
Existem noites que não são apenas eventos na agenda cultural de uma cidade. Elas funcionam como marcos, como pontos de reencontro entre pessoas, histórias e sonoridades que resistem ao tempo. No dia 7 de fevereiro, Brasília viveu uma dessas noites. O Infinu foi tomado por um público diverso, atento e completamente entregue a uma programação que respeitou a cena local e culminou em um dos shows mais intensos do ano.
Sob a produção da Alto Volume Rock, a noite reuniu três grandes referências do hardcore nacional e foi pensada com precisão: casa cheia e uma sequência de bandas que não apenas se complementaram, mas conversaram entre si, criando uma narrativa sonora única.
Macakongs 2099: a base sólida do hardcore brasiliense
Abrindo os trabalhos, o Macakongs 2099 deixou claro, logo nos primeiros minutos, que aquela não seria uma noite de aquecimento morno. Referência consolidada da cena brasiliense, a banda carrega uma trajetória marcada pela irreverência, letras provocativas e uma sonoridade que se recusa a obedecer a fórmulas fáceis, misturando punk, hardcore, crítica social e experimentação.

Com Phu no baixo e vocal, Wô e Robson nas guitarras e Pedro na bateria, o Macakongs apresentou um show coeso, agressivo e carregado de identidade. O som seco, direto e urbano encontrou um público já disposto a responder, criando rodas, empurrões e aquele clima de tensão controlada que só o hardcore consegue sustentar.

O setlist foi extenso e sem concessões, funcionando como um verdadeiro manifesto ao vivo. Faixas como Bota, Tele Engano e Sobreviventes abriram caminho para um bloco pesado que passou por Acorda, Brazza e Afegã. Na sequência, músicas como Traiu, Amargo, Contos e Evil mantiveram o discurso afiado, enquanto Combustível reforçou o peso político e simbólico do show.





O fechamento ganhou ainda mais força com a participação de Cigano Igor, que dividiu o microfone com Phu em Cabaré de Crianças, Droga e Esquenta, selando o show com intensidade máxima e deixando claro que a banda sabe exatamente como conduzir o caos até o último acorde.
Não houve tentativa de suavizar discurso ou moldar repertório para agradar. O Macakongs cumpriu um papel fundamental: afirmar que a cena local tem peso, voz e presença, e que aquela noite não seria apenas sobre uma atração principal, mas sobre um ecossistema inteiro.
Kobracaio e os Vida Cobra: confronto, barulho e combustão
Se o Macakongs construiu a base, o Kobracaio e os Vida Cobra tratou de incendiar o ambiente. Originais de Brasília, mas com estrada nacional cada vez mais sólida, a banda representa uma geração que entende o punk/hardcore como linguagem de confronto direto, sem verniz ou concessão.

Com Caiasso nos vocais, André de Touca e Renê Ruchet nas guitarras, Rafael Maranhão no baixo e André Zinelli na bateria, o grupo entregou um set afiado e propositalmente incômodo. O repertório passou por Me Enganar, Pemba e Tambores, criando impacto rítmico imediato. Em Vc Me Diz Não e Nepobabies, o discurso veio direto, enquanto foda-se funcionou como momento de catarse absoluta.




Campainha manteve a tensão elevada, e Steeven encerrou o set deixando o recado claro: não se trata de agradar, mas de existir alto.
O público respondeu à altura. A pista se manteve em movimento constante, e a sensação era clara: o Infinu não estava apenas cheio estava em estado de alerta. O Kobracaio cumpriu com precisão a missão de empurrar o público para fora da zona de conforto e preparar o terreno para o impacto final.
Garage Fuzz: história viva, legado em movimento
Quando o Garage Fuzz subiu ao palco, com o Infinu completamente lotado, já não existia separação clara entre banda e público. O que se seguiu não foi apenas um show, mas uma descarga coletiva de energia daquelas que misturam nostalgia, urgência e catarse.

Formado por Wagner Reis, Daniel Siqueira, Fabrício de Souza, Nando Bassetto e Victor Franciscon (ex-Bullet Bane, nos vocais), o grupo vive um momento especial: em abril de 2026, completa 35 anos de atividade, mantendo-se ativo e em plena conexão com seu público.

O setlist foi pensado para não dar descanso. Observant e Kids on Sugar puxaram o público para dentro do show, com rodas abertas e vozes se sobrepondo ao PA. Embedded Needs e Shore of Hope mantiveram o ritmo acelerado, enquanto Dear Cinnamon Tea trouxe o contraste melódico característico da banda.

O bloco central foi simplesmente avassalador. On the Wall, Corner, Jaded e A Mutt Running transformaram a pista num organismo vivo: empurra, canta, pula, cai e levanta. Não havia separação clara entre palco e público. Era tudo uma coisa só.
Clássicos como Nomad, Cortex e House Rules foram recebidos como hinos, cantados em coro por uma casa inteira que parecia conhecer cada palavra. Elephant e Lead a Pointless Life reforçaram o peso emocional do show, enquanto It’s Funny e Gambling mantiveram o clima frenético.




Na reta final, Pay Your Dues e Fast Relief funcionaram como golpes secos, precisos e sem piedade. E quando The Morning Walk encerrou a apresentação, ficou claro que ninguém saiu ileso.
Mais do que um retorno a Brasília, o Garage Fuzz reforçou por que segue sendo uma das bandas mais importantes do hardcore nacional. Energia crua, verdade e conexão real com quem estava ali.
A noite começou com o peso local do Macakongs 2099, passou pelo caos afiado do Kobracaio e os Vida Cobra e terminou sem deixar dúvidas:
o hardcore segue vivo, urgente e necessário.



























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