
Descobri The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars em 1987.
Eu tinha onze anos.
O disco era de 1972.
Mas dentro de mim, ele soava como se tivesse sido lançado naquela mesma tarde.
Porto Alegre, final dos anos 80. E, mais precisamente, o Zaffari Higienópolis. Não era apenas um supermercado. Para mim, era território sagrado. Um lugar onde o mundo parecia desacelerar e onde o tempo ganhava outra densidade: o tempo da descoberta, da escuta, da formação.
O setor de discos ficava ali, discreto e imponente ao mesmo tempo. Móveis de madeira nobre, pesados, bem cuidados. Os LPs organizados por gênero, perfeitamente enfileirados como livros em uma biblioteca silenciosa. Rock, internacional, MPB. Aquilo não era consumo. Aquilo era iniciação.
Eu ficava ali por longos minutos — às vezes horas.
Sem dinheiro, mas com fome.
Puxava os discos com cuidado, observava cada capa, lia créditos, memorizava nomes. Aprendi estética antes de aprender teoria. Aprendi curadoria antes de saber que essa palavra existia. Meu ouvido começou ali — pelos olhos.
Juntava moedas por dias. Cada disco comprado era uma conquista real. Não era impulso: era escolha. Era formação.
E então havia aquela capa.

Ziggy sob o poste, em uma rua que parecia existir fora da realidade. Um ser indefinido, elegante, estranho, magnético. Nem homem, nem mulher, nem personagem, nem gente comum. Algo além. E, ao mesmo tempo, algo profundamente familiar.

Quando finalmente levei aquele disco para casa, não foi só uma audição. Foi uma ruptura interna.
Ziggy me ensinou que não havia obrigação de caber.
Que ser estranho podia ser força.
Que identidade podia ser construção.
Que arte podia ser abrigo.
Ele não moldou apenas meu gosto. Moldou minha percepção.
O tempo passou. Vieram outras descobertas, outras obsessões, outros discos. Mas aquele espaço seguia ali, silencioso, constante, como um ponto fixo da cidade — e da minha história.
Até que, no final dos anos 90, ele desapareceu.
Entrei no Zaffari Higienópolis e o setor de discos já não existia mais. No lugar dos móveis de madeira, das capas alinhadas, da memória acumulada em silêncio, havia um setor de vinhos. Bonito, organizado, sofisticado. E absolutamente vazio de significado para mim.
Pode parecer exagero para quem nunca viveu aquilo.
Mas foi um luto real.
Não tiraram apenas móveis. Tiraram um território formador. Um espaço onde muitos, como eu, aprenderam a ouvir, a olhar, a sentir arte. Foi como descobrir que haviam demolido a casa da infância e, no lugar, construído algo funcional, mas sem alma.
Anos depois, já adulto, com escuta formada, com cicatrizes acumuladas e outra relação com o mundo, veio Blackstar.

Se Ziggy Stardust foi portal, Blackstar foi espelho.
Se um falava com o garoto inquieto, o outro falava com o homem consciente da finitude.
Se um era explosão de identidade, o outro era contemplação da impermanência.
E talvez por isso ele tenha doído tanto.

Porque Blackstar fala justamente sobre isso: sobre perdas, sobre encerramentos, sobre a lucidez diante do que não volta.
O setor de discos acabou nos anos 90.
Bowie se despediu em 2016.
Mas o sentimento é o mesmo: certas coisas desaparecem, mas deixam marcas profundas demais para serem apagadas.
Ziggy me ensinou a ousar.
Blackstar me ensinou a compreender.
Entre um e outro está tudo: minha formação musical, meu olhar crítico, minha sensibilidade, meu caminho como resenhista e fotógrafo da cena. Está a convicção profunda de que música não é produto. É território emocional. É memória. É identidade.
E talvez por isso, sempre que entro numa loja de vinil — qualquer uma — ainda sinto aquele eco antigo. Como se, em algum lugar entre as capas e os silêncios, ainda estivesse aquele menino no Zaffari Higienópolis, com poucas moedas no bolso e a certeza absoluta de que a arte estava ali, esperando por ele.








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