Uma cantora com cabelo encaracolado, vestindo um vestido vermelho, performa em um palco iluminado, enquanto outra pessoa com um chapéu e camiseta preta canta próximo a ela, ambos se apresentando em um show.

A Segunda Maluca – Especial Novo Rock Gaúcho foi mais do que uma sequência de apresentações. Foi um recorte honesto de uma cena que se constrói fora dos grandes holofotes, sustentada por identidade, risco estético e urgência criativa. Com Os Aciderais, Viana Moog e Código Penal no lineup, a noite deixou claro que o rock independente gaúcho segue vivo, plural e em movimento. A curadoria do especial ficou a cargo de Homero Jr. e Jay Jaydson, com produção assinada pela Rei Magro Produções.

Era uma segunda-feira à noite, em pleno período de férias e praticamente na véspera do Carnaval. O público não foi numeroso, mas isso pouco importou. Quem esteve ali estava atento. Havia escuta real, interesse genuíno e silêncio onde era preciso silêncio. Em um contexto que costuma afastar as pessoas dos palcos, o que se viu foi um público presente de verdade, disposto a acompanhar cada proposta sem dispersão.

Desde a abertura das portas, o clima era de encontro. Público atento, proximidade entre artistas e plateia e a sensação constante de que o que estava em jogo ia além do entretenimento. Havia ali um sentido claro de afirmação cultural, de ocupação de espaço e de continuidade de uma cena que se constrói no tempo, não no hype.

Os Aciderais: lisergia, rock clássico e o peso do rock brasileiro

Abrindo a noite, Os Aciderais apresentaram um show intenso e sem rodeios, ancorado no rock clássico, no hard rock setentista, na psicodelia e no peso característico do rock brasileiro. Há na sonoridade da banda um tom lisérgico permanente, que por vezes remete ao espírito hipnótico do The Doors, especialmente na condução vocal e na construção atmosférica das músicas.

Formada pela vocalista Anny, o guitarrista Giovanni, a baixista Letícia e o baterista Jeff, a banda mostrou domínio de palco e identidade bem definida. O repertório começou com “The River” e “A Vida”, funcionando como apresentação imediata de intenções. Ao longo do set, “Das Man”, “Sublime” e “Tarja” aprofundaram a veia psicodélica, enquanto “Time”, “Lala” e “Adudog” sustentaram o peso e a pulsação do show. A resposta do público foi rápida e orgânica, estabelecendo desde cedo uma conexão direta entre palco e plateia.

Banda se apresentando em palco, com vocalista em vestido vermelho e músicos tocando guitarra e baixo, sob luzes coloridas.

Viana Moog: ruído como linguagem e emoção sem verniz

Na sequência, Viana Moog deslocou o eixo da noite para um território mais interno e introspectivo. A banda de São Leopoldo trabalha o noise pop como linguagem emocional, usando o ruído não como excesso, mas como extensão sensível das canções.

Formado por Everton Cidade (voz), Rogério Beninca (guitarra), Geovane Lacerda (baixo) e Carlos Wolff (bateria), o grupo constrói músicas a partir de ideias concisas, quase fragmentos, que ganham força na repetição, no silêncio e na tensão. As letras são econômicas e diretas, mas carregam densidade emocional, revelada aos poucos, sem dramatização ou adornos desnecessários.

Banda de música se apresentando ao vivo em um palco, com quatro membros tocando instrumentos, como guitarra, baixo e bateria, enquanto o vocalista canta. O ambiente é iluminado com luzes suaves e há banners promocionais ao fundo.

No palco, faixas como “Pai Grunge”, “Eden” e “Gêmeo” estabeleceram um clima denso e contemplativo. “Ticket” e “Iris” aprofundaram o desconforto íntimo que atravessa o repertório, enquanto “Chagas” e “Páprica” trouxeram aspereza e tensão. Em “Rimbaud” e “Henry Muller”, palavra, ruído e melodia coexistiram em equilíbrio instável, atingindo alguns dos momentos mais marcantes da apresentação. Foi um show que não buscou impacto imediato, mas permanência.

Código Penal: discurso urbano, fusão estética e enfrentamento

Encerrando a noite, o Código Penal apresentou a face mais crua e confrontacional do evento. A banda opera a partir de uma fusão direta de hardcore, rap, soul e funk, sustentada por um discurso urbano, crítico e visceral, que se manifesta tanto nas letras quanto na postura de palco.

A identidade do grupo se materializa na formação atual, que reúne trajetórias distintas alinhadas por uma mesma postura. Lúcio Agacê e Black To Face dividem os vocais, conduzindo narrativas de rua com intensidade e confronto. Green Soul, nos teclados, EFX e guitarra, amplia o espectro sonoro com camadas eletrônicas, texturas e peso. A base instrumental, sustentada por Fernandinho no baixo, Márcio Zuza na guitarra e Pereba na bateria, forma um corpo sólido, direto e experiente.

Banda se apresentando ao vivo em um palco, com guitarras, bateria e vocalista em destaque.

O setlist funcionou como um manifesto em sequência. A abertura com “Terra de Ninguém” e “Chove Bala” estabeleceu imediatamente o tom de enfrentamento. “Apologia”, “Marginalizado” e “Bomba H” aprofundaram o discurso social, enquanto “Manifesto Público” e “Nada Valerá” reforçaram a postura política da banda. A reta final, com “Justiça Injusta”, “Perímetro Criminal” e o fechamento seria “Uzi Além”, para selar a apresentação de forma contundente, sem concessões, mas como resposta direta à intensidade do show, o público ainda pediu por mais ao final da apresentação do Código Penal.

A banda voltou ao palco e encerrou a noite com Sexo nas Ruas, transformando o pedido coletivo em catarse final. Um fechamento à altura do discurso, do peso e da postura apresentados ao longo de toda a noite — direto, sem concessões e absolutamente fiel ao espírito do underground gaúcho.

Um retrato fiel do Novo Rock Gaúcho

A Segunda Maluca especial deixou claro que o novo rock produzido no Rio Grande do Sul não é homogêneo nem preso a fórmulas. Ele é plural, inquieto e verdadeiro. Os Aciderais, Viana Moog e Código Penal representam caminhos distintos que coexistem, dialogam e se fortalecem mutuamente.


Por fim, fica o reconhecimento e o agradecimento a Homero Jr. e Jay Jaydson do Novo Rock Gaúcho , pela curadoria atenta e comprometida e a Márcio Ventura, da Rei Magro Produções, pelo apoio contínuo e pela dedicação em manter o underground gaúcho ativo, pulsante e com espaço para a diversidade. Em tempos de pouca margem e muito ruído, iniciativas assim seguem sendo fundamentais para que a cena exista, resista e avance.

One response to “NOVO ROCK GAÚCHO EM ESTADO BRUTO: OS ACIDERAIS, VIANA MOOG E CÓDIGO PENAL TRADUZEM IDENTIDADE, RISCO E ENFRENTAMENTO NA SEGUNDA MALUCA”

  1. Texto ótimo.Obrigado.

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