Mesmo com pouco mais de meia casa no Auditório Araújo Vianna, o Angra encontrou um público disposto a transformar a celebração de Holy Land em uma noite de coro, memória e renovação. Alirio Netto encarou um dos repertórios mais exigentes da banda e saiu de Porto Alegre com a aprovação dos fãs.

Há algo especialmente delicado em mexer com a memória afetiva de um fã de heavy metal. Quando o disco em questão é Holy Land, essa responsabilidade cresce ainda mais. Lançado em 1996, o segundo álbum do Angra ajudou a estabelecer uma identidade que ia muito além do power metal, incorporando elementos progressivos, arranjos sinfônicos, passagens acústicas e referências à música brasileira. Trinta anos depois, a banda decidiu colocá-lo novamente no centro do palco.
Foi com essa proposta que o Angra chegou ao Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, na noite de 27 de setembro, com a Holy Land 30th Anniversary Tour. Havia ainda outro elemento aumentando a expectativa: esta é a nova fase do grupo, agora com Alirio Netto nos vocais, acompanhado por Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa nas guitarras, Felipe Andreoli no baixo e Bruno Valverde na bateria.
O público ficou em pouco mais de meia casa, abaixo do que um espetáculo dessa dimensão poderia sugerir. Mas números, nesse caso, contam apenas uma parte da história. Quem esteve no Araújo Vianna compensou os lugares vazios com participação. E muita.
HOLY LAND DE VOLTA AO SEU LUGAR
A introdução de “Crossing” serviu como passagem direta para 1996. Na sequência, “Nothing to Say” deixou claro que aquela não seria uma noite em que o público permaneceria confortavelmente sentado.
E isso tem um significado particular no Araújo Vianna.
Estamos falando de um auditório com cadeiras, mas bastaram os primeiros momentos para boa parte da plateia ficar em pé. Os refrões eram cantados em coro, braços se levantavam e a distância natural entre palco e público criada pela configuração do local praticamente desapareceu.
“Silence and Distance” veio antes de um dos grandes momentos do repertório, “Carolina IV”, composição que talvez sintetize como poucas a proposta de Holy Land. Heavy metal, progressivo e referências brasileiras convivem dentro da mesma música sem parecer peças artificialmente encaixadas.
Depois vieram “Holy Land”, “The Shaman”, “Make Believe”, “Z.I.T.O.”, “Deep Blue” e “Lullaby for Lucifer”, completando a viagem pelo álbum.
Ouvir Holy Land na íntegra três décadas depois também evidencia como aquele disco se recusou a seguir o caminho mais óbvio depois da repercussão de Angels Cry. A própria apresentação oficial da turnê destaca justamente esse salto musical, quando o Angra ampliou sua linguagem incorporando elementos que ajudariam a diferenciá-lo internacionalmente.
ALIRIO NETTO DIANTE DO PASSADO DO ANGRA
Talvez a maior interrogação da noite estivesse justamente atrás do microfone.

Trocar o vocalista de uma banda nunca é algo pequeno. No caso do Angra, essa cadeira carrega um peso ainda maior. O público conhece cada inflexão, cada nota e cada interpretação de músicas que o acompanham há décadas. E quando a proposta é executar Holy Land inteiro, a comparação é praticamente inevitável.
Alirio Netto entrou no palco tendo que lidar com tudo isso.
A apreensão inicial existia. Era perceptível aquela curiosidade de descobrir como o novo vocalista se comportaria diante de um repertório tão identificado com outra época da banda. Mas ele não precisou de muito tempo para conquistar o público gaúcho.
O mais interessante foi perceber que a resposta não veio simplesmente da tentativa de reproduzir o passado. Alirio precisou encontrar seu espaço dentro dessas músicas, respeitando suas características sem transformar o show em exercício de imitação.
E Porto Alegre respondeu.
Os coros cada vez maiores e a interação da plateia mostravam que aquela barreira inicial estava sendo derrubada música após música. A formação com Alirio, Rafael Bittencourt, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli e Bruno Valverde já vinha sendo apresentada oficialmente como o Angra desta fase, inclusive em registros recentes da própria banda, e o show no Araújo Vianna deu ao público gaúcho a oportunidade de conferir essa configuração dentro de um repertório particularmente simbólico.
NÃO ERA APENAS UMA NOITE DE NOSTALGIA
Encerrar a execução de Holy Land não significou encerrar a história.
O segundo trecho do show abriu espaço para outras fases da carreira, e essa escolha foi importante para que a apresentação não se transformasse simplesmente em uma celebração congelada em 1996.
“Angels and Demons” levou o repertório para Temple of Shadows, enquanto “Stand Away” recuperou Angels Cry. Já “Tide of Changes – Part I” e “Tide of Changes – Part II” colocaram material mais recente no mesmo palco dos clássicos.

