Em 1996, o Angra poderia ter seguido a fórmula que transformara Angels Cry em sucesso internacional. Preferiu arriscar. Holy Land, segundo álbum da banda, ampliou o vocabulário do metal melódico ao incorporar percussões brasileiras, passagens acústicas, música erudita e estruturas progressivas a um disco concebido em torno da formação cultural do Brasil. Trinta anos depois, esse repertório volta aos palcos em uma turnê comemorativa que chega ao Vivo Rio no dia 18 de setembro.

Holy Land nasceu em um período de confiança criativa. O Angra já havia conquistado público fora do país, especialmente no Japão e na Europa, e usou essa posição para fazer um álbum menos previsível. A história das navegações, a colonização e o encontro entre culturas indígenas, africanas e europeias orientam parte das composições, mas o conceito não fica restrito às letras. Ele aparece nos ritmos, nos arranjos e na maneira como a banda aproxima universos musicais que, naquele momento, raramente dividiam o mesmo disco de heavy metal. A abertura com Crossing, baseada em música sacra renascentista, já indica que a viagem será diferente daquela proposta pelo álbum de estreia. Logo depois, Nothing to Say coloca guitarras rápidas e bateria técnica sobre uma construção rítmica distante do power metal europeu mais convencional. A partir daí, Holy Land passa por músicas como Silence and Distance, The Shaman, Make Believe, Z.I.T.O. e Deep Blue sem se acomodar em uma única fórmula.

O disco também ocupa um lugar incontornável na trajetória de Andre Matos. Sua voz, o piano, os arranjos e sua participação na construção conceitual ajudaram a definir a personalidade do álbum. Ouvir essas músicas hoje carrega inevitavelmente essa memória, sobretudo para quem acompanhou a formação clássica com Rafael Bittencourt, Kiko Loureiro, Luis Mariutti e Ricardo Confessori.

A turnê de 30 anos não tenta congelar o Angra em 1996. A banda que sobe ao palco em 2026 é outra. Alírio Netto assume os vocais ao lado de Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa nas guitarras, Felipe Andreoli no baixo e Bruno Valverde na bateria. A mudança coloca as canções diante de uma nova formação e, justamente por isso, torna o show interessante também para quem conhece o disco de cor. Não será uma reprodução arqueológica da fase de Andre Matos, mas a interpretação atual de um repertório que atravessou diferentes momentos da história do Angra.

No Vivo Rio, músicas como Nothing to Say, Carolina IV, Make Believe, Z.I.T.O., Deep Blue e Lullaby for Lucifer deixam de ser apenas gravações de um álbum consagrado para recuperar a dimensão para a qual muitas delas foram concebidas, volume, execução ao vivo e uma banda diante do público. Para quem cresceu ouvindo Holy Land, é a oportunidade de reencontrar um dos períodos mais marcantes do Angra. Para quem chegou depois, talvez seja a melhor ocasião para entender por que esse disco ocupa uma posição tão particular dentro do metal brasileiro.

Angra — Holy Land 30th

Data: 18 de setembro de 2026, sexta-feira
Abertura dos portões: 19h
Show: 21h
Local: Vivo Rio
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 — Parque do Flamengo, Rio de Janeiro
Classificação: 18 anos

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