Do quarto de ensaio aos palcos de grandes festivais, a URDZA construiu sua trajetória com riffs afiados, letras densas e uma amizade que atravessa décadas. Em 2024, o lançamento do álbum A War With Myself marcou um divisor de águas, levando a banda para turnês ao lado de nomes como Saxon, Angra e Burning Witches — e consolidando seu lugar no cenário do metal nacional.

Agora, prestes a celebrar um ano desse trabalho conceitual e intenso com um show especial no The Metal Bar, em São Paulo, a banda conversou conosco sobre origem, influências, o peso das guerras internas e a importância de manter viva a chama do som autoral.

Entre risadas, lembranças e reflexões, Heitor Prado (vocal), Hugo do Prado (guitarra), Gustavo Corrêa (guitarra), Diego Rodrigues (baixo) e Igor Mota (bateria) abriram o jogo sobre o passado, o presente e o que vem pela frente para essa família do metal.

1. Pra começar, contem pra gente: como e quando nasceu a URDZA? Qual foi o ponto de partida que uniu vocês como banda?

R: A Urdza como banda existe há uns 7 ou 8 anos mais ou menos. Começamos como cover de Iron Maiden no passado e um certo dia percebemos que não era bem aquilo que gostaríamos. Nos shows que apareciam, era sempre a foto do Iron Maiden e o nosso nome pequeno nos flyers, alguma coisa estava errada e aí veio a ideia de começar a criar algo. Algumas composições já existiam e precisavam de um polimento, algo a mais, sabe? Daí veio a pandemia e começamos a gravar em casa as demos e o resto é história rs

2. O nome URDZA tem um impacto forte e uma sonoridade marcante. De onde veio esse nome e o que ele representa pra vocês?

R: O nome veio do jogo Magic: The Gathering! Na época da escola nós jogávamos e o game foi crucial pra montar a nossa amizade. Eu (Heitor – Vocalista) e o Hugo (guitarra) somos irmãos, então certamente tinha uma sinergia inicial nessa história, fora o Gustavo (guitarra) que foi meu primeiro amigo no colégio. Então hoje pra nós Urdza vai além do jogo, significa amizade, do nosso jeito, uma palavra só nossa.

3. Cada banda tem uma essência. Como vocês definiriam a identidade musical da URDZA hoje?

R: Isso é algo curioso, sabemos como criar algo que soe “Urdza”. Quando estamos em um ensaio e alguém fala “Olha o que compus” e daí nas primeiras notas a gente fala “é muito Urdza isso”, é difícil de explicar! Mas nas nossas referências sempre temos a essência do Thrash com Anthrax, Annihilator, Megadeth, algo do heavy metal com Maiden, Judas Priest. Nessa mistureba sai Urdza

4. Quais são as principais influências — não só musicais, mas também filosóficas, estéticas ou até cinematográficas — que moldaram o som e a proposta da banda?

R: A banda tem muita referência de games, sempre nos reunimos pra fazer alguns campeonatos, trocamos jogos e com certeza isso influenciou muito a gente. Quando queremos algo específico, nós comentamos “aquela música do Metal Gear, acho que cabe aqui” e o outro já sabe o caminho, é engraçado! Pra letras, sempre tento puxar algo pra uma linha que fale algo sem falar diretamente e trazer um estilo sombrio, como uma literatura russa, que nos faz pensar a natureza humana. O disco todo fala sobre como podemos ir do céu ao inferno rapidamente.

5. A War With Myself é um disco denso, emocional e técnico. Como foi o processo de composição e gravação desse álbum?

R: O processo foi simples, dada a complexidade das músicas e letras. Temos um processo de composição bem arcaico, vamos sempre criando camadas de riffs e entendendo onde cada um se encaixa e adaptamos. Inicialmente tínhamos um tema base e as demais músicas se encaixaram nisso. A música “A War With Myself” tem 11 anos de vida, compus ela durante a Copa do Mundo no Brasil, rs. A partir disso o disco se desenhou e foi surgindo “Wrath of God” que é uma continuação direta da música anterior.

