Entre mudanças de formação, um hiato de quase dez anos, demos, novas composições e uma identidade construída entre o black metal e o thrash, a Goatlord chega ao Aliança Negra carregando uma trajetória marcada pela insistência em permanecer fiel à própria música e à cena que ajudou a construir.

Mais de duas décadas dentro do underground não cabem apenas em uma discografia. Existe uma história feita de encontros, mudanças de formação, ensaios, shows improvisados, períodos de silêncio, retornos e registros que, muitas vezes, sobrevivem apenas porque alguém decidiu guardá-los. A Goatlord conhece esse percurso de perto. Fundada em 2002, a banda atravessou diferentes momentos do metal extremo, passou por um hiato de aproximadamente dez anos e precisou se reconstruir quando voltou à ativa. Agora, diante do convite para participar do Festival Aliança Negra, a banda não chega apenas com um repertório. Chega com tudo o que foi acumulado ao longo dessa caminhada.

Antes da Goatlord existir, Carlos já tocava na Morbid Desaires, uma banda de doom metal com uma proposta mais atmosférica. A vontade, porém, apontava para outro lugar. A ideia era formar uma banda de black metal influenciada por nomes como Sarcófago e Amen Corner, referências que acompanhavam sua formação musical. A conversa com Bruno abriu o caminho para o novo projeto, Marcelo entrou como primeiro vocalista e a Goatlord começou a tomar forma. Só que a realidade do underground logo impôs um dos seus problemas mais conhecidos, encontrar baterista. Como muitos músicos da cena extrema já estavam envolvidos com diferentes bandas, a formação precisou encontrar uma solução própria. A primeira demo foi gravada com bateria eletrônica, incluindo blast beats programados, em um material de quatro músicas que acabou recebendo uma boa resposta do público. Mesmo com a limitação técnica, o resultado conseguiu preservar uma sonoridade suficientemente convincente para que as pessoas percebessem ali uma banda de metal extremo.

A entrada de novos integrantes abriu outra fase. O black metal continuava sendo a base, mas o thrash começou a ganhar espaço e a banda passou a experimentar uma sonoridade mais complexa, alternando momentos extremamente rápidos com passagens mais cadenciadas. Foi nesse processo que a Goatlord começou a entender que aquela mistura representava melhor o que queria construir. O grupo deixou de perseguir apenas a velocidade e passou a enxergar o metal extremo como um território muito mais amplo, no qual diferentes segmentos, atmosferas e intensidades poderiam coexistir. O black metal nunca foi abandonado, mas também nunca funcionou como uma fronteira. A banda continua trabalhando músicas mais rápidas, inclusive novas composições diretamente ligadas ao black metal, ao mesmo tempo em que desenvolve faixas mais cadenciadas e próximas do thrash.

Essa transformação ajudou a definir uma identidade que não depende de uma fórmula única. A Goatlord não parece interessada em escolher entre velocidade e peso, entre black metal e thrash, entre brutalidade e cadência. A proposta está justamente em poder transitar por esses espaços sem perder a essência. O resultado é uma banda que carrega o black thrash como uma referência clara, mas que não trata o gênero como uma prisão criativa. Depois de mais de vinte anos, essa liberdade se tornou parte importante da maneira como a Goatlord entende a própria música.

A trajetória, entretanto, não seguiu uma linha contínua. Depois de anos de atividade, a Goatlord passou por um hiato de aproximadamente uma década e, quando retornou, precisou reconstruir boa parte da formação. O guitarrista fundador Dennis havia se mudado para outro estado e não conseguia mais tocar com a banda. O baterista também saiu, levando Carlos a assumir a bateria. Ramiro entrou na guitarra e, diante da ausência de um vocalista fixo, a banda chegou a considerar a entrada de outra pessoa antes de perceber que poderia seguir como um trio, dividindo entre si as funções. O retorno, portanto, não significou simplesmente voltar ao ponto onde haviam parado. Foi necessário reaprender a funcionar, reorganizar a estrutura e transformar as dificuldades em uma nova configuração.

Esse processo de reconstrução também aparece na composição. A Goatlord mantém uma dinâmica aberta, na qual diferentes integrantes podem chegar com ideias, enquanto Carlos concentra grande parte das letras. Na parte instrumental, Ramiro ajuda a desenvolver essas ideias e transformá-las em músicas mais completas. Carlos explica que costuma trabalhar inicialmente com guitarra ou baixo e apresentar um esboço ao guitarrista, que desenvolve o material a partir dali. É uma dinâmica que combina limitação, experimentação e parceria. A música não chega pronta. Ela vai sendo construída entre aquilo que alguém imagina e aquilo que outro integrante consegue transformar em estrutura.

