Surpreendendo uma parcela considerável dos fãs, no dia 26 de novembro o Sodom lançou nas plataformas digitais o single Sodomized (Blitzkrieg Remix) o primeiro anúncio da mais nova reedição de Get What You Deserve (1994), que chega às lojas em fevereiro de 2026. Quem acompanha a banda há pouco tempo, ou escuta mais superficialmente os álbuns dos anos 2000 para cá, certamente ficou feliz com a notícia e, com toda certeza, adorou o single nos fones de ouvido. Mas, tratando-se desse álbum em específico… uma segunda parcela de fãs, talvez uma geração mais old school (sem clubismo), recebeu a novidade com um pouco mais de apreensão. O famigerado Get What You Deserve foi um divisor de opiniões ferrenhas nos anos 90. Até hoje é visto como o álbum que mais soa diferente do Sodom. Tem quem o ame e tem quem o odeie, mas, independentemente dos gostos, sua existência por si só é um ponto de atenção na carreira dos alemães.

Capa do single 'Sodomized', do Sodom, apresentando uma arte sombria com elementos visuais de metal e cores escuras, incluindo o logotipo da banda em azul destacando-se no fundo.

À primeira vista, Get What You Deserve é cru, rápido, agressivo e fortemente influenciado pelo punk o que poderia ser delicioso para amantes de música extrema, se, e aqui um grande SE, não fosse o Sodom. Antes de 1994, a banda havia lançado o marcante Tapping the Vein (1992) e, pouco antes, o brilhante Better Off Dead (1990). Para alguns, podem não ser os melhores discos da banda, mas seguem claramente uma linha thrash: faixas longas, letras pesadas, temas sérios e propostas alinhadas à estética clássica do grupo. Sem falar na obra-prima Agent Orange (1990), que dispensa comentários um marco histórico do thrash alemão. Esse é o “cenário de conforto” para os fãs mais acostumados a petardos posteriores como M-16 (2001) ou Epitome of Torture (2013).

Para entendermos o que é Get What You Deserve, é preciso mergulhar na cena de 1994 um período de caos, mudanças e crise de identidade generalizada. O thrash metal estava em queda: o estilo que dominou o final dos anos 80 estava saturado e perdendo atenção da mídia. Mesmo com Divine Intervention (Slayer) e Chaos A.D. (Sepultura), era claro que o thrash vinha perdendo público para novos estilos. Bandas clássicas mudavam radicalmente: o Metallica já tinha lançado o Black Album e caminhava para Load; o Megadeth estava mais acessível; o Slayer estava mais moderno; o Kreator flertava com industrial (Renewal, 1992); e o Destruction praticamente nem existia (era a fase “Neo-Destruction”). Ou seja: a palavra-chave da época era experimentação.

As evidências de que Get What You Deserve foi um álbum experimental estão em um misto de sensações: composições vistas como “simplistas”, a ausência de riffs memoráveis como os de antes e uma produção frequentemente chamada de “abominável”: bateria muito alta, guitarras “afundadas” na mixagem, distorção exagerada. Isso sem mencionar a capa… onde foi parar o Knarrenheinz, o mascote da banda?! A banda vivia uma fase anti-estética, anti-tradicional, anti-regra. Então entregaram uma produção suja, som crust/grind, músicas curtas e diretas, colagens, caos visual e zero mascote ou conceito rompendo completamente com a continuidade artística. Era uma proposta intencionalmente feia e agressiva, um choque que não agradou muitos fãs.

Capa do álbum "Get What You Deserve" da banda Sodom, exibindo uma imagem superior com uma atmosfera obscura e um ambiente intimista, e na parte inferior, a banda em uma pose de grupo, refletindo o estilo da época do thrash metal.

