Tenebroso, projeto individual e segundo full-length de Déspota, retorna com O Ceifador das Almas, um trabalho que se coloca na linhagem do black metal atmosférico e melancólico, mas que evita o excesso ornamental para manter um núcleo sonoro áspero, ritualístico e devoto ao sofrimento como experiência estética, é Black Metal tradicionalmente puro, facilmente um dos melhores álbuns nacionais do gênero no ano de 2025. O álbum nasce, segundo o próprio autor, da vivência direta da morte não como metáfora, mas como acontecimento íntimo, presenciado e atravessado no cotidiano. Esse dado é fundamental pois a morte não é ideologia, mas segundo o álbum é ato, presença e respiração.

Capa do álbum 'O Ceifador das Almas' da banda Tenebroso, com arte em preto e branco mostrando uma figura encapuzada segurando uma foice diante de um eclipse solar.

A produção é deliberadamente nítida e definida, eu ouvi esperando sujeira mas é relativamente limpa e você consegue identificar tudo aqui, o que permite identificar camadas de guitarras melódicas porém carregadas de tristeza, profanas e densas, estas, sustentam o álbum como uma paisagem contínua, é possível admirá-las por horas, se um dia a Tenebroso resolver se aventurar para uma pegada mais doom acredito que será absolute cinema.

O baixo aparece pouco, mas quando surge, reforça o peso de uma terra inóspita, que me remeteu bastante a artwork do álbum, criada por Tatiana Bellini (Obscure & Extreme Art.) @satvrnvs_noctvrna_art ; um chão estático sob o qual nada germina, o ceifador observando um eclipse num deserto (talvez gélido) reforça a ideia do álbum como não-esperança, não-renascimento, morte sem promessa de retorno onde não há inferno ardente nem salvação mas uma paisagem deserta onde o tempo cessou. O eclipse é a imagem final e sem esperança pois o sol continua existindo, mas sua luz não nos alcança. A bateria e a composição rítmica seguem uma lógica ritual, repetitiva, lenta e cavalgada, evocando processão, marcha fúnebre rumo ao purgatório.

O vocal é o elemento mais agressivo e nu desse trabalho ímpar de mixagem, seca, sem reverb, sem caverna, sem máscara, é um grito que não ecoa ele termina dentro da própria carne e evoca raiva, sofrimento, luto e possessão demoníaca, é agridoce, com pequenos trechos onde voz humana se faz presente vociferando poesias góticas que invocam o mal.

Capa do álbum 'O Ceifador das Almas' da banda Tenebroso, apresentando uma figura encapuzada segurando uma foice diante de um eclipse em um deserto silencioso.

As faixas seguem um ciclo contínuo, sem rupturas dramáticas; o álbum funciona como um único rito, um percurso que começa com o chamado (“Caminha Lentamente, O Triunfante Ceifador Encapuzado”) e se encerra na contemplação silenciosa da própria finitude (“Através da Serpente”). A repetição dos riffs opera não como simplicidade, mas como ferramenta hipnótica, empurrando o ouvinte para um estado meditativo, próximo da apatia lúcida diante da morte.

Já me encaminhando para o fim, destaco o começo, pois na minha experiência de audição deste álbum, num loop eterno, a faixa inicial (Caminha Lentamente, o Triunfante Ceifador Encapuzado) me serviu também como encerramento, pareceu ser uma oitava faixa imaginária pra mim, um melódico órgão sepulcral muito bem executado por Mortva (Sayuri Seto), @sayuri_seto da Sea of Sorrow @seaofsorrowband que abre o espírito para a morte sonora que há de vir nas faixas que se seguem, mas também que fecha o caixão pela eternidade sombria, fria e silenciosa.

O Ceifador das Almas é um álbum que não fala sobre a morte apenas, mas parece que ele vive nela, é nítido que alguém vivenciou a morte de perto e transformou essa experiência em música, um disco que entende o black metal não como espetáculo simbólico, mas como linguagem para experienciar o fim, lenta e inevitavelmente. Eu o definiria como doloroso e belo…e “Que o mal reine entre nós!” …

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