Essa liberdade aparece também nas letras. A Goatlord não trabalha com um álbum conceitual em que todas as músicas precisam seguir a mesma narrativa. Cada composição pode abordar um tema diferente, e a própria banda parece interessada em deixar que cada faixa encontre sua personalidade. Uma das novas músicas, por exemplo, nasceu de uma conversa casual e recebeu o provocativo título “Eu quero que Jesus se foda”. A faixa estará no próximo trabalho da banda e segue uma direção mais cadenciada, próxima do heavy thrash, com um riff marcante e uma característica que vem se tornando cada vez mais importante para a Goatlord, a escolha pelo português.

O português como escolha

A decisão de explorar o português nas novas composições não aparece como detalhe. Ela representa uma mudança consciente na maneira como a Goatlord pretende trabalhar suas letras daqui para frente. Sangue e Fogo reúne músicas de diferentes períodos e, por isso, mistura português e inglês. Parte do material já existia antes da fase atual, enquanto outras composições foram criadas posteriormente com a intenção de explorar o idioma nacional. Para as próximas músicas, porém, a direção está mais definida. A banda quer trabalhar em português.

Em uma cena na qual muitas bandas optam pelo inglês, a escolha coloca a Goatlord diante de outro território criativo. O próprio idioma passa a ser matéria-prima. As palavras carregam o peso de quem vive a realidade que está sendo observada e criticada nas letras, sem a necessidade de criar uma camada de distância entre a música e aquilo que ela pretende dizer. Para uma banda interessada em discutir questões sociais, políticas e religiosas, cantar em português também significa aprofundar a relação entre discurso e realidade.

A escolha também aponta para uma fase em que a Goatlord parece cada vez menos preocupada em reproduzir fórmulas prontas. O português se junta à liberdade musical e à variedade temática para construir uma identidade que continua ligada ao black thrash, mas que não pretende ficar presa ao que o público espera de uma banda do gênero.

Sangue e Fogo, crítica além do óbvio

Sangue e Fogo representa uma etapa importante dessa construção. O álbum não é conceitual e reúne músicas que abordam diferentes temas, enquanto a sonoridade percorre velocidades e atmosferas variadas. Há momentos mais rápidos, passagens pesadas e músicas mais cadenciadas, e a Goatlord não tentou fazer tudo caber dentro da mesma estrutura. A diversidade do disco nasce justamente da decisão de não se prender a uma única forma de composição.

Mas é nas letras que o trabalho revela uma das características mais fortes da banda. Carlos deixa claro que não tem interesse em fazer aquilo que considera uma abordagem superficial da crítica religiosa, baseada apenas em repetir ataques conhecidos ou utilizar símbolos religiosos como alvo fácil. A intenção é aprofundar. Em Sangue e Fogo, a Goatlord aborda o lado obscuro de instituições religiosas, passando por temas relacionados a igrejas, pastores, padres, abuso, dinheiro, crime e contradições sociais. O discurso parte de situações que os integrantes observam na realidade e transforma essas questões em matéria para a música.

Essa diferença é fundamental para compreender o que a banda pretende fazer com o metal. A provocação está presente, mas não termina nela mesma. Existe uma tentativa de investigar aquilo que está por trás do assunto escolhido, de transformar indignação em narrativa e de construir uma crítica que tenha alguma camada além do impacto imediato. A Goatlord mantém a agressividade característica do metal extremo, mas desloca parte dessa violência para as próprias letras. O peso não está somente nos riffs ou na velocidade. Está também na escolha dos temas e na disposição de tocar em assuntos que continuam desconfortáveis.

É nesse ponto que Sangue e Fogo ganha força como registro de uma banda que amadureceu sem suavizar a própria identidade. A maturidade não aparece como uma tentativa de tornar o som mais acessível ou menos agressivo. Aparece na capacidade de ampliar o que a Goatlord pode dizer enquanto continua sendo uma banda de metal extremo.

O underground mudou, mas continua sendo underground

Depois de mais de vinte anos de trajetória, a Goatlord também acompanhou a transformação da própria cena. Quando a banda começou, a internet ainda não ocupava o lugar central que possui hoje na divulgação musical. O acesso dependia de CDs, lojas, demos, shows e da circulação física dos materiais. Atualmente, qualquer banda pode disponibilizar sua música para um público muito maior, mas a mesma ferramenta que abriu espaço para novos artistas também criou uma disputa permanente pela atenção.

