Nos anos que se seguiram às grandes catástrofes enfrentadas pelo Brasil e Rio Grande do Sul, como a pandemia às enchentes, o que se viu foi uma queda acentuada no número de shows de bandas nacionais e, principalmente, internacionais no Estado. Aeroportos fechados, ingressos caros, altos custos de aluguel de espaços e até a proliferação de novas casas de shows locais são alguns dos fatores frequentemente apontados para explicar esse cenário. Em meio a esse contexto, um movimento chamou a atenção: o retorno em força do rock gaúcho aos palcos.
O termo “rock gaúcho” surgiu para dar identidade a um efervescente movimento de rock autoral que despontava no Estado, com forte concentração no bairro Bom Fim, em Porto Alegre. Se em 2016 o gênero parecia relegado ao ostracismo, como apontava reportagem da GaúchaZH https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2016/01/por-que-o-rock-gaucho-sumiu-do-mapa-4957885.html, hoje o que se vê é o contrário. O rock gaúcho vive um momento de vigor, reconexão com seu público e reafirmação de sua relevância cultural. Abaixo, o disco Rock Grande do Sul (1985), pela RCA, uma das principais coletânea que catapultou o gênero para todo País.

Esse reencontro com o público trouxe de volta nomes emblemáticos como os Cascavelletes, agora sob a formação “Eternos Cascavelletes”, além do sucesso contínuo de shows de bandas que estavam “dando um tempo”, como a Graforreia Xilarmônica, sem falar dos que chegaram a anunciar seu fim, mas nunca conseguiram se despedir pra valer, como a Cachorro Grande, Bidê ou Balde, entre tantas outras. Destaque também para Os Replicantes e a formação ‘Clássicos do Rock Gaúcho’, uma apresentação homenageia os 40 anos do disco ‘Rock Grande do Sul’ (da imagem acima), com a presença de King Jim (Garotos da Rua), Márcio Petracco (TNT), Marcelo Fornazier (De Falla), Gabriel Guedes e Eliéser Lemes (Pata de Elefante).

‘Clássicos do Rock Gaúcho’. Foto: Bretanha Produções/ Divulgação
Com shows por vezes mais lotados que atrações nacionais e internacionais, mesmo com valores de ingressos que competem de igual para igual, o preço não parece ser um entrave para os entusiastas do rock feito no Estado. A verdade é que as bandas gaúchas estão mais atarefadas do que nunca, para a alegria dos fãs que fazem de tudo para reviver “aquela época boa da juventude”. Vide o Acústicos e Valvulados, que comemorará 35 anos no Araújo Vianna dia 10 de abril, com números impressionantes: mais de 2 mil shows, dez CDs, três DVDs e inúmeros hits marcantes, como “Fim de Tarde Com Você”, “Até a Hora de Parar”, “Milésima Canção de Amor” e “Suspenso no Espaço”. Ao longo da carreira, o grupo acumulou indicações ao VMB/MTV, Prêmio Dynamite e Prêmio Açorianos, além de participações em grandes festivais e colaborações com artistas como Frejat e integrantes do Skank.

Um dos exemplos mais contundentes desse momento é o êxito do show comemorativo dos 20 anos do icônico Acústico MTV Bandas Gaúchas, que ganhará uma nova edição no dia 27 de março de 2026. Reunindo Carlinhos Carneiro e Rodrigo Pilla, Cachorro Grande, Ultramen e Wander Wildner, o espetáculo volta a ocupar o palco do Auditório Araújo Vianna. No repertório, clássicos do rock gaúcho como “Microondas”, “Dia Perfeito”, “Dívida” e “No Ritmo da Vida”. Vale lembrar que, em sua versão original, o Acústico MTV Bandas Gaúchas se destacou pela produção sofisticada e conquistou o Prêmio Açorianos de Música em 2005, na categoria Melhor DVD. Não por acaso, as duas primeiras sessões desta nova edição tiveram ingressos esgotados em tempo recorde em 2025.
A sensação é de que o grande público, tanto da Capital quanto do interior, está tão ou mais interessado em reviver os hits que marcaram sua adolescência do que em consumir outras atrações do circuito mainstream. Um exemplo recente foi o show de Zeca Baleiro, também no Araújo Vianna, que não lotou a casa, apesar de o artista ser vencedor do Grammy Latino. O vocalista da Tequila Baby, Duda Calvin, também é solicitado. Recentemente, um show lotado no Espaço Marin comemorou os 30 anos de carreira do músico, que cantou os sucessos da Tequila desde a década de 90.

Duda Calvin lotou o Espaço Marin em dezembro. FOTO: Mozart Leon
Leia o depoimento de Carol Govari – Professora, pesquisadora e coordenadora do curso de Produção Fonográfica da Unisinos:
A primeira coisa que a gente precisa reconhecer é que a cultura pop é cíclica, ou seja: os movimentos vêm em ondas – e também costumam voltar depois de um certo período. Isso acontece de forma muito visível na moda, com o retorno das tendências de peças que “nossas mães usavam”, mas pode acontecer também na música. Esse boom de shows do rock gaúcho não se deve necessariamente ao fechamento de aeroportos, mas de um sentimento identitário muito forte que, sim, pode ter ressurgido com as enchentes e os shows beneficentes que ocorreram na época (foram vários, mas posso citar um que reuniu muitos artistas, que foi o Festival Recomeço, ocorrido no Araújo Vianna em junho de 2024), além de estarmos em um período em que várias bandas/álbuns estão celebrando décadas de estrada/lançamento.
Nesse caso, podemos usar como exemplo o Acústico MTV Bandas Gaúchas, que fez 20 anos em 2025, e teve dois shows comemorativos em setembro de 2025. Em síntese, em contraste com anos anteriores, marcados menos por ausência de público e mais por um deslocamento temporário dos focos de legitimação cultural, vejo esse “estouro” atual do rock gaúcho não como um fenômeno pontual, mas como a reativação de uma memória afetiva e identitária que permanece latente ao longo do tempo e ressurge quando condições históricas, emocionais e geracionais se alinham.
🤘🎧Ouça rock gaúcho aqui:








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