A banda Cólera se apresenta no palco com iluminação intensa enquanto o público levanta as mãos em um show enérgico.

Não existe aquecimento quando o Cólera sobe ao palco. O que aconteceu no Bar Opinião, no dia 14 de dezembro, foi um ato político, cultural e emocional travestido de show. Abrindo a noite que mais tarde seria tomada pelo caos do Ratos de Porão, o Cólera mostrou que seu papel na história do punk brasileiro não é decorativo — é estrutural.

Com a casa completamente lotada, calor sufocante e um público que já chegava disposto ao confronto, a banda entrou sem rodeios. Roda punk aberta, pessoas se jogando do palco desde as primeiras músicas e um clima de urgência que atravessou toda a apresentação.

A abertura com “Alternar” e “Vivo na Cidade” estabeleceu imediatamente o tom: punk rápido, direto e consciente. Não havia espaço para distração. Em “Minha Mente” e “Somos Cromossomos”, o Cólera reafirmou uma de suas maiores forças — a capacidade de falar sobre o indivíduo, a sociedade e o coletivo com simplicidade e profundidade ao mesmo tempo.

No centro do palco, a banda demonstrava uma coesão que só décadas de estrada proporcionam. O Cólera não soa como uma banda presa ao passado; soa como um grupo que entende exatamente por que suas músicas continuam necessárias. Isso ficou evidente na sequência formada por “1.9.9.2” e “Quanto Vale a Liberdade?”, recebidas como verdadeiros manifestos pelo público, cantadas em coro enquanto a roda se mantinha violenta e respeitosa, como manda a ética punk.

A parte central do show — com “Duas Ogivas”, “Funcionários” e “X.O.T” — foi um exercício de precisão e agressividade. A banda tocava firme, sem excessos, mantendo a tensão sempre alta. “Alucinado” elevou ainda mais a intensidade, com o público completamente entregue, corpos em choque e suor escorrendo do teto do Opinião.

Quando surgiram “São Paulo” e “C.D.M.P”, o show ganhou também um peso histórico evidente. São músicas que atravessaram gerações e continuam dialogando com o presente. “Medo” e “Deixe a Terra em Paz” soaram assustadoramente atuais, reforçando que as questões levantadas pelo Cólera décadas atrás seguem sem resposta.

Na reta final, “Águia Filhote” e “Dia e Noite, Noite e Dia” trouxeram uma camada mais reflexiva, sem perder a energia. O encerramento com “Pela Paz” e “Palpebrite” foi simbólico: agressividade e consciência caminhando juntas, como sempre foi a essência do Cólera.

Mais do que abrir uma noite histórica, o Cólera preparou o espírito. Quando a banda deixou o palco, o Opinião já estava tomado por adrenalina, suor e uma sensação coletiva de pertencimento. A roda seguia aberta, a casa seguia cheia, e a mensagem estava dada.

O Cólera não faz punk para entreter.

Faz punk para provocar, questionar e lembrar que atitude não envelhece.

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