias e suas conexões com a cultura brasileira”, reunindo André Silva, Guilherme Braga e Adriano Necrohammer, além de uma mostra de discos de vinil, celebrando a memória e a preservação da cultura musical independente.
A programação retorna no dia 21 de julho com a oficina “Produção Cultural e a Arte Extrema”, ministrada por Renata Estevam e Alexandre Donato, trazendo discussões sobre organização de eventos, gestão cultural e os desafios da produção artística voltada às manifestações extremas.
No dia 23 de julho, Allane Stefany e Zoe apresentam a oficina “Make Up e Identidade: A maquiagem como expressão das subculturas”, explorando como a estética também se torna linguagem e forma de resistência dentro do underground.
Encerrando a programação formativa, no dia 25 de julho acontece a oficina “Poéticas do Absurdo”, conduzida por Mikael de Melo e Arlley Sousa, voltada para artistas interessados em discutir a relação entre performance, criação artística e a construção de sentido em um mundo marcado por incertezas.
Toda essa programação funciona como preparação para os dias dedicados aos shows, reunindo bandas que representam diferentes vertentes da música pesada e da cena independente, consolidando o Sem Massagem Fest como um dos projetos mais abrangentes de valorização da cultura underground na região.
ESSA DIVERSIDADE ARTÍSTICA TAMBÉM SE ESTENDE ÀS ARTES CÊNICAS, QUE PASSAM A INTEGRAR OFICIALMENTE A PROGRAMAÇÃO DO FESTIVAL.


No dia 24 de julho, a Praça CEU recebe uma mostra de teatro dramático que amplia ainda mais o diálogo entre as diferentes linguagens presentes no festival.
Às 18h, acontece a apresentação de “O Crepúsculo Vitruviano”, primeira mostra de monólogos curtos dirigida por Mikael de Melo. O espetáculo propõe uma experiência intimista, explorando diferentes narrativas e emoções através de interpretações individuais que dialogam com temas humanos e contemporâneos.
Na sequência, às 20h, o público acompanha “Ato Final”, espetáculo dirigido por Sérgio Gabriel, com roteiro de Gabriel Morais e produção da ComoreHuica Produções. A montagem reforça a proposta do festival de abrir espaço para produções autorais e valorizar o teatro como uma manifestação artística capaz de provocar reflexão, emoção e debate social.
A presença de duas montagens teatrais dentro da programação evidencia que o Sem Massagem II compreende a cultura underground como um território amplo, onde música, literatura, performance e artes cênicas coexistem e dialogam entre si.
Depois de dias dedicados ao diálogo e à formação cultural, chega o momento em que toda essa construção encontra seu ponto de convergência nos palcos.
QUANDO OS PALCOS ENTRAM EM CENA

Se a formação cultural é um dos pilares do festival, os dias 25 e 26 de julho concentram a programação musical, reunindo artistas que representam diferentes gerações, estilos e formas de compreender o underground. O palco principal reúne nomes históricos da cena nacional ao lado de representantes da nova geração e da produção autoral de Patos de Minas, construindo um line up que dialoga diretamente com a proposta do festival.
Entre os destaques está o aguardado retorno da Macakongs 2099 a Patos de Minas após dezenove anos. Formada por veteranos do hardcore brasileiro, a banda construiu sua trajetória unindo riffs pesados, crítica social e uma postura combativa que a tornou referência nacional.
Outro grande nome confirmado é o D.F.C., um dos grupos mais importantes da história do hardcore brasileiro. Com mais de três décadas de carreira, a banda de Brasília chega ao festival carregando sua mistura característica de velocidade, irreverência, humor ácido e crítica social, mantendo intacta a energia que influenciou gerações.
Representando a força do metal produzido em Patos de Minas, a Zagaia Thrash sobe ao palco levando seu thrash metal autoral, marcado por riffs agressivos, letras intensas e forte identidade regional, consolidando o trabalho desenvolvido nos últimos anos dentro da cena mineira.
Também da cidade, a Pato Junkie leva ao festival mais de quinze anos de resistência através de um Punk Rock e Hardcore que transforma indignação em música. Suas letras abordam temas como desigualdade, fascismo, consumismo e diversas formas de opressão, reafirmando o papel histórico do punk como ferramenta de contestação.
Fechando a programação de sábado, a Misonthos representa uma nova fase do metal extremo local. Com influências do Death Metal Progressivo e destaque para sua presença vocal feminina, a banda aposta em composições técnicas, brutais e carregadas de profundidade filosófica.
UM DOMINGO QUE AMPLIA OS HORIZONTES DO UNDERGROUND
A programação do domingo evidencia ainda mais o caráter plural do Sem Massagem.
A Agnata Fides leva ao palco sua fusão entre Black Metal e Ambient, criando apresentações marcadas por atmosferas densas, elementos ritualísticos e forte identidade artística.
Mostrando que resistência também se constrói através da palavra, o coletivo Quem Menos Corre Voa apresenta um espetáculo que une rap, slam, poesia e música urbana, transformando o palco em um espaço de reflexão, identidade e liberdade de expressão.
Após um longo período afastada dos palcos, a banda Fôlego retorna trazendo novamente seu Hardcore carregado de intensidade e mensagens voltadas para esperança, transformação social e resistência do underground do interior mineiro.
A programação também abre espaço para outras linguagens artísticas. A Giro Dance Crew, formada por vinte e dois bailarinos, apresenta performances de dança urbana que unem movimento, emoção e narrativa, reforçando que o underground ultrapassa as fronteiras da música.
A diversidade continua com o coletivo Canardi, projeto dedicado à música eletrônica independente e à valorização da vivência queer. Atuando também como plataforma de incentivo a artistas iniciantes, o grupo amplia ainda mais o diálogo entre diferentes expressões da cultura alternativa.
O line up reflete exatamente a proposta do festival. Hardcore, punk, thrash metal, death metal progressivo, black metal atmosférico, rap, slam, música eletrônica e dança urbana dividem o mesmo espaço, demonstrando que o underground contemporâneo é formado por diferentes linguagens que dialogam entre si.
MUITO ALÉM DE UM FESTIVAL

Em tempos em que a cultura independente enfrenta desafios constantes para ocupar espaços, iniciativas como o Sem Massagem reafirmam a importância da produção coletiva, da formação de público e da valorização da arte feita de forma independente. Mais do que um festival, o projeto demonstra que o underground permanece vivo porque continua sendo construído por pessoas que transformam resistência em criação.







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