De uma temporada de composição praticamente isolados no interior de São Paulo ao trecho de Hermeto Pascoal escondido em “Carolina IV”, passando por berimbau, coral, percussão brasileira e até um mistério envolvendo “Z.I.T.O.”: três décadas depois, Holy Land ainda guarda histórias que ajudam a explicar por que o segundo álbum do Angra se tornou tão singular. Em setembro, essa história volta ao palco em Porto Alegre.

Existem discos cuja importância pode ser explicada pela quantidade de cópias vendidas, pelos singles que produziram ou pelo tamanho das turnês que vieram depois.
Holy Land exige outra medida.
Quando o segundo álbum do Angra chegou em 1996, a banda já havia conseguido algo que parecia improvável para um grupo brasileiro de heavy metal: Angels Cry havia atravessado fronteiras e conquistado reconhecimento especialmente no Japão e na Europa.
O caminho mais seguro seria repetir a fórmula.
Andre Matos, Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro, Luís Mariutti e Ricardo Confessori fizeram justamente o contrário.
Em Holy Land, o Angra começou a responder uma pergunta muito mais interessante: como uma banda brasileira poderia tocar heavy metal sem precisar esconder de onde vinha?
A resposta apareceu em guitarras, orquestrações e vocais, mas também em congas, djembê, timbales, repinique, tamborim, berimbau, viola, flauta e referências que iam da música renascentista europeia a elementos da cultura brasileira. Parte desses instrumentos e participações foi registrada em São Paulo, enquanto as gravações principais aconteceram em diferentes estúdios alemães.

Trinta anos depois, muita coisa sobre Holy Land continua conhecida apenas pelos fãs que mergulharam profundamente naquele universo.
Então, antes de o Angra trazer a Holy Land 30th Anniversary Tour a Porto Alegre, no dia 27 de setembro, fomos atrás de algumas dessas histórias.
1. HOLY LAND NASCEU LONGE DOS ESTÚDIOS
Antes da Alemanha, houve interior de São Paulo.
Durante a composição do álbum, em 1995, o Angra passou um período isolado em uma propriedade rural em Tapiraí. A ideia era afastar a banda das distrações cotidianas e criar um ambiente no qual os músicos pudessem mergulhar no novo trabalho. O material ainda seria finalizado posteriormente em um sítio ligado a Ricardo Confessori.
É interessante imaginar Holy Land começando dessa maneira porque o ambiente parece quase oposto ao universo normalmente associado ao power metal dos anos 90.
Em vez de simplesmente olhar para as referências europeias que haviam ajudado a formar musicalmente o grupo, o Angra começou a olhar para dentro.
E essa mudança acabaria definindo o álbum inteiro.
2. O CONCEITO ERA O BRASIL — MAS NÃO SIMPLESMENTE “UM DISCO SOBRE O BRASIL”
Rafael Bittencourt resumiu o conceito como a história do Brasil em seus estágios iniciais. A narrativa gira em torno do território, da chegada europeia e do encontro — e choque — entre culturas que formariam o país.
Isso ajuda a entender por que a brasilidade de Holy Land funciona tão bem.
Ela não foi simplesmente adicionada às músicas depois que elas estavam prontas.
Os elementos brasileiros fazem parte da própria linguagem utilizada para contar aquela história.
O contraste entre música europeia, heavy metal, estruturas progressivas e elementos rítmicos brasileiros acaba funcionando quase como representação musical dos diferentes mundos que entram em contato ao longo do conceito.
Holy Land não colocou simplesmente percussão brasileira dentro do metal.
Tentou fazer o próprio metal participar da narrativa.
3. “CROSSING” COMEÇA SÉCULOS ANTES DO HEAVY METAL EXISTIR
O primeiro som de Holy Land não é um riff de guitarra.
“Crossing” utiliza “O Crux Ave”, obra associada ao compositor renascentista italiano Giovanni Pierluigi da Palestrina.
A escolha é muito mais interessante quando colocada dentro do conceito.
Antes que o álbum apresente sua mistura de metal e música brasileira, ouvimos uma referência à tradição religiosa europeia. É como se o velho continente surgisse musicalmente antes de atravessarmos para aquela “terra sagrada” que dá nome ao disco.
E então vem “Nothing to Say”.
A passagem entre as duas faixas é brutal.
Séculos de distância musical desaparecem em poucos segundos.
