Com o clássico de 1986 executado na íntegra, palco mergulhado na estética futurista do álbum, diferentes encarnações de Eddie e participação especial de Frank Solari, apresentação do dia 7 de agosto foi uma noite obrigatória para quem carrega o Iron Maiden muito além dos grandes sucessos.

quiles Priester e Children of the Beast celebram 40 anos de Somewhere in Time no Opinião em Porto Alegre

Existem shows tributo que vivem essencialmente da nostalgia e existem aqueles que encontram uma razão específica para revisitar determinada obra. Na noite de 7 de agosto, no Opinião, em Porto Alegre, Aquiles Priester e Children of the Beast tinham uma excelente razão: comemorar os 40 anos de Somewhere in Time.

Lançado pelo Iron Maiden em 1986, o sexto álbum de estúdio da banda foi escolhido como protagonista de uma apresentação que não se limitou a colocar suas oito músicas no repertório. Cenografia, personagens e identidade visual foram pensados para transportar o público ao universo futurista de um dos trabalhos mais particulares da carreira da Donzela de Ferro.

A casa estava longe de lotada. Aproximadamente metade do piso inferior do Opinião estava ocupada, público abaixo daquele que um espetáculo dessa natureza merecia encontrar. Ainda assim, bastaram os primeiros minutos para perceber que quantidade e intensidade nem sempre caminham juntas.

Quem estava ali sabia exatamente o que tinha ido buscar.

O Opinião entra no universo de “Somewhere in Time”

Antes mesmo da primeira nota, o palco já entregava o conceito da noite.

Ao fundo, um grande backdrop inspirado na capa de Somewhere in Time dominava o cenário. Nas laterais, à frente dos amplificadores, outro detalhe reforçava a identidade criada especialmente para a apresentação: uma fusão entre o Eddie ciborgue e a máscara de polvo, símbolo de Aquiles Priester.

Era uma maneira inteligente de aproximar dois universos. De um lado, a iconografia futurista criada para o Iron Maiden em 1986; do outro, a identidade do baterista que, quatro décadas depois, conduzia aquela celebração.

No palco, Sérgio Faga nos vocais, Arthur Hasan e Júlio Machia nas guitarras, Binho Harris no baixo e Aquiles Priester na bateria tinham pela frente uma tarefa que exigia muito mais do que reproduzir os grandes sucessos da banda.

Depois da introdução, “Aces High” abriu os trabalhos, seguida por “The Evil That Men Do”“Killers” e “Children of the Damned”. Era uma passagem por diferentes momentos da história do Maiden antes de a noite chegar ao seu verdadeiro destino.

Então vieram os primeiros acordes de “Caught Somewhere in Time”.

E o Opinião entrou definitivamente em 1986.

Um disco inteiro, sem atalhos

Somewhere in Time representou uma transformação importante na sonoridade do Iron Maiden. As guitarras sintetizadas acrescentaram novas texturas ao som da banda e ajudaram a construir uma atmosfera futurista que encontrou sua representação perfeita na arte criada por Derek Riggs.

Quarenta anos depois, a proposta no Opinião era percorrer o disco como ele havia sido concebido.

Depois de “Caught Somewhere in Time”, vieram “Wasted Years”“Sea of Madness”“Heaven Can Wait”“The Loneliness of the Long Distance Runner”“Stranger in a Strange Land”“Déjà-Vu” e, finalmente, “Alexander the Great”.

É justamente aí que a apresentação se diferencia de um show convencional dedicado ao Iron Maiden.

Todo mundo espera ouvir “Wasted Years”. “Heaven Can Wait” e “Stranger in a Strange Land” também são conhecidas por boa parte do público. Mas encontrar no mesmo espetáculo “Sea of Madness”, “The Loneliness of the Long Distance Runner” e “Déjà-Vu” proporciona outra experiência para quem conhece aquele álbum de ponta a ponta.

Não eram raridades escolhidas aleatoriamente para agradar aos fãs mais dedicados.

