
Há noites em que um show termina e fica apenas o eco. E há noites em que algo mais profundo acontece — quando a música deixa de ser só som e passa a carregar histórias, rostos, reencontros e emoções difíceis de explicar. O Phornax Fest III, realizado em 20 de dezembro, no Bar Opinião, em Porto Alegre, pertence com facilidade à segunda categoria.
Desde cedo, o ambiente já indicava que não seria um evento comum. Não era apenas mais um festival, mas um ponto de encontro entre gerações do metal brasileiro, um lugar onde o passado não foi tratado como nostalgia vazia, e sim como alicerce.
Tierramystica e o chamado ancestral
Coube ao Tierramystica abrir os caminhos da noite — e isso foi feito quase como um ritual. Quando “Awakening”ecoou pelo Opinião, a sensação era de chamado. A fusão entre heavy metal e música andina transformou o palco em território simbólico, onde peso e espiritualidade caminharam lado a lado.

“Cosmovision”, “Eldritch War” e “Raindancer” mantiveram essa atmosfera densa, conduzindo o público por uma experiência que exigia atenção e entrega. Em “Vision of the Condor”, a identidade do Tierramystica se revelou por completo: uma banda que entende suas raízes e não tem medo de carregá-las para dentro do metal.

O fechamento com “Chaski Way” deixou no ar a sensação de que a noite havia sido aberta não apenas musicalmente, mas espiritualmente. O festival estava oficialmente em movimento.
Noturnall: o peso do presente
Depois do ritual, veio o choque com o agora. O Noturnall entrou em cena como quem sabe exatamente onde pisa. Sem rodeios, sem excessos. “Try Harder” abriu o set com impacto imediato, deixando claro que o foco era intensidade.

Na sequência, “No Turn at All” e “Reset the Game” mantiveram o Opinião em estado de alerta, com um som moderno, preciso e extremamente bem executado. “Sugar Pill ” trouxe nuances, mostrando que peso também pode dialogar com dinâmica.

O momento mais delicado veio com “Shadows”, apresentada em versão acústica. Um respiro necessário. Não para esfriar, mas para aprofundar. Logo depois, “Shallow Grave”, “Scream for Me” e “Nocturnal Human Siderecolocaram tudo em combustão, preparando o terreno para aquilo que viria a seguir.
Phornax: quando a emoção sobe ao palco
O encerramento da noite tinha dono — e não era apenas uma banda, era uma história sendo contada ao vivo. Desde a intro “Hells Paradise”, ficou claro que o show do Phornax carregava algo diferente.

A emoção de Cristiano Poschi era impossível de ignorar. Não estava apenas na voz, mas nos silêncios, nos olhares demorados, na forma como cada música parecia carregar um pedaço de estrada. Era um show atravessado por memória.

Em “Dare of Destruction”, Guy Antonioli dividiu os vocais e ampliou a força da canção. “Final Beat” ganhou corpo e significado com a dança de Aline Mesquita, transformando o palco em espaço de expressão que ia além da música.

“Silent War” e “Ghosts From the Past” mantiveram o peso firme, até que “A Matter of Time”, com Thiago Bianchi e Alessandro Marques, trouxe um daqueles momentos em que o tempo parece realmente parar.
Quando “Fairy Tale” , cover do Shaman, surgiu, o clima foi de reverência. Com Thiago Bianchi, Fábio Laguna, Diego e Renato Osório no palco, não era apenas uma canção — era um capítulo inteiro da história do metal brasileiro sendo revisitado.

“Rebirth”, clássico do Angra, veio carregada de simbolismo com Edu Falaschi, Fábio Laguna, Renato Osório e William Schuck. Um desses momentos que não precisam de explicação: o público sabia exatamente o que estava vivendo.

Em “Call Me in the Name of Death”, cover do Hangar, a memória ficou ainda mais explícita. O peso da música se somou ao fato de Fábio Laguna e Eduardo Martines, guitarrista do Phornax, terem feito parte do Hangar. Não era homenagem — era pertencimento.
O fechamento com a jam de “Run to the Hills” (Iron Maiden) selou tudo como deveria ser: músicos dividindo o palco, público cantando junto, fronteiras dissolvidas. Ali, não havia banda principal. Havia cena.
Quando o festival vira lembrança
O Phornax Fest III não foi apenas um evento bem produzido ou um alinhamento feliz de nomes importantes. Foi uma noite em que o metal brasileiro se olhou no espelho e se reconheceu.
Entre ritual, precisão e emoção, o festival mostrou que a força da cena não está apenas nas músicas, mas nas conexões que elas criam. Quem esteve no Opinião naquela noite não assistiu a um show.
Participou de uma memória.na saiu fortalecido.




















































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