Antes de se tornar a voz de Rainbow, Black Sabbath e de sua própria banda, Ronnie James Dio já carregava quase duas décadas de estrada. Pequeno em estatura e gigantesco quando abria a boca, ele ajudou a dar ao heavy metal uma linguagem de fantasia, gestos e personagens que atravessou gerações. Para mim, porém, existe uma lembrança impossível de separar dessa história: eu tinha 15 anos quando vi Dio com o Black Sabbath no Gigantinho, em Porto Alegre.

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Existem artistas que entram em uma banda e passam a fazer parte de sua história. Outros entram e mudam a maneira como enxergamos aquela banda.

Ronnie James Dio conseguiu fazer isso mais de uma vez.

Aconteceu com Rainbow. Aconteceu com Black Sabbath. Depois aconteceu novamente quando colocou simplesmente Dio na capa de um disco e mostrou que não precisava mais estar associado ao nome de ninguém para construir um universo próprio.

Talvez por isso seja tão difícil resumir sua importância falando apenas da voz. Evidentemente ela estava lá — poderosa, dramática e imediatamente reconhecível. Mas Dio também ajudou a construir uma parte do vocabulário visual e imaginário que hoje associamos ao heavy metal.

Reis, demônios, arco-íris, dragões, magia, bem e mal. E, claro, dois dedos levantados que se tornariam praticamente um cumprimento universal entre fãs de metal.

Para muita gente, Dio virou uma espécie de personagem mitológico.

Eu tive a oportunidade de descobrir que aquele personagem existia de verdade.

E tinha pouco mais de um metro e sessenta.

ANTES DE EXISTIR DIO

Ronnie James Dio nasceu Ronald James Padavona, em 1942. Sua história musical começou muito antes de Rainbow, Black Sabbath ou até mesmo da consolidação do heavy metal como gênero.

Ronnie James Dio (Ronald James Padavona) segundo a esquerda

A biografia oficial registra o início de sua carreira em 1957, com o Vegas Kings, grupo que posteriormente passou por outras denominações. Na década seguinte veio o Elf, banda que acabaria entrando na órbita do Deep Purple.

Esse detalhe ajuda a entender muita coisa.

Quando o mundo do hard rock começou a descobrir Dio na década de 1970, ele não era exatamente um novato com uma grande voz esperando uma oportunidade. Era um músico que já acumulava anos de estrada, apresentações e experiência.

Então apareceu Ritchie Blackmore.

RAINBOW: QUANDO A FANTASIA ENCONTROU SUA VOZ

Ao deixar o Deep Purple, Blackmore criou o Rainbow e encontrou em Dio o vocalista capaz de dar vida ao universo que imaginava. A parceria começou em 1975 e produziu três álbuns de estúdio com Dio: Ritchie Blackmore’s RainbowRisingLong Live Rock ‘n’ Roll.

É difícil pensar naquela fase sem lembrar de “Man on the Silver Mountain”, “Stargazer”, “Kill the King” ou “Long Live Rock ‘n’ Roll”.

Mas existe algo mais importante do que simplesmente listar músicas.

Dio fazia você acreditar naquilo.

Cantar sobre magos, reis, arco-íris e batalhas poderia facilmente transformar uma música em caricatura. Na voz dele, aquelas histórias ganhavam dramaticidade. Dio não parecia observar aquele universo de fora.

Ele habitava aquilo.

E talvez tenha sido justamente essa capacidade que o preparou para o desafio seguinte.

COMO SUBSTITUIR O INSUBSTITUÍVEL?

Em 1979, Ronnie James Dio entrou no Black Sabbath para substituir Ozzy Osbourne.

Escrito hoje, parece apenas mais uma informação na cronologia de uma banda. Mas é preciso imaginar o tamanho daquela mudança naquele momento.

