Em seu novo trabalho, banda gaúcha mergulha em questões sobre tempo, finitude, liberdade e propósito enquanto celebra três décadas de uma trajetória que levou o metal brasileiro a diferentes partes do mundo.

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Quanto tempo realmente temos?

Talvez essa seja uma pergunta impossível de responder. Mas existe outra, ainda mais incômoda: o que estamos fazendo com o tempo que temos?

É a partir dessa inquietação que o HIBRIA constrói “On the Shortness of Life”, novo álbum que chega às plataformas digitais neste 8 de agosto de 2026.

Inspirado em Sobre a Brevidade da Vida, obra de Sêneca, o disco utiliza uma reflexão escrita há quase dois mil anos para discutir questões absolutamente contemporâneas: a pressa, as distrações, a sensação de viver no automático e o risco de perceber tarde demais que passamos boa parte da existência distantes daquilo que realmente gostaríamos de ser.

Produzido por Renato OsorioOn the Shortness of Life apresenta oito faixas e marca um novo momento de uma banda que completa 30 anos de história sem demonstrar qualquer interesse em simplesmente viver do próprio passado.

Sêneca encontra o heavy metal

A escolha de Sêneca como ponto de partida não funciona apenas como referência intelectual ou elemento estético.

Ela estrutura o conceito do álbum.

Uma das ideias centrais de Sobre a Brevidade da Vida é que nossa existência não seria necessariamente curta. O problema estaria na maneira como desperdiçamos aquilo que recebemos, ocupando nosso tempo com distrações, ambições, medos e preocupações que nos afastam do presente.

O HIBRIA transporta essa discussão para 2026.

Em uma sociedade permanentemente conectada, acelerada e soterrada por estímulos, a pergunta feita pelo filósofo romano ganha uma dimensão curiosamente atual.

O disco não pretende oferecer respostas prontas. Em vez disso, coloca o ouvinte diante de conflitos relacionados à consciência, resistência, mortalidade, autonomia e responsabilidade pelas próprias escolhas.

E é justamente aí que o conceito filosófico encontra o heavy metal.

Oito músicas, uma jornada

On the Shortness of Life foi construído como um percurso.

A abertura com “Undying” parte da recusa em aceitar uma vida conduzida passivamente ou determinada pelas expectativas dos outros.

Em “Fire Away”, esse movimento passa pelo enfrentamento dos próprios demônios, enquanto “Pulse” desloca o olhar para fora e confronta uma sociedade dominada pela velocidade, pelo excesso de informação e pela repetição.

A resistência ganha outra dimensão em “Persist”. Aqui, continuar não significa simplesmente suportar adversidades, mas manter consciência e direção mesmo quando seria mais fácil abandonar o caminho.

“Melting Alive” aborda a sensação de desaparecer dentro da multidão, enquanto “Against the Wall” leva esse personagem conceitual ao limite, colocando-o diante de uma situação em que já não existem distrações capazes de esconder suas próprias escolhas.

Depois do confronto surge “Animus”, quando vontade, espírito e direção começam a reorganizar essa existência.

Até que chegamos ao ponto central de toda a obra.

“On the Shortness of Life”

A faixa que encerra e dá nome ao álbum é também sua composição conceitualmente mais ambiciosa.

Ela foi dividida em cinco capítulos:

Adiaphora

Prohairesis

Apatheia

Ataraxia

Eudaimonia

Termos relacionados às tradições filosóficas que cercam o estoicismo e que ajudam a conduzir a conclusão proposta pelo álbum.

Depois de percorrer conflitos internos, pressão social, resistência e busca por autonomia, o HIBRIA retorna à questão apresentada no início: não controlamos quanto tempo teremos, mas podemos decidir como utilizaremos o tempo disponível.

Nesse sentido, a faixa-título não encerra apenas o disco. Ela fecha uma narrativa.

Um HIBRIA diferente sem deixar de ser HIBRIA

Musicalmente, o álbum preserva elementos que acompanharam a banda durante sua trajetória: guitarras técnicas, peso, velocidade e melodias características do heavy metal.