4. “NOTHING TO SAY” COMEÇOU NA BATERIA
Uma das músicas mais emblemáticas do álbum não nasceu necessariamente de uma guitarra.
Segundo Ricardo Confessori, “Nothing to Say” se desenvolveu a partir de um groove de bateria que ele criou por volta de 1994 enquanto estava em uma propriedade rural de Rafael Bittencourt. A banda começou a trabalhar em torno daquela ideia e a música foi tomando forma.
É uma curiosidade especialmente interessante porque ouvimos metal frequentemente a partir do riff.
Em “Nothing to Say”, a gênese ajuda a explicar a sensação rítmica particular da composição.
E existe ainda outro detalhe importante: Holy Land marcou a estreia de Confessori em estúdio com o Angra.
Nada mal começar deixando uma impressão dessas.
5. “CAROLINA IV” ESCONDE HERMETO PASCOAL
Talvez seja uma das curiosidades mais bonitas do álbum.
O solo de flauta presente em “Carolina IV” contém uma citação/variação de “Bebê”, composição de Hermeto Pascoal.
E isso diz muito sobre a lógica de Holy Land.
O Angra poderia ter colocado instrumentos brasileiros em suas músicas e parado ali. Mas as referências descem mais fundo.
“Carolina IV” se tornou uma das grandes sínteses dessa proposta. Metal, música progressiva, percussões, violões, flauta e diferentes movimentos convivem durante mais de dez minutos sem que a faixa pareça uma coleção de ideias coladas artificialmente.
É justamente o contrário.
Ela soa como se aquelas linguagens sempre pudessem ter convivido.
Talvez apenas ninguém tivesse feito daquela maneira ainda.
6. PARTE DO BRASIL DE HOLY LAND FOI GRAVADA… NO BRASIL
Pode parecer óbvio, mas existe uma divisão interessante na produção.
As bases principais foram registradas em estúdios alemães, incluindo Hansen Studio, Big House Studios e HG Studio. Vocais, piano e órgão também passaram pelo Vox Klangstudio.
Mas diversos elementos responsáveis pela identidade brasileira do disco foram registrados no Djembe Studio, em São Paulo, entre agosto e outubro de 1995.
Ali entraram participações e instrumentos que ajudariam a modificar completamente a textura do álbum.
Estamos falando de percussão brasileira e latina, flauta, viola, berimbau, coral e contrabaixo acústico, entre outros elementos. Tuto Ferraz ficou responsável pela produção das percussões, envolvendo instrumentos como congas, djembê, timbales, claves, triângulo e repinique.
Em certo sentido, a própria produção do álbum reproduziu aquilo que sua música propunha.
Uma parte nasceu na Europa.
Outra precisava necessariamente passar pelo Brasil.
7. HOLY LAND TEM MUITO MAIS GENTE TOCANDO DO QUE PARECE
Quando pensamos naquele Angra, lembramos imediatamente de Andre Matos, Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro, Luís Mariutti e Ricardo Confessori.
Mas Holy Land possui um universo de músicos ao redor deles.
Os créditos incluem o Grupo Vocal Farrambamba, a soprano Celeste Gattai, Mônica Thiele, Reginaldo Gomes, Ricardo Kubala na viola, Paulo Bento na flauta, Pixu Flores no berimbau, Castora em apito, tamborim e efeitos de percussão, além de Holger Stonjek no contrabaixo acústico. Naomi Munakata aparece como regente, enquanto Sascha Paeth trabalhou também com programação de teclados e arranjos orquestrais.
Isso ajuda a compreender por que é tão difícil reproduzir a dimensão de Holy Land olhando apenas para cinco instrumentos.
O álbum foi pensado em camadas.
E algumas delas quase desaparecem individualmente quando ouvimos o conjunto, mas fazem enorme diferença quando retiradas.
É um daqueles discos que recompensam o fone de ouvido.
8. ATÉ A FAIXA-TÍTULO ESCONDE SONS DE OUTRO LUGAR
As experiências não param nos instrumentos gravados especialmente para o álbum.
A faixa “Holy Land” utiliza trechos e sons de taiko provenientes de material do grupo japonês Ondekoza. Já “The Shaman” incorpora fala e sons provenientes de um registro de música popular do Norte do Brasil.
É uma informação curiosa porque mostra até onde foi a preocupação com textura.
O álbum não funciona apenas através de composição tradicional — guitarra, baixo, bateria, teclado e voz.
Existe uma espécie de paisagem sonora sendo construída.
Algumas coisas estão na frente.