O título carrega um peso pessoal. Essa guerra interna é algo que atravessa todos da banda? Como essa temática se reflete nas músicas?

R: O peso do título é proposital. Guerras internas sempre estão travadas, mas como falar disso de uma maneira aberta e clara? Ilustramos vários estágios de um personagem que está ouvindo vozes, ora ela é boa, ora ela é má e isso acarreta um suicídio por causa de algo que o perturba. Ao passar deste estágio, ele encontra um Deus que era totalmente o contrário do qual ele venerava, e aí? O pecado de tirar a própria vida é universal entre os Deuses, como penitência, ele enfrenta a ira divina e volta ao corpo falho e fraco em busca de redenção. O Disco fala, acima de tudo, de enfrentar seu caos e se encontrar no final, mais forte, renascido do fogo.

7. O álbum está completando um ano. O que mudou na banda — e em vocês — desde o lançamento até agora? R: Eu jamais pensaria que em um ano eu teria conhecido o Saxon, por exemplo rs. Cresci ouvindo eles, meu pai era um fã absurdo deles, foi uma honra pra mim representar uma das pessoas mais importantes da minha vida, ao lado dos meus amigos de infância e o meu irmão. Fora as amizades que criamos que são pessoas incríveis, com menção absurda ao Leandro Caçoilo (Viper) que é um cara de coração incrível e que com certeza virou um amigo e o sexto membro da banda, de tanta luz que ele nos traz. Fora as viagens, as conversas e muita história pra contar. Esse ano foi incrível e muito mais virá! Pra quem veio de uma cidade pequena de São Paulo chamada Poá e se viu nas principais capitais do país, correndo em turnê com gigantes do metal mundial, é uma vitória absurda, até agora não consigo acreditar, mas com certeza, estamos maiores e mais fortes

8. Qual faixa do disco vocês acham que melhor representa a alma da URDZA, e por quê?

R: Pra nós, sem dúvida é a “War With Myself”, a primeira a ser composta, escrita. Cada um da banda tem a sua preferida e que representa. Hoje quando tocamos “Dawn Predator” percebemos uma energia a mais e a troca de olhares do tipo “nossa essa música é muito boa mesmo” e nos divertindo tocando. Acho que uma só fica muito difícil de ser a alma, mas com certeza essas duas são as preferidas de tocar

9. Como surgiu a ideia de fazer esse show especial de aniversário tocando o disco na íntegra? Foi algo que os fãs pediram ou partiu de vocês?

R: Como vamos participar da Conecta+ (antiga expomusic) pensamos em ter um evento pra nos aproximar das pessoas que estarão lá na feira. Mas a data coincidiu com o aniversário do disco e eu (Heitor) queria fazer algo para comemorar este marco e alguns amigos pediram algum show, uma live e pensei melhor, vamos tocar no The Metal, que é onde a banda começou, fez a primeira aparição, é um ótimo processo de ciclo. Foi um misto das pessoas que acompanham a banda e nosso desejo.

10. A participação do Leandro Caçoilo eleva ainda mais o evento. Como surgiu essa parceria e o que podemos esperar dessa colaboração no palco?

R: O Leandro é nosso sexto membro, meu professor de voz, produtor do disco, ele é um dos principais responsáveis pela banda se manter viva, lá no passado, antes de concluirmos as gravações do disco, estava conosco em um bar e nos fez acreditar cada vez mais nesse sonho. Hoje ele é amigo pessoal e convidamos ele pra fazer parte deste dia especial, pra mim é a realização de um enorme sonho, dividir o palco com meu maior ídolo da infância e amigo. Com certeza quem for nesse dia, vai se encantar com a festa que estamos preparando!

O The Metal Bar tem se tornado um espaço de resistência para o metal autoral. Como vocês enxergam a importância desses lugares hoje?