Essa passagem entre diferentes épocas também serviu para Alirio mostrar que sua função dentro do Angra não está restrita a interpretar Holy Land. O desafio real começa justamente quando músicas gravadas por diferentes vocalistas passam a conviver dentro de um mesmo show.
A versão de “Wuthering Heights”, de Kate Bush, historicamente associada ao repertório do Angra, aumentou ainda mais o tamanho do desafio vocal antes de “Waiting Silence” preparar o terreno para a reta final.
Então vieram aquelas músicas que praticamente dispensam convite para o público cantar.
“CARRY ON”, “REBIRTH” E UM ARAÚJO VIANNA EM PÉ
Se durante boa parte da noite as cadeiras do Araújo Vianna já haviam se tornado quase decorativas, “Carry On”consolidou essa transformação.

O público cantou junto e fez o auditório parecer mais cheio do que efetivamente estava. Talvez essa seja a melhor maneira de explicar a apresentação: não houve lotação, mas houve entrega.
“Rebirth” ainda colocou frente a frente duas fases fundamentais da história do Angra antes de a banda deixar o palco.
Naturalmente, ainda faltava uma.
No bis, “Nova Era” encerrou a apresentação recorrendo a outra música profundamente enraizada na memória dos fãs e completou uma noite que começou olhando para 1996, mas terminou deixando uma pergunta muito mais interessante sobre o futuro.
O PASSADO CONTINUA, MAS O ANGRA TAMBÉM
Uma turnê de aniversário corre sempre o risco de virar apenas nostalgia. O disco é tocado, as lembranças são acionadas e todos voltam para casa satisfeitos por terem revisitado determinada época.
Em Porto Alegre, houve isso, evidentemente. Holy Land merece a celebração. Trinta anos depois, continua sendo um álbum fundamental para compreender por que o Angra encontrou uma identidade própria dentro do metal brasileiro e conseguiu projetá-la muito além do país. A turnê foi concebida justamente para revisitar esse momento decisivo da banda.

Mas havia outra história acontecendo no Araújo Vianna.
Era a história de uma banda novamente aprendendo a existir com uma nova voz.
Alirio Netto chegou a Porto Alegre carregando inevitavelmente a expectativa de um público que conhece essas músicas há décadas. Encontrou pouco mais de meia casa, mas uma plateia que decidiu ficar em pé, cantar e participar.
Quando as últimas notas de “Nova Era” ecoaram pelo auditório, a sensação era de que a pergunta inicial já não importava tanto.
Não era mais apenas “como será o Angra com Alirio Netto?”.
Porto Alegre já havia começado a descobrir a resposta.
SETLIST — ANGRA | PORTO ALEGRE — 27/09/2026
Holy Land: “Crossing”, “Nothing to Say”, “Silence and Distance”, “Carolina IV”, “Holy Land”, “The Shaman”, “Make Believe”, “Z.I.T.O.”, “Deep Blue” e “Lullaby for Lucifer”.
Demais músicas: “Angels and Demons”, “Stand Away”, “Tide of Changes – Part I”, “Tide of Changes – Part II”, “Wuthering Heights”, “Waiting Silence”, “Carry On”, “Rebirth” e, no bis, “Nova Era”.
A formação que se apresentou nesta fase reúne Alirio Netto (vocal), Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Bruno Valverde (bateria).
Texto: Giovanni Maglia
Fotos: Glauco Malta
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