Somado a isso, havia a questão interna: após Agent Orange, o lendário guitarrista Frank Blackfire deixa a banda para entrar no Kreator e com ele se vai o guitarrista mais técnico e influente da história do Sodom. Michael Hoffmann (1990–1991) e Andy Brings (a partir de 1991) entram, gravam Tapping the Vein e, depois, o EP Aber bitte mit Sahne além do próprio Get What You Deserve. Andy era menos técnico e bem mais voltado ao punk/crust, puxando o Sodom para uma estética mais suja e direta. Nesse mesmo momento, a banda fazia turnês massacrantes promovendo Tapping the Vein, o que gerou desgaste físico, cansaço e um hiato criativo. Tom Angelripper também manifestava vontade de voltar às raízes punk/crust. Some isso a um momento de baixo orçamento, forçando o uso de estúdios mais baratos, e temos, no dia 10 de janeiro de 1994, o lançamento pela Steamhammer/SPV de Get What You Deserve.

Percebe-se que o álbum reflete com precisão uma sequência de fatores que o representam de forma fidedigna à luz dos acontecimentos da época. Por isso, ele é único e, filosoficamente, até genial. Naturalmente não é consenso: há quem ache que ele funciona como registro cru e agressivo da fase punk/crossover da banda, quase um “álbum para fãs especificamente de punk/thrash sujo”. Já li comentários elogiando a energia, a brutalidade e a falta de frescura: baterias pesadas, vocais agressivos… para quem curte crossover thrash/hardcore, pode soar bem interessante. Há inclusive quem considere que o álbum “funciona” se encarado como um experimento: curto, direto, visceral, com algumas faixas que realmente valem a pena mesmo reconhecendo que o conjunto é desigual e a produção pobre.

Feito esse panorama, voltamos para 2025… aliás, 2026.

Quando recebi a notificação desse EP no meu smartphone, confesso que achei ousada a decisão da banda. Até então, para mim, Get What You Deserve era um disco que o próprio Sodom preferia esquecer… Mas, ansioso para ouvir, fui conferir. Se tratando de reedições e remasterizações, o Sodom faz isso muito bem;

Agent Orange, Persecution Mania, Tapping the Vein (2024), M-16 – 20th Anniversary (2021), The Final Sign of Evil (2007), 40 Years at War (2022)… tudo isso é espremer até a última gota do que eles têm de melhor com mais e mais do mesmo e isso não é uma crítica; Sodom é bom pra caral.

E com esse espírito fui ouvir Sodomized (Blitzkrieg Remix).De cara, é perceptível o quanto uma gravação de qualidade faz diferença. Agora é possível ouvir o ambiente temático da faixa: guitarras mais encorpadas, bateria mais presente e um trabalho de remasterização impecável. A voz inconfundível rasga o tempo e o espaço como um chute que desloca a rótula do joelho e, em poucos momentos, somos convidados a urrar “Sodomiiiiizeeed!!!” (lá ele). E aí fui tomado pelos braços de Jano, o deus romano de duas faces, pensativo: “será que Get What You Deserve envelheceu como vinho? Ou fomos críticos demais?”

Arte da capa do álbum 'Get What You Deserve' da banda Sodom, com um personagem usando um capacete de gás e vestindo roupas de combate, apresentando um cenário sombrio e agressivo.

Bom… só o tempo dirá.

Convido todos a fazerem a comparação: ouvir a faixa original de 1994 e a versão remasterizada (de preferência em alta qualidade) e tirarem suas próprias conclusões. Como amante da banda, não perco esse álbum por nada. Confesso que The Arsonist (2025) me deixou mal-acostumado, então precisei ressignificar o hype e… receber o que mereço! (Get What You Deserve!). Apesar das polêmicas, das críticas e das divergências que cercam Get What You Deserve, o álbum continua despertando curiosidade e debates trinta anos depois. E agora, com o disco em contagem regressiva no Spotify, renasce também o interesse em revisitá-lo com novos ouvidos. Mas, sinceramente? Mais do que uma simples remasterização que apenas deixaria o som mais limpo, este é um daqueles casos em que uma regravação completa faria muito mais justiça ao potencial do álbum. Com a formação atual, mais afiada e consistente, seria a chance perfeita para transformar um trabalho divisivo em uma peça realmente sólida dentro da discografia do Sodom. Uma revisão não apenas técnica, mas artística talvez exatamente o que esse capítulo merece após tantos anos.

Quatro membros da banda Sodom posando em um ambiente com paredes escuras, vestidos com jaquetas de couro e roupas escuras, demonstrando atitude e estilo do metal.

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