R: O The Metal Bar é um templo na cidade, são 5 anos de tradição, recebendo diversos artistas, servindo de espaço para vozes novas, novas bandas, novos projetos. Todos lá estão sempre com um sorriso no rosto, um ótimo drink e um lanche absurdo de bom, rs. Um lugar que com certeza será eterno pra nós. Hoje temos muitas casas de shows que as bandas lutam para ter um espaço, mas sempre esbarram no cover, nas bandas tributos e pouca gente vai para curtir um som autoral. O The Metal sempre tem membro de banda curtindo o lugar, assistindo a um clipe, ouvindo um som, é perfeito. Pra mim é a minha segunda casa, sempre estamos por lá, é essencial.

12. O cenário do metal nacional sempre oscilou entre força e dificuldade. Como vocês enxergam a cena atual, especialmente em SP e no underground?

R: Hoje as bandas são bem mais unidas, sem dúvida. Vemos apoio sempre, seja em um engajamento em rede social, algum membro que vai fazer participação no single da outra banda e por aí vai. Também vejo uma luta bacana contra algumas práticas ruins do mercado, sempre que aparece alguma proposta arrombada, as bandas comentam “olha isso aqui aconteceu, vamos lá reclamar” e sempre dá certo. Claro que vez ou outra a luta é mais pesada, fazer material de divulgação, por exemplo, tem um custo alto e as bandas se apoiam. Vemos uma profissionalização vindo inclusive no underground para que ele aconteça com muita qualidade, é um excelente momento, hoje enxergo como positivo.

13. Como é a dinâmica de vocês como banda? O processo criativo é coletivo? Há alguém que centraliza letras, arranjos, ideias visuais?

R: A coisa toda é muito simples. O processo criativo é até arcaico na minha leitura, rs. Um manda um áudio no WhatsApp de um riff e salvamos numa pasta e vamos sempre revisitando aquilo. De tempo em tempo a gente fala “opa, isso aqui casa com aquela ideia lá” e o lego vai ficando pronto, rs. Parece bizarro, mas funciona. Depois de tudo isso, dividimos as letras entre eu (Heitor) e o meu irmão (Hugo – guitarra) e com o tema da música definido fica mais fácil. As ilustrações da banda ficam a encargo do Hugo que é um artista incrível. Mas apesar de passar muito por nós dois, todos da banda têm voz para mexer no que está estranho, a banda toda tem momentos de discussão que é até divertido, somos muito amigos, é fácil pra gente.

14. Já existem planos para um novo álbum ou single? Podemos esperar novidades da URDZA em breve?

R: Ainda vamos esperar mais um pouquinho para alguma coisa nova, eu garanto que a espera vai valer a pena, temos algumas ideias em curso, mas nada concreto. Queremos aproveitar o máximo do War With Myself, vamos para um festival gigante agora, saímos em turnê com o Saxon, abrimos show do Angra, conhecemos a Burning Witches, vamos aproveitar esse momento ao máximo e logo vem coisa boa por aí, garanto a todos.

15.Pra fechar: o que vocês gostariam que o público sentisse ou levasse pra casa depois de assistir a um show da URDZA?

R: Eu como vocalista sou um sonhador, sempre sonhei em estar nos palcos com o Leandro Caçoilo, Andre Matos, Pit Passarell e vários outros músicos fodas. Sempre fui assistir aos shows e pensava que um dia seria eu ali e de tanto sonhar e trabalhar eu consigo estar lá também. Então quero dividir esse sonho com cada pessoa que está assistindo ao show, que se sinta parte de nós, que criemos conexões. Eu sempre mostro meu lado sensível pra mostrar o quão feliz estou de estar ali e aproveitar cada segundo, seja um show curto de 30 minutos ou o festival gigante de 1 hora. Eu sempre quero estar com um sorriso no rosto e receber outro de volta. A banda não tem nenhum ego e queremos construir uma unidade só nossa, onde podemos dividir sempre, a Urdza é uma enorme família que começou com os amigos da infância e tem crescido de uma forma bacana. Se eu fizer um amigo durante um show nosso, já sei que estamos bem! Pra mim é dividir o momento, a história e o carinho

Entrevista e fotos Por: GM

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