Não é segredo para ninguém que o Circo Voador, no Rio de Janeiro, se consagrou como a casa de shows mais especial e simbólica da cultura underground carioca. Quem acompanha o cenário musical e tem o hábito de frequentar shows, certamente já passou por ali  e, com toda certeza, carrega alguma lembrança marcante, um show inesquecível ou um momento único vivido sob aquela lona. Palco de tantos nomes e gêneros, de Legião Urbana a Marcelo D2, de Jards Macalé a Jinjer, o Circo abriu suas portas, na noite de 16 de janeiro de 2026, para receber a maior banda do hardcore nacional: Dead Fish, celebrando os 25 anos do álbum Afasia.

A male vocalist passionately performing on stage with a microphone, while a bassist plays in the background during a live concert. The band name 'DEAD FISH' is visible on the drum set, and the audience is engaged, with hands raised.

O Dead Fish conhece aquele palco como poucos. Foi ali, inclusive, que a banda gravou o DVD comemorativo de 20 anos. Agora, retornava para celebrar um dos discos mais marcantes de sua trajetória. Lançado em 2005, Afasia consolidou o Dead Fish no cenário nacional, com faixas que atravessaram o tempo e seguem presentes no repertório da banda até hoje, sempre recebidas com fervor em qualquer apresentação ao vivo. Por si só, já seria um evento histórico: banda, álbum e local em perfeita sintonia. Mas, para uma celebração desse calibre, o Dead Fish convidou grandes amigos para dividir o palco e abrilhantar ainda mais a noite. Bullet Bane e Zander fizeram parte desse momento especial, para o deleite absoluto dos fãs, o que tornaria aquela noite, desde cedo, claramente inesquecível.

Casa cheia, calor intenso e a vibe única do Circo, que mais uma vez recebia os seus. A noite começou ao som da trilha impecável da DJ Cammy Marino, que incendiou o salão com uma seleção afiada, passeando do emo punk mais elegante aos petardos do hardcore internacional contemporâneo. Entre reencontros, sorrisos e até piscina (sim, literalmente!), fomos embalados pelas pick-ups até que a trilha sonora fosse interrompida pela força que se aproximava; Bullet Bane estava entre nós. Em nova formação, a Bullet subiu ao palco emanando presença, “farmando aura” e preparando o terreno espiritual para o impacto que viria. Ao som de Reta-Ação, faixa que marca a nova fase da banda, a apresentação começou com entrega total, força e emoção. A plateia urrava cada verso junto com Lucas Guerra, em uma sintonia impressionante. Era visível o momento especial vivido pela banda: coesão, técnica e domínio absoluto do palco. Cada música levava o público à loucura, com energia contagiante e uma execução afiada. Sem exagero, uma das melhores apresentações do Bullet Bane  e um forte prenúncio de um futuro ainda mais promissor para essa nova formação.

A female DJ with long red hair and a black tank top featuring a graphic print, posing confidently with a peace sign at her DJ booth.

Ainda anestesiados pelo impacto da Bullet Bane, a noite reservava mais alegria  e, acima de tudo, nostalgia. Esse sentimento tomou conta do Circo com a entrada de Gabriel Zander e companhia. Ao som da clássica introdução de Auto Falantes, o Zander dava o ar da graça, e confesso, nesse momento, passou um filme na minha cabeça e, certamente, na de muitos ali presentes. Uma das bandas mais queridas e categóricas do underground carioca retornava ao Circo para celebrar a execução de seu álbum mais emblemático, Brasa (2010). O que se seguiu foi uma noite mágica. Ninguém ficou parado. Cada faixa era cantada em uníssono, transformando o Circo em um grande coral ensandecido. O baile passou por Terreiro, Motim, Humaitá, a belíssima Dezesseis e, de forma absolutamente inacreditável  talvez o ápice da nostalgia, Diploma, da época do Noção de Nada, com a participação de Rodrigo Lima, do Dead Fish. A história do underground brasileiro se materializava diante de nossos olhos. Eu confesso, nem nos meus melhores sonhos imaginei presenciar essa música ao vivo. Em 2001, eu era apenas uma criança de 11 anos  e aquele momento, sem dúvida, foi um dos elementos que transformaram essa noite em um dos melhores shows da minha vida.

Após tanta emoção e catarse, o prato principal finalmente se aproximava. O coro “Hey Dead Fish, vai tomar no c*” já temperava o ambiente quando, ao som de Sangue Latino, do mestre Ney Matogrosso, a maior banda de hardcore nacional de todos os tempos pisou no palco do templo sagrado do underground carioca. O Dead Fish estava entre nós. A abertura com Afasia levou o público à loucura instantânea. Moshs e Stage dives se fundiam em um mar humano em ebulição, enquanto a massa se contorcia e respondia à altura a cada interação de Rodrigo Lima, em um show absolutamente catártico. Um petardo atrás do outro: Linear, Iceberg, Viver, o hino Revólver, enlouquecendo a todos, Perfect Party e tantos outros momentos que fizeram do Circo um organismo vivo, pulsante e indomável.

No fim das contas, não foi só mais um show. Foi daquelas noites que a gente sabe, ainda lá dentro do Circo, que vai lembrar pro resto da vida. Um encontro real de pessoas, histórias, memórias e sentimentos que ajudaram a construir o underground brasileiro. O Circo Voador mostrou, mais uma vez, por que é muito mais que uma casa de shows, mas um ponto de encontro, um lugar onde tudo isso faz sentido.

Desde o começo da noite, com a DJ Cammy Marino comandando a pista e criando o clima perfeito pra tudo que viria depois, já dava pra sentir que não seria uma noite comum. A Bullet Bane entrou com sangue nos olhos, mostrando força, maturidade e uma fase nova que empolga qualquer um que acompanha a banda. O Zander trouxe aquele soco direto no peito, a nostalgia batendo forte, fazendo todo mundo cantar junto, lembrar de outros tempos, de outras fases da vida e perceber como essas músicas seguem vivas até hoje. E então veio o Dead Fish. No Circo. Tocando Afasia inteiro. Não tem muito o que explicar. Quem estava lá sabe. Foi barulho, suor, mosh, grito, emoção e entrega total. Uma banda que ajudou a formar tanta gente, dividindo o palco com amigos, celebrando um disco que marcou época, exatamente no lugar certo para isso acontecer.

O mais bonito de tudo foi perceber que não se tratava só de comemorar um álbum ou uma data. Aquela noite foi sobre pertencimento. Sobre uma cena que resistiu, cresceu, mudou, mas nunca morreu. Sobre pessoas diferentes, de idades diferentes, vivendo a mesma coisa juntas, lado a lado, cantando as mesmas músicas como se o tempo não tivesse passado. Incrível, memorável, inesquecível, insano e ainda assim é pouco. Foi uma daquelas noites raras que não ficam só na memória, ficam no corpo, na cabeça e no coração. Um daqueles momentos que lembram a gente por que essa cena é tão importante e por que, depois de tudo, ainda vale tanto a pena estar ali, embaixo da lona, vivendo isso tudo de verdade.

Two musicians embracing on stage, one holding a bass guitar, captured in black and white.

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