Naquela noite, Somewhere in Time precisava ser ouvido como álbum.

Do começo ao fim.

Eddie sai das capas e entra no palco

A homenagem não ficou restrita à música.

Durante “Heaven Can Wait”, surgiu no palco um Eddie pistoleiro ciborgue, inspirado na representação do personagem na capa do single “Stranger in a Strange Land”.

A escolha fazia todo sentido dentro daquela produção. O universo futurista que já dominava a cenografia agora ganhava vida diante do público, reforçando que a proposta não era simplesmente executar oito músicas lançadas em 1986, mas recuperar parte da iconografia que transformou Somewhere in Time em uma experiência que sempre foi também visual.

Mais tarde, durante “The Trooper”, Eddie retornaria em sua caracterização clássica associada à música.

Para uma banda cuja identidade sempre esteve profundamente ligada às capas, personagens, cenários e às inúmeras encarnações de seu mascote, incorporar esses elementos ajudou a aproximar ainda mais o espetáculo da linguagem construída pelo Iron Maiden ao longo das décadas.

“Alexander the Great”: e o público veio abaixo

Desde o início havia uma música especialmente aguardada.

“Alexander the Great”.

Durante décadas, ela ocupou uma posição quase inacreditável dentro da história do Iron Maiden. Lançada em 1986 e transformada em favorita dos fãs, permaneceu sem ser executada ao vivo pela própria banda por mais de 35 anos, até finalmente estrear nos palcos durante a The Future Past Tour, em 2023.

Essa longa espera transformou a música em algo diferente dentro da relação entre Maiden e público.

E isso ficou evidente no Opinião.

Quando finalmente chegaram os primeiros acordes de “Alexander the Great”, a reação foi imediata.

Foi quando o público veio abaixo.

Naquele instante pouco importava que aproximadamente metade do piso inferior estivesse ocupada. A resposta de quem estava presente parecia multiplicar o tamanho da plateia.

Depois de “Caught Somewhere in Time”, “Wasted Years”, “Sea of Madness”, “Heaven Can Wait”, “The Loneliness of the Long Distance Runner”, “Stranger in a Strange Land” e “Déjà-Vu”, chegar a “Alexander the Great” significava alcançar o destino de toda aquela viagem.

Era a música mais esperada da noite.

E recebeu exatamente a reação que sua história merecia.

Para este editor, entretanto, chegar até ali carregava um significado ainda mais pessoal.

Nota do Editor — As navalhas de “Somewhere in Time”

Existem discos que gostamos. Existem aqueles que consideramos clássicos. E existem alguns poucos que acabam dividindo nossa vida entre aquilo que existia antes e tudo que veio depois.

Somewhere in Time é um desses discos para mim.

Em 1988 eu tinha 12 anos quando encontrei aquele álbum no setor de discos de vinil do Zaffari Higienópolis, em Porto Alegre, lugar que já apareceu em outra coluna do Cogumelo quando falei sobre minhas primeiras descobertas musicais.

Lembro da capa.

Na verdade, é impossível não lembrar daquela capa.

A quantidade absurda de detalhes criada por Derek Riggs fazia com que segurar aquele LP fosse quase tão fascinante quanto escutá-lo. Para aquele garoto de 12 anos, era simplesmente a capa de disco mais perfeita que eu já tinha visto.

Então coloquei os fones de ouvido.

E alguma coisa mudou na minha percepção de música.

As guitarras sintetizadas de Somewhere in Time não soavam como as guitarras que eu conhecia até então. Existia nelas uma textura futurista, metálica e agressiva que meus ouvidos ainda não sabiam exatamente como interpretar.

A imagem que encontrei para explicar aquela sensação permaneceu comigo durante todos esses anos:

pareciam navalhas cortando o ar.

Não estou falando simplesmente de distorção ou volume. Era o timbre, a maneira como aquelas guitarras atravessavam as músicas e se misturavam à produção do álbum, criando uma sonoridade que aquele garoto de 12 anos nunca havia escutado.

