Depois de mais de uma década de estrada, quatro álbuns de estúdio, dois EPs e experiências acumuladas dentro e fora do Brasil, o Hatefulmurder chega ao Festival Aliança Negra atravessando um momento de transformação. Com Giulia Roiz e Victor integrando a formação, a banda mantém sua essência enquanto abre espaço para novas influências, novas músicas e uma maneira diferente de ocupar o palco.

Uma banda que atravessa mais de uma década não chega ao presente da mesma forma que começou. O tempo muda pessoas, relações, formas de criar e também a maneira de enxergar a própria música.

Para o Hatefulmurder, esse processo ganhou novos contornos nos últimos anos. A entrada de Giulia Roiz e Victor trouxe uma nova dinâmica para uma formação que já carregava uma história construída através de discos, turnês e muitos quilômetros percorridos dentro e fora do Brasil.

Em conversa com o Cogumelo em Cena, Renan Campos fala sobre esse amadurecimento e sobre uma banda que hoje entende melhor os caminhos que pretende seguir.

“Eu acho que a gente tá mais maduro como pessoas, como músicos, como artistas. Eu acho que a gente sabe para onde a gente quer ir.”

A fala resume bem o momento atual. Não existe uma tentativa de apagar o que foi construído, mas também não há interesse em permanecer parado no mesmo lugar. O Hatefulmurder chega a essa nova fase com uma compreensão mais clara de sua identidade e dos caminhos que pretende explorar.

UMA NOVA FORMAÇÃO, A MESMA ESSÊNCIA

A chegada de Giulia Roiz e Victor representa uma mudança importante dentro da história da banda. Mas a transformação acontece sem romper com aquilo que já existia.

Giulia entrou depois de um processo de audição que começou com conversas pelas redes sociais, passou pelo envio de material e terminou em um encontro presencial no Rio de Janeiro. A identificação entre os integrantes aconteceu rapidamente, e a nova formação começou a encontrar seu próprio equilíbrio.

Para a vocalista, existe uma alma do Hatefulmurder que permanece, especialmente pela presença de integrantes que acompanham a banda há mais tempo. Ao mesmo tempo, a chegada dos novos integrantes permite que outras referências passem a fazer parte do som.

É uma mudança que acontece de dentro para fora.

A nova formação não chega apenas para ocupar espaços deixados por integrantes anteriores. Ela começa a participar da construção daquilo que o Hatefulmurder será daqui para frente.

E essa construção também envolve distância, deslocamentos e uma rotina que exige dedicação. Giulia precisa viajar constantemente para o Rio de Janeiro para ensaios e gravações. O processo é cansativo, mas a vontade de fazer parte do projeto fala mais alto.

“Quando você realmente quer muito fazer algo, acaba que isso, o cansaço, toda a dificuldade, não atrapalha. Vale a pena.”

Existe algo de bastante concreto nessa frase. A vida de uma banda não acontece apenas quando as luzes se acendem. Existe toda uma estrutura invisível de deslocamentos, ensaios, conversas, gravações e decisões que sustenta aquilo que chega ao palco.

“MY OATH” E O PRIMEIRO SINAL DA NOVA FASE

Essa transformação já começou a aparecer na música.

“My Oath” surge como uma das primeiras manifestações dessa nova configuração do Hatefulmurder. A faixa representa esse encontro entre uma estrutura construída anteriormente e a identidade trazida por Giulia.

Os créditos também traduzem essa dinâmica. A música é de Renan Campos, enquanto a letra é de Giulia Roiz.

Durante a entrevista, Giulia conta que recebeu liberdade para interferir na composição e colocar sua própria abordagem na faixa. O resultado traz uma característica que passa a ocupar um espaço importante nessa nova fase, o contraste entre o vocal feminino clean e a agressividade já conhecida do Hatefulmurder.

“Eu acho que a principal diferença, assim, que fica muito perceptível desse novo single para as músicas mais antigas é o vocal clean.”

Mesmo sendo uma música que já estava encaminhada antes da chegada da vocalista, “My Oath” acabou se tornando também um espaço para que ela imprimisse sua identidade.

“Eu consegui colocar um pouco da minha identidade também. Eu acho que vai muito na linha do que o Hatefulmurder acabou se tornando agora.”

O clipe acompanha essa atmosfera. Gravado no Rio de Janeiro, em uma locação abandonada descrita pela banda como um antigo hospital psiquiátrico, o vídeo reforça uma estética melancólica que amplia a atmosfera da faixa.

Mais do que apresentar uma nova vocalista, “My Oath” funciona como um primeiro retrato de uma banda em transformação.

O PRÓXIMO CAPÍTULO JÁ ESTÁ PRONTO

Se “My Oath” funciona como uma porta de entrada para essa nova fase, o Hatefulmurder já está muito além do primeiro passo.

Um novo EP, com quatro faixas, já foi gravado, mixado e masterizado. A banda também possui um clipe pronto e avalia atualmente os caminhos para o lançamento do material, incluindo conversas com gravadoras estrangeiras.

O interessante é que esse novo repertório já começou a existir no palco antes mesmo de chegar oficialmente ao público.

Das quatro faixas do EP, três já foram incorporadas ao setlist.

Isso cria uma situação curiosa. Enquanto o público ainda espera pelo lançamento oficial, algumas dessas músicas já estão sendo testadas na prática, diante de uma plateia.

O processo criativo também acompanha essa nova dinâmica.

Renan costuma partir dos riffs e das estruturas musicais. A partir daí, as ideias circulam entre os integrantes, passam por modificações e recebem as linhas vocais e letras de Giulia. Boa parte desse processo acontece à distância, através de demos e conversas constantes, até que a banda consiga transformar o material em uma composição definitiva.