Ozzy não era simplesmente o vocalista. Sua voz estava associada a “Black Sabbath”, “Paranoid”, “War Pigs”, “Iron Man”, “Children of the Grave” e aos discos que haviam ajudado a estabelecer as próprias fundações do heavy metal.

Dio tomou a melhor decisão possível:

não tentou ser Ozzy.

Heaven and Hell, lançado em 1980, não tentou reproduzir o Sabbath da década anterior. A voz era diferente, as melodias assumiam outras possibilidades e a própria personalidade da banda se transformava. Mob Rules ampliaria essa segunda identidade no ano seguinte.

Pouquíssimos vocalistas tiveram a tarefa de substituir uma figura tão identificada com uma banda e conseguiram construir uma segunda era que também seria tratada como clássica.

Dio conseguiu.

E talvez seja aqui que eu precise fazer uma pequena confissão.

NÃO CONTA PARA NINGUÉM, MAS EU SOU TIME DIO

Eu adoro Ozzy Osbourne.

Seria absurdo tentar diminuir sua importância para o Black Sabbath ou para o heavy metal. Existem músicas do Sabbath que pertencem àquela voz estranha, sombria e absolutamente particular de Ozzy.

Mas, se a discussão for exclusivamente performance vocal

Não conta para ninguém:

eu sou time Dio.

Já era naquela época.

Talvez justamente por isso Heaven and Hell e Mob Rules sempre tenham ocupado um lugar especial para mim. Dio não fazia o Sabbath soar melhor ou pior que Ozzy. Fazia soar diferente.

E eu gostava muito daquela diferença.

QUANDO O METAL LEVANTOU OS CHIFRES

Há uma imagem praticamente inseparável de Ronnie James Dio: a mão levantada formando aquilo que o metal transformaria em seus famosos “chifres”.

Mas existe uma correção importante nessa história.

Dio nunca afirmou ter inventado o gesto. Em entrevistas, explicou que o conhecia através de sua avó italiana. Era relacionado ao malocchio, o “mau-olhado”, e podia ser utilizado como forma de proteção. Ao entrar no Black Sabbath, não queria simplesmente repetir o sinal de paz que Ozzy havia tornado característico. O gesto que fazia parte de suas referências familiares acabou se tornando sua marca.

Dio não criou aqueles dois dedos.

Mas ajudou decisivamente a transformá-los em parte da linguagem do heavy metal.

Hoje alguém pode levantar a mão daquele jeito em Porto Alegre, Birmingham, Tóquio ou Helsinque e dificilmente precisará explicar o significado.

Isso também é legado.

HOLY DIVER: AGORA O UNIVERSO ERA DELE

Quando Dio deixou o Black Sabbath no início dos anos 1980, poderia ter passado o restante da carreira sendo apresentado como “ex-Rainbow” ou “ex-Black Sabbath”.

Em vez disso, criou sua própria banda.

Holy Diver chegou em 1983 e colocou naquele universo músicas como “Stand Up and Shout”, “Holy Diver” e “Rainbow in the Dark”. Vieram depois The Last in LineSacred HeartDream Evil e outros trabalhos que consolidaram Dio como entidade própria.

Agora não existia Blackmore.

Não existia Iommi.

O castelo era dele.

A iconografia fantástica, as letras, as criaturas, os conflitos entre luz e escuridão e aquela voz estavam finalmente reunidos sob um único nome.

Dio.

Três letras eram suficientes.

1992: EU TINHA 15 ANOS E DIO ESTAVA VOLTANDO PARA O BLACK SABBATH

E então chegamos à parte desta história em que fica impossível para mim continuar escrevendo apenas como jornalista.

Em 1992 eu tinha 15 anos e trabalhava em uma das videolocadoras da minha família. Ganhava muito pouco, mas aquele dinheiro tinha destinos muito importantes para um adolescente: discos, fitas, revistas e shows.

Naquele ano apareceu um que eu simplesmente precisava assistir.

Ronnie James Dio tinha voltado para o Black Sabbath.