Depois vieram muitos discos, muitos shows e muitas bandas tocando Iron Maiden.

Ao longo dos anos assisti a diferentes covers e tributos dedicados à Donzela. Alguns excelentes, outros tecnicamente impecáveis. Mas havia uma coisa que eu nunca tinha escutado novamente.

Nenhuma — e ressalto, NENHUMA — havia conseguido reproduzir para mim aquele timbre cortante das guitarras de Somewhere in Time.

Até aquela noite.

Quando os primeiros acordes de “Caught Somewhere in Time” saíram das caixas do Opinião, durante alguns segundos eu não estava mais fotografando um show ou organizando mentalmente aquilo que depois escreveria nesta review.

Também não estava mais em 2026.

Eu estava novamente em 1988.

Tinha 12 anos, segurava aquela capa gigantesca nas mãos e estava de fones de ouvido no setor de discos do Zaffari Higienópolis, tentando compreender o que acabava de descobrir.

E lá estavam elas novamente.

As navalhas.

As guitarras sintetizadas cortando o ar exatamente como eu lembrava.

Alguém poderia discutir tecnicamente se o timbre daquela noite era absolutamente idêntico ao registrado no álbum. Para mim, isso pouco importa. Memória afetiva não funciona com analisador de espectro.

Naquele instante, era.

Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis que um espetáculo dedicado a um disco clássico pode alcançar. Não basta tocar corretamente as músicas ou reproduzir seus arranjos. É preciso encontrar dentro delas alguma coisa capaz de devolver ao público uma sensação que permaneceu guardada durante décadas.

Naquela noite, Aquiles Priester e Children of the Beast fizeram isso comigo.

Por alguns minutos, eu voltei a ter 12 anos.

Ainda havia muito Iron Maiden pela frente

Depois de “Alexander the Great” encerrar a execução integral de Somewhere in Time, o espetáculo retomou outros capítulos da discografia.

“Revelations” trouxe novamente Piece of Mind, enquanto “Infinite Dreams” levou a noite até Seventh Son of a Seventh Son. Na sequência, “The Trooper” trouxe Eddie novamente ao palco, agora dentro da iconografia clássica associada à música, antes de “Hallowed Be Thy Name” preparar a reta final.

Foi em “Fear of the Dark” que a apresentação ganhou um convidado especial.

O músico gaúcho Frank Solari subiu ao palco para se juntar a Aquiles Priester e ao Children of the Beast e permaneceu com a banda até o encerramento da noite.

A escolha não poderia encontrar momento mais apropriado. “Fear of the Dark” possui uma característica que poucas músicas conseguem manter depois de tantas décadas: basta sua introdução começar para que o público deixe de ser apenas espectador.

A melodia passa para a plateia.

Não importa se existem milhares de pessoas em uma arena ou algumas centenas dentro de uma casa de shows. Aquele coro inevitavelmente aparece.

Com Frank Solari ainda no palco“Iron Maiden” colocou o ponto final na apresentação.

Aquiles Priester diante de uma de suas referências

Existe, naturalmente, outro componente importante nessa história.

Ver Aquiles Priester interpretando esse repertório possui um significado particular para quem acompanha sua trajetória e conhece a influência que o Iron Maiden exerceu sobre sua formação musical.

Aquiles possui uma identidade técnica extremamente própria e poderia facilmente transformar cada composição em uma demonstração de virtuosismo. O mérito está justamente no equilíbrio entre colocar sua personalidade nas músicas e preservar aquilo que as tornou reconhecíveis.

O mesmo vale para o Children of the Beast.

Interpretar Iron Maiden exige mais do que tocar corretamente notas e solos. Existe uma dinâmica específica entre baixo, guitarras, bateria e vocal, além da responsabilidade inevitável de lidar com músicas que parte do público conhece em seus mínimos detalhes.