Carlos observa justamente essa contradição. A internet facilita a divulgação, mas ao mesmo tempo coloca centenas de bandas dentro do mesmo espaço. Hoje, basta abrir uma plataforma de streaming para encontrar uma quantidade enorme de artistas disponíveis. No passado, comprar um CD significava muitas vezes passar semanas ouvindo aquele mesmo trabalho. Agora, a facilidade de acesso também significa facilidade de substituição. A música está em todos os lugares, e fazer com que alguém pare para ouvir uma banda específica se tornou outro dos desafios do underground.

As dificuldades também mudaram depois da pandemia. Produtores foram afetados, bandas perderam oportunidades e casas fecharam, reduzindo os espaços disponíveis para a cena. A retomada dos shows aconteceu aos poucos, e nesse processo a união entre as bandas ganhou ainda mais importância. Durante a conversa, a Goatlord cita a relação com o Chuvisco Podre, construída no Garage, como exemplo de uma cena em que uma banda pode abraçar a outra e criar uma rede de apoio que ultrapassa a divisão entre estilos. Metal, punk e outras vertentes continuam encontrando pontos de contato quando existe espaço para que as pessoas se encontrem.

É uma lógica que acompanha a Goatlord desde o começo. Talvez nenhuma história contada na entrevista represente isso tão bem quanto a lembrança do primeiro show.

A banda tinha menos de dez ensaios quando recebeu a oportunidade de tocar. O lugar era improvisado, praticamente o fundo de uma padaria, e um andaime balançava conforme a bateria era tocada. Não havia a estrutura que hoje se espera de um festival. Não havia conforto. Não havia garantia de que aquela apresentação sairia como planejado. Mas havia vontade. A Goatlord subiu naquele espaço, tocou suas músicas e deu o sangue. O público respondeu, e aquela experiência ficou como uma das lembranças que melhor traduzem o espírito do underground daquele período, quando diferentes estilos podiam dividir o mesmo espaço porque o que importava era estar ali fazendo a cena acontecer.

Mais de vinte anos depois, a banda se prepara para um palco muito diferente daquele primeiro show. O Festival Aliança Negra reúne uma estrutura maior, dois palcos e um line up que aproxima diferentes nomes da música extrema. Para a Goatlord, essa mudança de escala representa uma oportunidade importante, mas não apaga a origem. Pelo contrário. A lembrança daquele primeiro palco improvisado ajuda a dimensionar o caminho percorrido até aqui.

O encontro com o Aliança Negra

O convite para o festival nasceu de uma aproximação construída aos poucos. Carlos já conversava com Carlinhos e os dois se encontraram em um show. Na ocasião, ele entregou um CD da Goatlord e o contato continuou pelas redes sociais. Vieram as conversas, a possibilidade de marcar um evento e, posteriormente, o convite para o Aliança.

A oportunidade também representa uma saída do circuito mais concentrado no centro do Rio. A banda destaca a importância de tocar na Zona Oeste e fala com entusiasmo sobre a estrutura da Areninha Cultural Hermeto Pascoal, espaço que considera adequado para receber shows de metal e que, na visão dos integrantes, representa uma evolução para o circuito. A possibilidade de reunir diferentes bandas em uma estrutura desse tamanho também reforça uma ideia que aparece durante toda a entrevista, a necessidade de criar oportunidades para que o underground volte a ocupar espaços maiores.

O line up aumenta ainda mais a expectativa. A Goatlord estará ao lado de bandas que os integrantes já conhecem e de outras com as quais tiveram contato principalmente pelas redes sociais. A presença de dois palcos e a dimensão do evento são vistas como uma experiência nova para a banda, mas a preparação está sendo feita a partir de tudo o que os shows anteriores ensinaram.

A Goatlord não pretende simplesmente repetir uma apresentação.

A intenção é manter o estilo visual e a identidade do espetáculo, mas entregar uma versão mais evoluída, construída a partir dos erros e acertos acumulados ao longo dos anos. A estrutura também entra nessa preparação. Não se trata apenas da banda tocar melhor, mas de compreender tudo o que envolve um show e utilizar cada experiência anterior para chegar mais preparada ao próximo palco.

