Se havia alguma dúvida sobre o espaço que o metal brasileiro ocupa no Rock in Rio, Black Pantera e Nervosa trataram de responder da maneira mais eficiente possível: volume alto, discurso direto, riffs, suor e um público disposto a transformar o Palco Sunset em um enorme mosh pit.

Acompanhando o segundo dia do Rock in Rio 2026 pela televisão, já havia passado pelos shows da Malvada e do Sepultura quando chegou a vez do Black Pantera. E, pelo menos para quem assistia de casa, a diferença foi perceptível. Não necessariamente em tamanho, história ou importância das bandas — comparações desse tipo seriam injustas —, mas na energia que atravessava a tela.
O Black Pantera parecia ter encontrado exatamente o público que precisava, e o público, a banda que queria naquele momento.
Desde os primeiros minutos, a impressão era de que havia algo diferente acontecendo no Sunset. A pista respondia. Rodas se abriam, corpos voavam, braços se erguiam e o mosh pit crescia. Não era apenas gente esperando pela próxima atração do festival. Havia participação, entrega e aquela sensação tão característica dos bons shows de hardcore e metal: a divisão entre palco e plateia começava a desaparecer.
E talvez esteja aí um dos maiores méritos do Black Pantera.
Charles Gama, Chaene da Gama e Rodrigo “Pancho” Augusto não precisam de grandes artifícios para ocupar um palco. O trio construiu sua identidade justamente em cima da urgência. Musicalmente, o Black Pantera mistura metal, hardcore, punk e groove, mas é quando tudo isso encontra o discurso da banda que as músicas ganham outra dimensão.
Faixas como “Padrão É o Caralho”, “Obsoleto” e, principalmente, “Fogo nos Racistas” deixam de ser apenas músicas dentro de um repertório. Tornam-se manifestações coletivas.
E no Rock in Rio isso ganha um peso diferente.
“Fogo nos Racistas” é praticamente impossível de passar despercebida. O refrão, simples e brutalmente direto, encontra na multidão sua extensão natural. Pela transmissão era possível perceber o público respondendo e transformando a música em um dos momentos mais fortes da apresentação.
Mas aquele não seria apenas um show do Black Pantera.
A proposta era Black Pantera convida Nervosa, e o encontro começou a ganhar forma quando Prika Amaral entrou para dividir os vocais em “Serotonina”. Sem guitarra naquele primeiro momento, Prika assumiu o microfone ao lado de Charles, acrescentando ainda mais agressividade à música.
Depois, o palco passou para a Nervosa.
“Ghost Notes” e “Slave Machine” trouxeram o thrash metal da banda para dentro do set, enquanto “Endless Ambition” fez o caminho inverso da colaboração: desta vez Charles Gama retornou para dividir os vocais com Prika.
Foi uma escolha inteligente. Em vez de transformar a Nervosa simplesmente em “convidada especial” para uma ou duas participações protocolares, o show abriu espaço para que a banda tivesse identidade própria dentro da apresentação.
E então veio uma escolha que, no papel, poderia parecer improvável. Rita Lee.
Black Pantera e Nervosa se encontraram para tocar “Obrigado Não”, levando uma composição de uma das figuras mais importantes da história do rock brasileiro para um território muito mais pesado. E funcionou justamente porque a essência continuava ali: provocação, inconformismo e liberdade.
Sete músicos dividindo o palco, duas bandas brasileiras de metal diante de uma multidão no Rock in Rio e uma música de Rita Lee servindo como ponto de encontro entre diferentes gerações do rock nacional.
Há uma simbologia difícil de ignorar nessa imagem.
O trecho final, com “Revolução é o Caos / Exija”, devolveu o show ao estado de confronto que havia marcado boa parte da apresentação.
Mas talvez a melhor maneira de medir o que aconteceu no Sunset naquele fim de tarde não esteja apenas no repertório.
Está no público.
Até aquele momento eu já havia acompanhado pela transmissão os shows da Malvada e do Sepultura. Cada um com suas características e propostas, evidentemente. Mas foi durante Black Pantera que percebi a plateia mais participativa. Mais rodas, mais mosh pits, mais movimento e, principalmente, uma conexão muito evidente entre aquilo que acontecia no palco e aquilo que voltava da pista.
E isso diz muita coisa.
Porque festival também é sobre conquistar pessoas que talvez não tenham ido até ali especificamente para assistir você.
O Black Pantera fez isso.
Não estou escrevendo estas linhas da grade do Palco Sunset, nem depois de sair de um pit de fotografia. Desta vez acompanhei tudo pela televisão. E obviamente uma transmissão nunca reproduz completamente o impacto físico de estar diante de amplificadores, sentir o grave no peito ou observar uma roda se abrindo a poucos metros de distância.
Mas algumas coisas atravessam a tela.
Energia é uma delas.
E foi justamente isso que sobrou no show do Black Pantera.
Em um festival gigantesco, onde produções milionárias e nomes internacionais naturalmente concentram boa parte das atenções, três caras de Uberaba subiram ao palco, chamaram quatro mulheres de uma das bandas brasileiras de thrash metal de maior projeção internacional e lembraram que o metal nacional não precisa pedir licença para ocupar espaços dessa dimensão.
O Black Pantera não parecia estar no Rock in Rio para aproveitar uma oportunidade.
Parecia estar ali para tomar posse dela.
E tomou.








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