Cru, Teimoso e Vivo.

“Fardo 2025 representando o hardcore de São Gonçalo! SG, HC, Brasil!
HUULL, Arf, Arf!!”

Lançado no dia 6 de outubro de 2025, São Gonçalo Hardcore é um álbum que não tenta amenizar nada. Eu fico arrepiado ouvindo isso aqui… produzido, captado, mixado e masterizado por Telmo Rivera (@teteorivera), e com capa de João Dantas (@jxhnjxhn), o disco se apresenta já na primeira faixa não como introdução, mas como um aviso para que se mantenha longe.

Ilustração gráfica do álbum 'São Gonçalo Hardcore', com um personagem de capuz e traços estilizados, cercado por palavras em uma fonte artística e vibrante em tons de roxo e preto.

Introdução enfiada goela abaixo, o que se segue é a faixa “Doente” na qual se dá enquanto uma declaração direta de alguém que percebe a própria deterioração e não vê saída. É Franz Kafka (tenho lido bastante…) passado pelo moedor de beatdown hardcore, não há transcendência, apenas a experiência de estar preso a si mesmo. O eu lírico reconhece a falha, a estagnação, o ciclo. Sem cura, sem melhora, onde nada toca o centro endurecido, onde a dor já se acomodou como moradia permanente. Destaque para os riffs aqui que são pesados, melancólicos e com aquela tensão que só o mais violento e puro hardcore arrastado podem nos oferecer, é como se algo estivesse sempre prestes a romper, e isso ao vivo vai ser o inferno na terra. Aliás, me parece que tudo aqui foi pensado em performar no palco… back vocal, coral, pausas, tudo se alinha para uma atmosfera onde puxar o microfone se fará cada vez mais presente no ao vivo.

Em “Lembrança”, o álbum te joga em um abismo. A memória não é nostalgia, é cárcere. A vida é entendida como algo que se tentou justificar, provar, justificar de novo e ainda assim falhou. Poeticamente, aqui aparece o tema do aprisionamento interno onde não se trata de desejar escapar do mundo, mas de escapar de si, de um passado que continua mordendo, ao meu ver a música mais melancólica do álbum, é fúnebre e furiosa ao mesmo tempo bela e harmoniosa. Já em “Nova”, fica evidente a bela execução da banda aqui, destaque para a bateria que se abrilhanta numa espécie de crescendo musical, que deságua liricamente na constatação de que se não há cura, há destruição. A letra trata da raiva reprimida como força latente, algo que só encontra sentido quando liberado. Eu vi Héracles quebrando tudo no próprio sangue, tem tragédia grega aqui, realocada à periferia fluminense. Assim como nas tragédias de Ésquilo e Eurípedes, a transformação não vem de redenção, esperança ou vontade de continuar, mas vem da perda.

A mais curta e caótica “Não Fala Comigo”, funciona como agressão direta, que reforça todo o escopo apresentado até aqui, como quem coloca a mão na cara de alguém que não aprendeu a distância. É a borda do colapso virando comportamento. Hardcore clássudo, pique Caos do Ratos… simplesmente sem explicação, sem ornamento, só não fala comigo!

Três jovens posando em frente a uma porta, vestindo roupas de estilo urbano e streetwear, com expressões sérias e atitude confiante.

E então chega “Minha Armadura”, com a participação especial de Guilherme Kirk (Liträo, Clava, Últimos Diaz). Aqui, a catarse do álbum encontra seu ápice. A faixa é sobre identidade construída como defesa, como couraça moldada pela expectativa alheia. A voz, as pausas, o peso dos instrumentos tudo cria a sensação de alguém que está se despindo de uma carcaça que foi útil, mas agora sufoca. Ao vivo, essa faixa é inevitavelmente devastadora o momento de grito coletivo, do baque e do breakdown, de sentir o chão tremer no peito. É onde o disco mostra que a dor não é só introspectiva ela é compartilhada. Depois disso, “Jornada de Terror” leva o álbum para o território do horror físico. A violência aqui é simbólica, mas não alegórica, é direta. Em “Depois Daquele Dia (Eu nunca mais fui o mesmo)”, a narrativa se fixa numa ruptura. Um acontecimento marcante, definitivo, irrecuperável. O antes é morto. O depois é sobrevivência. “Tudo que eu criei já não importa mais.” É o momento da perda total como fundação de algo novo não porque se quer, mas porque é o que sobrou.

E por fim, “A Volta é Triste” fecha o álbum com a lógica da reciprocidade violenta, típica tanto da tragédia quanto da rua. “Quem humilha deve pagar.” Não há perdão, não há mediação. É a ética de quem viveu na falta e aprendeu a contar só com o que aguenta o peso. Esse encerramento além de triunfal, também é consequência direta da expressão cultural da banda, uma banda jovem porém com visão aguçada, decididos, e que sabem muito bem a mensagem que querem passar. São Gonçalo Hardcore não explica nada, não resolve nada, não encerra nada, simplesmente continua assim como quem sobrevive.

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One response to “São Gonçalo Hardcore – Fardo – Review”

  1. parabéns pela análise, esse é álbum é FODA! Viva o Fardo! Viva o Cogumelo Media!

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