Eu já era fã do Sabbath e de Dio. Já conhecia toda a discografia da banda e gostava muito da primeira passagem dele por ali. Portanto, quando soube que Dio havia retornado, que existia um disco novo e, principalmente, que aquela formação viria ao Brasil, aquilo foi um acontecimento para o guri de 15 anos que eu era.

O álbum era Dehumanizer.

Lançado na Europa em 22 de junho de 1992, o disco reunia Dio, Tony Iommi e Geezer Butler na composição, com Vinny Appice novamente na bateria. Apenas um dia depois do lançamento europeu, a turnê começou em São Paulo.

O Brasil não estava no final daquela excursão.

Estava no começo.

E Porto Alegre estava na rota.

JUNTANDO DINHEIRO PARA VER UM MONSTRO

Eu não lembro quanto custou o ingresso daquele show.

E prefiro admitir que a memória apagou o número a inventar um valor três décadas depois.

Lembro, entretanto, do que aquele ingresso representava.

Eu ganhava pouco trabalhando na locadora e precisei guardar dinheiro durante meses. Naquele mesmo ano assistiria também ao Iron Maiden no Gigantinho e lembro do ingresso custando algo em torno de Cr$ 40 mil. Era 1992, ainda na época do cruzeiro, em um Brasil no qual os números impressos nos preços envelheciam rapidamente por causa da inflação.

Aos 15 anos, porém, minha compreensão econômica era muito mais simples.

Eu queria ver o Black Sabbath.

Precisava juntar dinheiro.

E juntei.

No dia 1º de julho de 1992, a Dehumanizer Tour chegou ao Gigantinho, em Porto Alegre. Os registros da excursão confirmam aquela apresentação com Dio, Tony Iommi, Geezer Butler, Vinny Appice e Geoff Nicholls.

Eu estava lá.

AQUELE MONSTRO DE UM METRO E SESSENTA E POUCOS

Existem lembranças que preservamos com precisão absurda e outras que vão perdendo detalhes.

Mais de três décadas depois, não consigo reconstruir cada minuto daquela noite. Não lembro exatamente de onde assisti a todas as músicas, de cada conversa ou de todos os detalhes da chegada ao Gigantinho.

Mas algumas sensações permanecem.

Uma delas é olhar para Dio.

Aquele sujeito tinha pouco mais de um metro e sessenta e, quando começava a cantar, parecia uma coisa completamente incompatível com suas dimensões físicas.

Ver aquele monstro de um metro e sessenta e poucos era demais para um guri de 15 anos.

Eu já conhecia aquela voz.

Tinha ouvido Rainbow. Tinha ouvido Heaven and HellMob Rules e a carreira solo. Sabia o que Ronnie James Dio conseguia fazer dentro de um estúdio.

Mas uma coisa é ouvir uma voz saindo dos alto-falantes de casa.

Outra é sentir aquela voz saindo de um palco na sua frente.

A VOZ QUE OCUPAVA O GIGANTINHO

O repertório daquela turnê era quase uma aula sobre as diferentes identidades do Black Sabbath.

O set registrado para a Dehumanizer Tour começava com “The Mob Rules” e passava pelo então novo material — “Computer God”, “Time Machine”, “Master of Insanity”, “After All (The Dead)”, “I” e “TV Crimes” — enquanto recuperava “Children of the Sea”, “Heaven and Hell”, “Die Young” e “Neon Knights”. Dio também encarava músicas eternamente associadas à era Ozzy, como “War Pigs”, “Black Sabbath” e “Iron Man”.

O registro específico disponível para o Gigantinho apresenta essencialmente esse repertório. 

Hoje consigo olhar para isso e pensar em interpretação, técnica, controle e presença de palco.

Aos 15 anos eu não analisava nada disso.

Minha reação era muito mais simples:

como pode sair essa voz daquele cara?