Outras permanecem escondidas atrás da música.
E talvez seja justamente por isso que três décadas depois ainda seja possível encontrar pequenos detalhes numa audição nova.
9. E, AFINAL, O QUE DIABOS SIGNIFICA “Z.I.T.O.”?
Essa pergunta perseguiu fãs do Angra por anos.
Quando o disco saiu, a banda chegou a promover uma competição para que os fãs tentassem descobrir o significado da sigla.
E talvez o mais divertido seja justamente o mistério ter sobrevivido como parte do folclore ao redor do álbum.
“Z.I.T.O.” é uma das faixas mais rápidas e imediatamente reconhecíveis de Holy Land, mas seu título ajudou a criar algo que existia muito antes de fóruns, Reddit ou redes sociais transformarem cada detalhe de um disco em investigação coletiva.
Quem comprava o álbum tinha encarte.
Tinha revista.
Tinha amigos.
E tinha teorias.
Às vezes era suficiente.
10. A CAPA SÓ REVELA COMPLETAMENTE SUA IDEIA QUANDO É ABERTA
Aqui existe uma curiosidade que quem conheceu Holy Land apenas no streaming dificilmente experimenta da mesma maneira.
A arte foi concebida para funcionar além da frente do CD. Quando aberta completamente, a ilustração se transforma em um mapa antigo, reforçando visualmente o conceito de território, descoberta e ocupação que atravessa o álbum.
É uma pequena lembrança de algo que o streaming praticamente eliminou.
Um disco não era apenas aquilo que saía dos alto-falantes.
Era abrir a embalagem, retirar o encarte, observar as fotografias, procurar os créditos, tentar entender as letras e descobrir elementos escondidos na arte.
Em Holy Land, isso fazia parte da experiência.
O mapa não estava simplesmente decorando o disco.
Era outra porta para dentro dele.
TRINTA ANOS DEPOIS, AINDA EXISTEM COISAS PARA DESCOBRIR
Talvez essa seja uma das melhores medidas para avaliar a grandeza de Holy Land.
Trinta anos depois, podemos continuar falando sobre “Nothing to Say”, “Carolina IV” ou “Make Believe”. Podemos discutir os vocais de Andre Matos, as guitarras de Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, a bateria de Ricardo Confessori, o baixo de Luís Mariutti ou a produção de Charlie Bauerfeind e Sascha Paeth.
Mas podemos também retirar algumas camadas e encontrar Palestrina.
Hermeto Pascoal.
Berimbau.
Repinique.
Coral.
Viola.
Flauta.
Taiko.
Sons e vozes que parecem vir de outros lugares.
E é aí que Holy Land talvez revele sua maior conquista.
O Angra poderia ter feito um excelente disco de power metal em 1996. Possuía músicos, técnica, composições e reconhecimento internacional suficientes para isso.
Preferiu tentar descobrir como um disco do Angra poderia soar como um disco que nenhuma banda europeia seria capaz de fazer exatamente da mesma maneira.
A brasilidade deixou de ser detalhe.
Virou estrutura.
Talvez seja por isso que, três décadas depois, Holy Land continue oferecendo alguma coisa nova a quem decide ouvi-lo novamente — especialmente se a experiência for aquela que os discos antigos ainda pedem: do início ao fim, sem pular as faixas.
Em setembro, Porto Alegre terá a oportunidade de reencontrar essa história no palco.
Não como ela existia em 1996, porque isso seria impossível.
Mas através da banda que continua carregando o nome Angra e de um repertório que conseguiu sobreviver aos músicos, às formações, às mudanças da indústria e ao próprio tempo.
Trinta anos depois, a terra continua sagrada.
ANGRA — HOLY LAND 30TH ANNIVERSARY TOUR EM PORTO ALEGRE
O Angra apresenta a turnê comemorativa no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, no domingo, 27 de setembro de 2026. A abertura da casa está marcada para 18h30, com início do show às 20h. A classificação é de 16 anos; menores de 16 podem entrar acompanhados por responsável legal.

A formação atual reúne Alirio Netto nos vocais, Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa nas guitarras, Felipe Andreoli no baixo e Bruno Valverde na bateria.
Data: 27 de setembro de 2026
Local: Auditório Araújo Vianna
Endereço: Av. Osvaldo Aranha, 685 — Porto Alegre/RS
Abertura: 18h30
Show: 20h
Classificação: 16 anos
Ingressos — Angra em Porto Alegre
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