
Na noite de 19 de outubro, o Bar Opinião, em Porto Alegre, foi tomado por uma névoa densa e uma energia quase ritualística. Sob as luzes azuladas e o clima de saloon pós-apocalíptico, o The Dead South entregou uma performance cinematográfica que transportou o público para um velho oeste distorcido — onde o banjo substitui o revólver e as histórias são contadas com cordas e vozes roucas.
Antes mesmo do primeiro acorde, o cenário já revelava a identidade da banda. Quatro estandartes pendurados exibiam ícones — uma gravata, uma barba, um crânio bovino e um uma gravata de laço — símbolos que representam o imaginário rústico e excêntrico do grupo canadense. Quando os músicos surgiram, trajando camisas brancas, suspensórios, chapéus largos e botas gastas, o público, quase lotando o Opinião, respondeu com uma explosão de aplausos.
Era o início de um ritual.
O show abriu com “Snake Man Pt. 2”, uma introdução que funcionou como um chamado de guerra. A sequência com “20 Mile Jump” e “Son of Ambrose” manteve o ritmo acelerado, impulsionado pelo cello de Danny Kenyon, que tocava com intensidade visceral — ora percutindo o instrumento, ora extraindo notas que soavam como lamentos de um blues esquecido.
Com “Boots” e “Yours to Keep”, a banda mergulhou em atmosferas mais introspectivas, mostrando o equilíbrio entre o caos rítmico e a melancolia poética. Mas foi com “Black Lung” e “That Bastard Son” que o público pareceu entrar em transe, batendo palmas no tempo das cordas e cantando em coro como se fizesse parte de uma seita do folk sombrio.
O auge emocional veio com “In Hell I’ll Be in Good Company”, a música que tornou o The Dead South conhecido mundialmente. A plateia respondeu com vozes uníssonas, celulares erguidos e olhares brilhando sob o feixe de luz que cortava a fumaça. Um daqueles momentos em que o tempo parece parar — e o inferno, de fato, parece um bom lugar se for ao som de uma banda dessas.
No bis, o grupo voltou para um bloco que misturou humor, virtuosismo e melodia. “Clemency” e “Completely, Sweetly” foram interpretadas com leveza e precisão, enquanto “Travellin’ Man” e “Banjo Odyssey” encerraram a noite em clima de festa, com o público dançando e batendo palmas como se estivesse num celeiro perdido nas pradarias canadenses.
O The Dead South provou que não precisa de guitarras distorcidas nem baterias ensurdecedoras para ser intenso. Sua força está na teatralidade, na entrega e na capacidade de fazer um violoncelo soar como um trovão.
O show no Opinião foi uma experiência sensorial — um encontro entre o folk tradicional e o espírito do rock’n’roll, entre a nostalgia e a estranheza.
Quando as luzes se apagaram, ficou no ar a sensação de ter presenciado algo raro: um espetáculo que faz o público viajar sem sair do lugar.






























Deixe uma resposta