Na véspera do Dia da Consciência Negra, o Circo Voador não foi apenas palco: foi território, foi quilombo, foi trincheira. O que aconteceu ali ultrapassa a ideia de “show” foi ritual, documento histórico, grito coletivo gravado em DVD para ecoar por gerações.

Antes do impacto final, quem abriu o caminho foi a Punho de Mahin, incendiando a lona com um manifesto de carne, terra e sangue.
“Vermelha da cor da terra, vermelha da cor da pele…” e daí em diante, a poesia virou denúncia, a música virou arma e o palco virou fronteira de luta. A banda entrelaçou feminismo, resistência indígena, insurgência negra e solidariedade internacional. Gritou Marighella, fuzilou a PL da devastação e lembrou que a arte segue sendo o último bastião contra a máquina fascista que insiste em respirar.




Com o público em ebulição, a Punho de Mahin entregou o bastão para aquele que seria o momento mais poderoso do ano: o Black Pantera assumindo o palco em plena véspera de 20 de novembro como quem carrega uma ancestralidade inteira nos ombros.
E então, nada mais existiu além de explosão.

Mosh pit, roda punk, suor, corpo, voz, vibração.
“O que acontece agora é agora! ” e cada segundo parecia uma sentença, uma convocação.
O trio mineiro transformou o Circo Voador num território de resistência negra, uma celebração indomável onde cada riff era um levante e cada grito, um manifesto.
Entre a agressividade dos riffs e discursos que cortavam o ar como lâmina, veio um dos momentos mais emblemáticos da noite:
as mulheres no centro da roda.
Marias, Luizas, Martas, Marielles, Priscilas, Cecilias, Cleides, Sheillas — todas representadas ali, erguidas, celebradas. Uma cena que rompeu com qualquer padrão e reafirmou o protagonismo feminino dentro do underground.
E quando a Wall of Death dividiu a pista, o Circo parecia prestes a sair do lugar.
Era o Black Pantera mostrando por que, hoje, é impossível falar de punk/hardcore nacional sem colocar o nome deles no topo: urgentes, necessários, devastadores.

O repertório foi uma viagem por todo o universo da banda.
O peso do novo álbum Perpétuo com Boom, Provérbios, Promissória, Candeia, Sem Anistia encontrou faixas que já são hinos: Mosha, Fogo nos Racistas, Delírio Coletivo e vários outros petardos que justificam a grandiosidade da gravação do DVD. Para os fãs, um presente; para quem estava ali, um marco.




E quando parecia que nada mais cabia naquela noite, veio o golpe final:
Charles Gama mergulhando na multidão, abraçado por um mar de gente em transe, em catarse pura. Um momento impossível de reproduzir só existe porque é Black Pantera, só existe porque é Circo Voador.
Chamar de histórico ainda é pouco.
Foi uma noite de afirmação, de luta, de arte e de força negra pulsando no peito de todo mundo que testemunhou. Uma noite registrada para lembrar, para inspirar e para lembrar ao mundo:
Resistir é celebrar. Celebrar é lutar. E o Black Pantera segue abrindo caminho com o peso de mil tempestades.


















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