
O underground carioca pulsa. Bandas gigantes, energia ímpar e, sobretudo, o trabalho incansável de produtores que realmente se preocupam com a cena, que abre caminho para bandas com fome de palco, ideias e atitude.
O BACA FEST veio nessa pegada, como o próprio Wagner Ferreira, o Bacalhau, me disse em um bate-papo logo na minha chegada: ele é, antes de tudo, um agitador cultural. São dez anos de correria, bagagem e experiência que nesse sábado formou um lineup afiado e representativo, nos trabalhos, as bandas Trama, Anversa, Asfixia Social e Punho de Mahin.

A casa foi reestruturada e aberta novamente com o nome de Garage Grindhouse em 2023, ressurgindo como uma fênix sob a gestão do Coletivo Grindhouse. Um lugar que carrega muita história nas paredes, em 1998 recebeu os norte-americanos do Exodus, banda que, no ano passado, voltou ao Brasil em turnê comemorativa de 40 anos do clássico Bonded by Blood, e outra referência de peso em 1997, o DRI, que estarão no Rio de Janeiro novamente, desta vez com o Ratos de Porão, Pavio. e Minissaia dia 20 de março.
TRAMA

Os cariocas da Trama, únicos representantes do Rio de Janeiro no dia, abriram os trabalhos com um som que mistura afiada de funk e rock. A presença de palco cativou boa parte do público logo nos primeiros minutos.
Fiquem de olho no lançamento do single Estragos Unidos, que em breve sai do forno. Vale também dar uma atenção especial ao single Do Povo Para o Povo, em especial às faixas Cidadão de Bem e Música de Lazer.
















Anversa

Galera do Vale já é bem conhecida pelo peso e qualidade sonora, e o Anversa veio mostrando serviço. Vale conhecer Índole, do EP Existir, e a cover da clássica Pânico em SP do Inocentes, presente no tributo a banda pela Mutante Discos Em SP Continuamos… em Pânico!. Inclusive vale ressaltar que Clemente Nascimento, um dos pioneiros do punk no Brasil e vocalista do Inocentes recebeu alta no início de janeiro, após mais de 20 dias internado em UTI.
O destaque mais recente fica por conta do single 1484, referência direta ao Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas), obra que legitimou a perseguição e morte de milhares de mulheres durante o auge da chamada “caça às bruxas” promovida pela Igreja Católica. A música estabelece um paralelo entre essas violências históricas e as opressões contemporâneas, contando ainda com a participação da rapper Meire D’Origem. Confira o videoclipe no canal oficial da banda no YouTube.















Asfixia Social

Grande representante do ska na noite, o Asfixia Social tem um trabalho de posicionamento e identidade muito marcantes. Com linguagem própria, presença de palco sólida e transições bem construídas com o hardcore. “O Baca Fest conseguiu reunir um timaço, só show foda! A gente fica feliz demais de entregar um som massa, ainda mais no Rio de Janeiro que sempre acolhe a gente!” disse Kaneda, vocal e metais da banda.
O auge, sem sombra de dúvidas, veio com a faixa Capoeira-Karatê, do single de mesmo nome. Gravada no Centro Cultural Sabotage Vive, na favela do Boqueirão, zona sul de São Paulo, teve produção de Pedro Garcia, baterista do Planet Hemp. Videoclipe é fantástico, vale conferir lá no canal oficial da banda no YouTube.















Punho de Mahin

Fechando os trabalhos do dia, o Punho de Mahin traz à mesa, já no próprio nome, uma bandeira poderosa. Luísa Mahin, mulher africana livre, foi destaque na luta contra a escravidão na Bahia durante o século XIX e mãe do republicano Luiz Gama, grande abolicionista e advogado. Descrita pelo próprio filho como altiva e geniosa, Luísa trabalhava no comércio e presa por fazer parte dos levantes contra a escravidão, como a Revolta dos Malês, considerada por historiadores a maior rebelião escrava urbana do Brasil.
Exaltando a presença da mulher na cena, a banda reforçou o discurso também no palco. “Não só em rodinha de mina”, como destacou a guitarrista Camila Araujo ao microfone antes da faixa Ei, Mulher, reforçada pela vocalista Natália Matos, que elogiou o bom número de mulheres no público e chamou todas à frente do palco.
Marighela, faixa do álbum Embate e Ancestralidade, é um som diferenciado demais. O álbum também está disponível em LP, não só nas plataformas, e é uma ótima oportunidade para experimentar essa sonzeira nesse formato.


























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