Mas existe uma diferença importante.

Três décadas depois de sua formação, o HIBRIA não parece interessado em tentar recriar o passado.

A formação atual — Angelo Parisotto nos vocais, Abel Camargo e Velles nas guitarras, Benhur Lima no baixo e William Schuck na bateria — apresenta uma banda que carrega sua história, mas procura estabelecer uma identidade para o presente.

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É uma posição interessante para um grupo inevitavelmente associado a um álbum que se tornou referência do metal brasileiro.

A sombra de “Defying the Rules”

Para compreender o tamanho desse desafio é impossível ignorar “Defying the Rules”.

Lançado em 2004, o álbum projetou o nome do HIBRIA internacionalmente e permanece como um dos trabalhos mais reconhecidos de sua discografia.

Mas transformar um grande disco em prisão criativa talvez seja uma das armadilhas mais perigosas para qualquer banda longeva.

On the Shortness of Life surge justamente em um momento no qual o grupo completa 30 anos de atividade e poderia facilmente concentrar seus esforços apenas na celebração da própria história.

A escolha foi outra.

Existe um novo disco, um novo conceito e uma nova turnê.

O passado continua ali, mas não parece ser o destino.

De Porto Alegre para o mundo

A trajetória iniciada em 22 de março de 1996, em Porto Alegre, levou o HIBRIA muito além das fronteiras brasileiras.

A banda realizou sete turnês pelo Japão e passou por países como China, Coreia do Sul, Taiwan, Canadá, Alemanha, Bélgica, Holanda, República Tcheca e Polônia, além de preparar agora sua oitava passagem pelo território japonês.

No Brasil, esteve em palcos de eventos como Rock in Rio, Porão do Rock, Abril Pro Rock e Best of Blues.

Também dividiu noites com alguns dos maiores nomes da história do metal, abrindo apresentações de Metallica, Megadeth, Black Sabbath e Ozzy Osbourne.

Poucas bandas brasileiras conseguiram construir uma presença internacional dessa dimensão mantendo sua história ativa durante três décadas.

O próximo capítulo começa na estrada

O lançamento de On the Shortness of Life será acompanhado por uma nova sequência de apresentações.

A primeira parada anunciada acontece justamente em casa.

No dia 20 de setembro, o HIBRIA sobe ao palco do Opinião, em Porto Alegre.

Depois, em 3 de outubro, segue para São Paulo, onde se apresenta no Tokio Marine Hall, ao lado de Angra e Storia.

Em 25 de outubro, a banda atravessa novamente o planeta para participar do Full Metal Japan, em Tóquio.

A sequência anunciada termina, por enquanto, em 5 de novembro, no Centro de Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó.

Trinta anos depois, ainda existe tempo

Existe algo particularmente apropriado em uma banda completar três décadas discutindo justamente a brevidade da vida.

Em 1996, cinco músicos começavam uma história em Porto Alegre sem qualquer garantia sobre onde aquela escolha poderia levá-los.

Trinta anos depois, o nome HIBRIA já passou por palcos de diferentes continentes, enfrentou mudanças, atravessou gerações e permanece produzindo música nova.

Talvez por isso On the Shortness of Life faça sentido neste momento da trajetória do grupo.

Não como uma reflexão melancólica sobre o tempo que passou, mas como uma provocação sobre aquele que ainda existe.

Porque, no fim, a questão levantada pelo HIBRIA não é exatamente quanto tempo temos.

É o que escolhemos fazer com ele.


“On the Shortness of Life” — Tracklist

  1. Undying 
  2. Fire Away 
  3. Pulse 
  4. Persist 
  5. Melting Alive 
  6. Against the Wall 
  7. Animus 
  8. On the Shortness of Life

HIBRIA: Angelo Parisotto — vocal | Abel Camargo — guitarra | Velles — guitarra | Benhur Lima — baixo | William Schuck — bateria.

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