Naquela noite havia ainda um desafio adicional: não se esconder atrás de uma coletânea de sucessos testados milhares de vezes, mas mergulhar profundamente em um álbum inteiro.

E existe um ponto que, para mim, merece ser destacado novamente.

O timbre das guitarras.

Já havia assistido a outras bandas cover e tributo do Iron Maiden. Nenhuma havia conseguido me devolver aquela característica tão particular das guitarras de Somewhere in Time. Arthur Hasan e Júlio Machia conseguiram aproximar aquela sonoridade do que minha memória guardava havia quase quatro décadas.

Para quem passou 38 anos procurando novamente por aquelas navalhas, isso fez toda a diferença.

Uma noite que merecia uma casa mais cheia

É impossível escrever sobre a apresentação sem registrar que o Opinião poderia estar mais cheio.

Poderia e, principalmente, merecia.

Aproximadamente metade do piso inferior estava ocupada, deixando espaços visíveis em uma noite cuja proposta certamente justificava uma plateia maior.

Mas seria igualmente injusto utilizar esse número como medida daquilo que aconteceu no palco.

Quem decidiu estar ali encontrou um espetáculo concebido para conversar diretamente com o fã de Iron Maiden: cenário temático, diferentes representações de Eddie, músicos tecnicamente preparados, participação especial de Frank Solari e, principalmente, a oportunidade pouco comum de ouvir todo Somewhere in Time em sequência justamente no ano em que o álbum completa quatro décadas.

Qualquer bom tributo ao Maiden pode colocar “The Trooper”, “Fear of the Dark” e “Hallowed Be Thy Name” no repertório e fazer uma excelente apresentação.

A diferença aparece quando alguém decide tocar também “Sea of Madness”, “Déjà-Vu”, “The Loneliness of the Long Distance Runner” e finalmente chegar a “Alexander the Great”.

Naquela noite, essas músicas não eram complementos.

Eram a razão do espetáculo existir.

Quarenta anos depois, em algum lugar no tempo

Há algo especialmente apropriado em celebrar quatro décadas de um álbum chamado Somewhere in Time.

Quarenta anos separam o lançamento de 1986 daquele palco em Porto Alegre. Para mim, 38 anos separam aquele garoto diante de uma seção de discos do Zaffari Higienópolis do homem que, em 2026, estava diante do palco do Opinião.

Em algum ponto daquela noite, essas duas linhas do tempo se encontraram.

Para alguns, o show significou finalmente ouvir “Alexander the Great” ao vivo e sentir por que uma música que passou décadas fora dos palcos provocou tamanha reação quando começou.

Para outros, foi a oportunidade de experimentar um álbum completo que descobriram muito depois de seu lançamento.

Para mim, significou reencontrar um garoto de 12 anos segurando um disco cuja capa parecia conter um mundo inteiro e ouvindo guitarras que mudariam para sempre sua percepção sobre música.

A casa não estava lotada.

Mas quem estava ali viveu uma noite pensada por quem conhece Iron Maiden para quem realmente gosta de Iron Maiden.

E quando tudo terminou, uma certeza permaneceu.

Trinta e oito anos depois, aquelas navalhas ainda cortavam o ar.

Cabe aqui também dar o devido crédito à Arena Produtora e a Cristiano Poschi por trazerem a Porto Alegre uma apresentação com uma proposta tão específica. Em um mercado no qual muitas vezes é mais seguro apostar no repertório óbvio e nos formatos já testados, investir em um espetáculo dedicado à execução integral de Somewhere in Timejustamente em seus 40 anos também significa apostar no público que conhece profundamente essa história.

Shows assim não chegam a uma cidade por acaso. Existe trabalho, investimento e disposição para colocar de pé projetos que vão além da previsibilidade.

Que Porto Alegre continue recebendo noites como essa. Afinal, de tempos em tempos, todos nós merecemos voltar a algum lugar no tempo.

Para saber mais sobre Aquiles Priester: Instagram
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