O álbum Magia é um manifesto de linguagem insurgente. Budang constrói uma obra onde a língua é arma, o som é protesto e a variação rítmica é identidade.
Um marco enquanto disco, debutante, Magia é a tradução sonora e poética das ruas como território de invenção e resistência, herdeira direta de tradições que me remeteram do Gualín do TTK, ao Pajubá, e a oralidade dos becos, canteiros e lares subversivos. Budang se utiliza de um sistema linguístico próprio uma “fala torcida”, cheia de inversões, contrações e distorções fonéticas (“Feisóvemintaopégah”, “nóis havasse”, “Tiarranca daqui Tendesse não”).

Essa escolha não é apenas estética: é política e regional dos rincões de Florianópolis, formada por Guilherme Larsen Güths (voz), Vinícius Lunardi (guitarra), Pedro Sabino (baixo) e Felipe Royg (bateria), a Budang tem uma trajetória de show frenéticos e explosivos pelo Brasil, tendo dividido o palco com vários grandes nomes do cenário como Sangue de Bode, Bayside Kings e Sugar Kane… lançando 4 singles, um EP e um split. O álbum transforma “erro” silábico em estilo, a dissonância em significado, a confusão em identidade. Sua “fala codificada” é um território seguro, onde só quem vive a rua decifra uma língua para quem está dentro, não para quem observa de fora. A linguagem, aqui, é como o muro pichado; um texto que o sistema não entende, mas que os pares reconhecem de longe.
Musicalmente, Magia traduz o caos urbano e a fala fragmentada por meio de estrutura rítmica distorcida e melodias instáveis, que se quebram e recombinam como o dialeto falado nas ruas. O resultado é uma oralidade sonora pois Budang fala como toca; rápido, ríspido, sujo, real. O som funciona como espelho da fala codificada com riffs curtos e urgentes, frases de protesto e quebras de ritmo com variações melódicas que refletem a imprevisibilidade cotidiana, aqui a distorção não é defeito é a textura da verdade e eu gosto muito disso aqui!

Magia se encaixa na linhagem da cultura alternativa urbana brasileira, a mesma que nasce do punk dos anos 80, do rap dos anos 2000 e da cena independente, é underground que trazem temas como trabalho que adoece na faixa “Mágica), vício e recaída nas faixas “Aditivos” e “Budangól”, crítica política em “Bolsonanny”, e frustração cotidiana na excelente “1406”, estes que revelam uma narrativa de sobrevivência coletiva. O álbum inteiro é um diário da vida sob pressão, narrado em tempo real, sem filtro, com a sinceridade áspera da rua.
O título Magia não é acaso ao meu ver “magia” aqui é o ato de transformar dor, precariedade e raiva em arte sonora e a cada faixa, o ouvinte é convidado a atravessar um espelho estilhaçado, onde a linguagem formal se dissolve e renasce como fala viva um dialeto de sobrevivência. A “magia” do título não é mística; é social. É o poder de fazer existir um mundo dentro do outro, o poder de quem, mesmo invisível, ainda fala alto. Essa magia é o feitiço das ruas, o mesmo que fez da opressão um dialeto, e que agora, nas mãos de Budang, faz do ruído uma língua. O álbum, com seu ritmo cortante e colagens melódicas imprevisíveis, traduz o que nenhuma gramática consegue conter, ouça por si mesmo a fúria de quem vive à margem, a poesia de quem não cabe, e o riso de quem resiste.








Deixe uma resposta