É nesse contexto que surge uma das frases mais fortes da entrevista. Ao perceber que o Aliança seria um evento de maior proporção, a banda entendeu que precisava “realmente dar o sangue”. Existe uma consciência de que estarão diante de pessoas que conhecem a trajetória da Goatlord e de músicos que ocupam lugares importantes dentro da cena. Para Carlos, a reação ao convite foi tão intensa que ele brinca dizendo ter tido um “mini infarto” quando descobriu que a banda tocaria no festival.

A emoção não está apenas na possibilidade de tocar em um palco maior. Está também no reconhecimento de uma trajetória que começou muito antes daquele convite.

Memória também é parte do underground

No meio da conversa sobre o Aliança, a Goatlord recupera uma memória que poderia parecer pequena, mas que talvez seja uma das mais simbólicas de toda a entrevista. Carlos conta que perdeu a segunda demo da banda depois de mudanças de endereço e transformações pessoais. O registro, porém, continua existindo. Rodrigo, do Trono, ainda guarda uma cópia.

É assim que parte da história do underground sobrevive.

Nem tudo está em grandes arquivos. Nem tudo foi digitalizado. Muitas vezes, uma banda continua existindo na memória de alguém que guardou um CD, uma fita, uma fotografia ou uma camiseta. Uma gravação que poderia desaparecer acaba preservada porque alguém entendeu, naquele momento, que aquilo tinha valor.

A segunda demo da Goatlord é um exemplo disso. O registro físico pode ter saído das mãos de quem o criou, mas continuou circulando pela história da cena. E talvez seja justamente esse tipo de memória que explique por que uma banda consegue atravessar mais de vinte anos sem deixar de pertencer ao underground.

A própria história de Ramiro reforça essa relação entre memória e continuidade. O atual guitarrista tem praticamente a idade da banda. Quando a Goatlord foi fundada, ele tinha seis anos. Anos depois, os caminhos dos dois se cruzaram de maneira improvável, quando Ramiro trabalhava como segurança de banco e Carlos entrou no local usando camiseta de banda. Os dois começaram a conversar, descobriram a afinidade pelo metal e, muito tempo depois, aquela conversa casual acabou contribuindo para que Ramiro estivesse dentro da Goatlord.

Uma banda criada em 2002 hoje tem dentro de sua formação alguém que praticamente cresceu junto com ela. É uma imagem que resume as mudanças de geração pelas quais o underground passa sem necessariamente romper com suas raízes.

Uma história que ainda está sendo escrita

Existe ainda um detalhe que torna essa entrevista especialmente significativa. Depois de mais de vinte anos de trajetória, a conversa com o Cogumelo em Cena foi, segundo os próprios integrantes, a primeira entrevista da Goatlord. A banda já havia atravessado shows, demos, mudanças, um longo período de hiato e um retorno, mas ainda não havia sentado daquela maneira para contar a própria história.

Talvez isso diga muito sobre a maneira como a Goatlord construiu sua trajetória. Não houve uma necessidade de transformar cada passo em registro. A banda simplesmente continuou fazendo. Algumas coisas foram documentadas, outras se perderam. Algumas pessoas permaneceram, outras seguiram caminhos diferentes. Algumas músicas atravessaram os anos, enquanto outras ficaram pelo caminho. E, ainda assim, a história permaneceu.

Agora, essa história encontra um novo capítulo no Festival Aliança Negra.

Quando a Goatlord subir ao palco, não estará levando apenas as músicas que preparou para aquela noite. Estará levando a primeira demo gravada com bateria eletrônica, o black metal que deu origem ao projeto, o thrash que ajudou a encontrar sua identidade, as mudanças de formação, o hiato, o retorno, as letras de Sangue e Fogo, a decisão de cantar em português, a crítica às estruturas que incomodam a banda, os shows que ensinaram o que precisava ser corrigido e até a memória de um primeiro palco improvisado no fundo de uma padaria.

Tudo isso estará ali.

Porque uma apresentação também pode ser um arquivo.

E uma banda também pode carregar a própria história no corpo.

A Goatlord chega ao Aliança Negra com mais de duas décadas de underground nas costas, mas sem a sensação de que a história terminou. Pelo contrário. A banda continua compondo, continua experimentando, continua encontrando novas maneiras de trabalhar o black thrash e continua olhando para a própria cena com a mesma disposição de questionar e participar.

O próximo capítulo acontece no palco.

E, depois de tudo o que já atravessou, a Goatlord sabe exatamente o que precisa fazer.

Dar o sangue.

A entrevista completa da Goatlord está disponível no Cogumelo em Cena. A banda integra o line up do Festival Aliança Negra 2026, em Bangu, no Rio de Janeiro.

https://www.instagram.com/goatlordoficial

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