Sobre Morte e Vida, segundo EP da Austera, lançado no dia 4 de novembro de 2025 pela Causa Mortis Records, se estrutura como um rito em quatro movimentos contínuos. Ao meu ver não há começo ou conclusão; cada parte se dobra sobre a subsequente como respirações de um mesmo corpo. O ensejo se desvela do particular e se encontra com o coletivo, onde corpo e cidade se confundem, onde memória é mais que lembrança é presença que resiste, onde morrer é processo e viver é esforço. Ambos simultâneos, ambos inacabáveis. Esse ciclo não oferece consolo. A lírica, a atmosfera e arte do EP expõem a experiência de existir em um mundo marcado por perdas, por estruturas que esmagam, por uma história que não cessa de retornar. O sarrafo qualitativo da banda vai lá em cima, pois todo EP é o prenuncio de Full-Length, como será que vem esse trabalho futuro? que responsabilidade senhoras e senhores e eu estou muito ancioso pra isso.

Três membros da banda Austera posam em uma rua do Rio de Janeiro, cercados por prédios e em uma atmosfera urbana clara e ensolarada.

A cada audição do album que tem 15 minutos de duração me saltava a mente o conceito de que a vida se sustenta na tensão entre continuidade e ruptura, e a morte não está ao fim da linha, ela é o que atravessa o caminho inteiro, como feridas abertas sendo que é justamente da permanência da ferida que nasce a força ritual e política desse segundo EP … uma continuidade direta do primeiro? não sei dizer.

A liturgia critica das quatro faixas acontece na atmosfera da cidade; não uma cidade abstrata, mas Rio de Janeiro, com sua monumentalidade europeia que inclusive esta retratada na capa do EP, este que é um trabalho artistico que harmoniza muito bem com o contexto e proposta do EP, parece que tudo aqui foi pensado com um propósito, o palácio de mármore, as colunas que afirmam um ideal de cultura elitizada e colonial, a mulher negra de postura forte e olhar intimidador, o simbolimos do Bate-Bola… essa construção te lembra algo?!

A presença dos corpos negros e periféricos diante dessa arquitetura, na capa fotografada por Laura Escada, reencena a Pietà longe do Vaticano agora no centro da Guanabara, sim, a Via-Crucis não atravessa Jerusalém, ela atravessa becos, viadutos, ônibus lotados, morros, trabalho precário, retorno ao bairro.

Uma mulher negra sentada em uma pose meditativa, vestida com uma longas saias amarelas, segurando uma figura de Bate-Bola com cabelo colorido, em frente a uma estrutura arquitetônica histórica do Rio de Janeiro.

“A ideia parte da intenção primordial da banda: falar a partir do lugar que viemos, o Rio de Janeiro. Essa cidade linda e única do ponto de vista cultural, mas também extremamente agressiva e opressora. Decidimos, então, usar a iconografia histórica da Pietá, uma escultura de mármore assinada por Michelangelo e hoje abrigada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, reinterpretando-a com elementos que remetem à nossa própria história, à nossa própria gente. Dessa forma, retratamos o título do trabalho com uma cena de morte, sob o olhar das vidas que por ela são atravessadas. As vidas desse lugar. Usamos, para isso, uma mulher negra (Vitória Eli) representação das principais vidas oprimidas desse lugar e um bate-bola, posando na frente do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Para as fotos, contamos com o olhar sensível e analógico da Laura Escada.”

Mallet (Guitarrista)

É nesse eixo que se revela “Paixão Segundo Goanã-Pará.” disparada a obra prima do album na minha opinião, Goanã-Pará significa “seio do mar” é o nome tupi anterior da Baía de Guanabara antes do processo de colonização essa baía interpretada como ventre, origem, água que dá forma pelos povos originários, ao invocar esse nome, Austera desloca a paixão do altar europeu para o corpo do território. A narrativa não é contada segundo Marcos, Lucas ou João, mas segundo o ventre-mar, segundo a cidade que sangra e ressuscita todos os dias.

Dentro desse percurso, a promessa de progresso aparece como montanha inalcançável (Deus Montanha) ascensão que exige sacrifício constante sem garantir chegada aqui vemos o mito moderno da salvação futura e isso me faz pensar que a colonialidade do poder é que decide quem sobe e quem sustenta a subida. Já em “Olhos Amarelos”, a dor se transforma em memória viva, memória que não fecha, mas permite caminhar. Não sei se foi intenção da banda mas aqui tem uma relação intrinseca entre Rainer Maria Rilke que diria, “a dor molda o eu” e Nietzsche que em contrapartida diria “a dor afirma a vida” Austera canta isso no corpo, eu vejo isso.

Finalizo essa interpretação, analizando a proposta de tempo inplicita na obra, quando o tempo se revela como repetição, não avança, a obra assume sua face profética busca não prever o futuro (contraditório? não!), mas reconhecer que ele já aconteceu num país condenado a reviver seus fantasmas que não imagina o amanhã e esta fadado a repetir fracassos, aqui, morte e vida se olham face a face uma sorri, a outra chora, por isso, o EP II: Sobre Morte e Vida não promete redenção, não oferece saída, não aponta paz, mas critico forte e depressivo afirma o ato de permanecer, mesmo ferido, mesmo cansado, mesmo sem garantia alguma.

A sonoridade desse rito é construída por Mallet (guitarra), Ismael (bateria) e Pedrito (baixo e voz) três corpos sustentando a vibração, o pulso e o grito. O EP foi gravado, produzido, mixado e masterizado por Mario Netto, no estúdio UMSÓ, em São Gonçalo, Rio de Janeiro território onde o som não é ornamento: é sobrevivência, testemunho e ferida acesa.

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