A distância, nesse caso, não interrompe a criação. Ela apenas muda a maneira como os integrantes constroem as músicas.

UMA IDENTIDADE QUE NÃO CABE FACILMENTE EM UMA ETIQUETA

Quando o assunto chega à identidade sonora, a própria banda encontra uma definição bem particular.

“Death metal universitário.”

A expressão aparece de maneira descontraída durante a conversa, mas acaba abrindo espaço para uma discussão interessante sobre o som do Hatefulmurder.

Giulia explica que, ao ouvir o novo material, não consegue encaixá-lo facilmente em um gênero específico. Ao mesmo tempo, reconhece que existe uma identidade própria que permanece perceptível desde os trabalhos anteriores.

“Eu acho que a gente conseguiu achar uma identidade, manter uma identidade que eu acho que sempre teve uma identidade muito específica.”

Essa talvez seja uma das características mais interessantes dessa nova fase. A banda não parece estar buscando uma reinvenção completa, mas também não está tentando reproduzir exatamente aquilo que já fez.

Existe uma identidade reconhecível, mas ela continua aberta à transformação.

O resultado é um som que, segundo Giulia, mantém a personalidade do Hatefulmurder enquanto incorpora referências mais contemporâneas.

A ESTRADA COMO PARTE DA CONSTRUÇÃO

Antes de chegar ao Aliança Negra, o Hatefulmurder já acumulou uma história considerável na estrada.

A banda passou por diferentes países da América Latina, incluindo Chile, Peru, Bolívia, Colômbia, Equador e Argentina, além de realizar extensas turnês pelo Brasil.

Uma delas durou trinta dias, com a banda vivendo dentro de um ônibus durante o percurso.

Também houve a experiência de dividir estrada com nomes como Angelus Apatrida, da Espanha.

Para Renan, tudo isso não é apenas parte da história da banda. É parte da formação dela.

“Eu acho que a gente vive para sair na estrada. Eu sou completamente partidário da ideia de que uma banda precisa estar na estrada. Tem sua dificuldade, tem seus percalços, mas eu acho que uma banda se constrói.”

Essa visão ajuda a entender também a importância que o grupo passou a dar à relação com o público.

O Hatefulmurder vem trabalhando mais diretamente a interação durante os shows, inclusive ensaiando momentos específicos para criar uma conexão mais orgânica com a plateia.

“A grande busca é tornar o público mais participativo nos shows e criar uma conexão mais direta para entregar às músicas.”

Para a banda, o público não deve simplesmente assistir.

Deve participar.

A apresentação deixa de ser uma via de mão única e passa a funcionar como uma construção coletiva.

ALIANÇA NEGRA E A NECESSIDADE DE PRESERVAR A CENA

É nesse momento de transformação que o Hatefulmurder encontra o Festival Aliança Negra.

A participação possui um significado especial para a banda. O grupo já havia passado pelo festival muitos anos atrás, quando ainda estava no começo da própria trajetória.

Agora, retorna depois de uma longa caminhada.

Para Renan, o retorno do Aliança ao calendário carioca representa mais do que uma oportunidade de tocar. Existe ali uma importância para o próprio circuito do metal extremo e para uma cena que sofreu perdas profundas nos últimos anos.

“Ver um festival como esse por uma cidade como é o Rio de Janeiro voltando, fazendo o segundo ano seguido, depois de um hiato grande, é muito importante para o nosso nicho, dentro do que a gente faz.”

A pandemia deixou marcas profundas na música independente. Casas fecharam, eventos desapareceram e bandas precisaram reconstruir suas rotinas e possibilidades.

Por isso, a existência de festivais como o Aliança Negra também ganha outro significado.

Eles ajudam a manter uma rede viva.

Público, bandas, produtores, casas, fotógrafos, jornalistas e todos aqueles que movimentam a cena dependem dessa circulação para continuar existindo.

Renan resume essa responsabilidade de maneira direta:

“É aquele negócio, preservar a cena.”

Não se trata apenas de subir ao palco.

É também entender que cada evento ajuda a construir o espaço que outras bandas ocuparão depois.

Nesse sentido, o retorno do Hatefulmurder ao Aliança Negra carrega uma dimensão simbólica. A banda que esteve no festival ainda no começo da própria história volta agora com mais de uma década de estrada, uma formação renovada e material novo pronto para chegar ao público.

UM SHOW ENTRE O PASSADO E O FUTURO

Para Giulia, o Aliança Negra também representa uma experiência inédita. Será sua primeira apresentação em Bangu e sua primeira participação no festival.

A expectativa é alta, especialmente pela relação que ela já estabeleceu com os shows no Rio de Janeiro.

“Eu estou com expectativas altas assim. Estou muito animada para fazer esse show.”

No repertório, passado e futuro devem dividir espaço.

As três músicas do novo EP que já entraram no setlist estarão entre as novidades, mas as faixas antigas continuam fazendo parte da apresentação.

A banda não pretende abandonar aquilo que o público já conhece. Ao mesmo tempo, não quer esconder o que está sendo construído agora.

É justamente esse equilíbrio que deve marcar o show.

Quem chegar ao Aliança Negra encontrará uma banda que carrega sua história no repertório, mas que também está apresentando ao vivo os primeiros sinais de uma nova fase.

A entrevista completa do HATEFULMURDER está disponível no Cogumelo em Cena. A banda integra o line up do Festival Aliança Negra 2026, em Bangu, no Rio de Janeiro.

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