Talvez essa pergunta adolescente explique Ronnie James Dio melhor do que qualquer análise técnica que eu possa escrever hoje.

Ele não parecia simplesmente cantar as músicas. Ocupava cada uma delas. Havia os gestos, a postura, a maneira de conduzir o público e aquela voz gigantesca saindo de um homem que, fisicamente, desapareceria ao lado de muitos outros frontmen.

Até começar a cantar.

Então todo o resto diminuía.

DEHUMANIZER NÃO ERA UMA VOLTA AO PASSADO

Há outra coisa que o tempo tornou mais clara para mim.

Aquela reunião não produziu um Heaven and Hell – Parte 2.

Dehumanizer era mais pesado, mais áspero e menos fantástico. “Computer God”, “TV Crimes”, “I”, “After All (The Dead)” e “Master of Insanity” apresentavam uma banda olhando para um mundo diferente daquele que existia em 1980.

Isso torna a passagem de 1992 ainda mais interessante.

Dio não havia voltado simplesmente para reproduzir a própria história com o Sabbath. Estava ajudando a escrever mais um capítulo dela.

Para mim, porém, havia algo inevitavelmente histórico naquela noite.

Eu estava vendo Tony Iommi, Geezer Butler, Vinny Appice e Ronnie James Dio.

Os nomes que estavam impressos nos meus discos agora estavam alguns metros à minha frente.

Quando se tem 15 anos, isso significa muito.

Quando se chega aos 49 e percebe que aquela noite continua guardada na memória, entende-se que significava ainda mais do que parecia.

DIO AINDA TINHA OUTRA VOLTA PARA DAR

A reunião de 1992 não duraria.

Dio deixaria novamente o Sabbath naquele mesmo ano, e sua carreira seguiria por outros caminhos. Mas a história entre aqueles músicos ainda teria um capítulo importante.

Anos depois, Dio, Iommi, Geezer Butler e Vinny Appice voltariam a trabalhar juntos sob o nome Heaven & Hell, preservando uma identidade específica para aquela formação. Era uma maneira elegante de reconhecer que existiam diferentes universos dentro da história do Black Sabbath.

Dio ainda tinha aquela voz.

Ainda tinha aquela presença.

Ainda levantava os mesmos dedos que milhões de fãs passaram a levantar de volta para ele.

Até que, em 2010, a história terminou cedo demais.

Ronnie James Dio morreu em 16 de maio de 2010, após enfrentar um câncer no estômago. Sua carreira havia atravessado mais de cinco décadas. 

Mas eu não quero terminar este texto em 2010.

Quero voltar para 1992.

O GURI DE 15 ANOS AINDA ESTÁ NO GIGANTINHO

Ronnie James Dio deixou discos suficientes para que alguém consiga atravessar diferentes fases do heavy metal apenas seguindo sua voz.

Há o garoto chamado Ronald Padavona.

Há Elf.

Há Rainbow.

Há Black Sabbath.

Há Dio.

Há Heaven & Hell.

Há “Stargazer”, “Heaven and Hell”, “Neon Knights”, “Holy Diver”, “Rainbow in the Dark” e tantas outras músicas que continuam tocando muito depois de sua morte.

Há também os chifres levantados em praticamente qualquer show de metal do planeta.

Tudo isso ajuda a explicar seu tamanho.

Mas quando penso em Ronnie James Dio, existe uma imagem que nenhuma biografia consegue substituir.

Porto Alegre.

Gigantinho.

1º de julho de 1992.

Eu tinha 15 anos. Trabalhava numa videolocadora da minha família, ganhava pouco e tinha passado meses guardando dinheiro para estar ali.

Na minha frente estavam Tony Iommi, Geezer Butler e Vinny Appice.

E no centro de tudo estava aquele sujeito pequeno.

Então Ronnie James Dio abriu a boca.

E, de repente, não existia absolutamente nada pequeno naquele palco.

Texto: Giovanni Maglia

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